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Trabalho da fotógrafa Gessica Amorim presente na Arte Plural. (Divulgação).

Reviramundo: um passeio poético pelos 20 anos da Arte Plural

A narrativa pensada pelo curador Júlio Cavani dialoga com os rumos da arte contemporânea, mas deixa o visitante livre para seguir sua intuição

Das grande exposições – como as Bienais de São Paulo ou Veneza – a mostras retrospectivas em galerias de arte, mesmo privadas, uma figura é essencial para o êxito da empreitada: o curador. Cabe a ele ou ela escolher as obras ou os artistas que irão compor a exposição, criando uma narrativa que conecta todas as peças para o público. E foi com esse espírito de curiosidade sobre o trabalho de curadoria que fomos visitar a mostra Reviramundo, coletiva realizada pela Arte Plural Galeria para comemorar os seus 20 anos de existência e que estará aberta ao público até o final de julho.

O responsável pela curadoria da Reviramundo é o jornalista e cineasta Julio Cavani que nos acompanhou em um tour pela exposição, permitindo que pudéssemos usufruir do processo de criação da mostra indo muito além da mera apreciação das obras expostas. A Arte Plural, fundada em 2005 pelo galerista e fotógrafo Fernando Neves, é reconhecida pela disposição de apresentar artistas consagrados, mas também por ser um espaço generoso para novos talentos, exposições fotográficas e ações de formação de público. 

Pintores como Rinaldo Silva, Maurício Arraes, Bete Gouveia, Ana Vaz e fotógrafos que exploram novas narrativas visuais a exemplo de Helia Scheppa, Yeda Bezerra de Mello, Walter Firmo, entre tantos outros, já ocuparam a galeria, cuja atuação cultural desdobra-se ainda na promoção de rodas de conversa e palestras no campo das artes e no acolhimento de movimentos como o coletivo de mulheres fotógrafas Vixi Marias.

Esse perfil cultural da Arte Plural foi inclusive um dos elementos que guiou Julio Cavani quando ele começou a pensar na montagem da exposição Reviramundo. Na primeira etapa, ele fez uma minuciosa pesquisa da trajetória artística e cultural da galeria e durante cerca de dois meses e meio visitou os ateliês dos artistas selecionados, conversando com eles e definindo quais obras seriam exibidas. 

Por ser comemorativa, Cavani observa que a mostra “é um exercício de memória e projeção que articula a passagem do tempo como estímulo para redimensionar as noções de passado, presente e futuro a partir do entendimento da criação autoral como um campo de fluxo contínuo em constante reformulação”. As obras trazem um recorte de aproximações e correspondências que evidenciam a recorrência e a transformação de temas, técnicas e procedimentos que marcam as tendências surgidas desde o início do século 21 e que de alguma forma foram testemunhadas pela Arte Plural nesses 20 anos de existência.

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Não é a primeira vez que Cavani faz curadoria para a Arte Plural. Ele assinou uma exposição individual de Mauricio Arraes e duas coletivas: A Necessidade do Amor, em 2019, e A Seguir, logo após a pandemia da Covid-19. “Como o objetivo da Reviramundo é comemorar os vinte anos, decidimos reunir 20 artistas, sendo dez que já trabalham com a galeria e dez convidados, para não ficar algo muito voltado para o passado e apontar para uma renovação que é uma das características da Arte Plural”, diz.

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O curador Julio Cavani, na Arte Plural: “criação autoral como um campo de fluxo contínuo em constante reformulação”. (Gustavo Bettini/Divulgação)

A exposição 

Antes de iniciar o tour, Cavani lembra que no decorrer dos anos a galeria trabalhou com artistas com linguagens muito diferentes. “Por isso não achei apropriado estabelecer um tema dominante, preferi provocar uma reflexão sobre os diversos caminhos da arte moderna, da arte popular, algo cada vez mais presente nos circuitos e discussões da arte contemporânea, onde as fronteiras e as hierarquias, às vezes até preconceituosas, estão sendo diluídas”. 

Segundo Cavani esse novo olhar sobre a história da arte está relacionado a um reflexo do que também vem acontecendo na sociedade, nos movimentos de reparação histórica, de inclusão e em mudanças que precisam ser permanentes. “Espero que essas discussões nas artes não sejam apenas um modismo ou uma tendência do mercado”, destaca. 

Ele observa ainda que a coletiva não é composta apenas por artistas recifenses. “A maioria é do Recife, mas temos nomes de outras regiões de Pernambuco e de outros estados. Jéssica Amorim é de Flores, Adeildo Leite, de São José do Egito, ambos do Sertão e Agda, é de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste. Temos também Lucas Elias, de Santa Catarina e três artistas do Ceará – Gerson Ipirajá, Blecaute e o fotógrafo Nicolas Gondin que conheci no ArtePE.

“Não achei apropriado estabelecer um tema dominante, preferi provocar uma reflexão sobre os diversos caminhos da arte moderna, da arte popular, algo cada vez mais presente nos circuitos e discussões da arte contemporânea. (…) Espero que essas discussões nas artes não sejam apenas um modismo ou uma tendência do mercado””. 

Julio Cavani

O conjunto das obras expostas reflete também uma provocação da curadoria que nasceu da própria lógica da exposição. “A partir da ideia de passagem do tempo, ao selecionarmos as obras e iniciar a montagem percebemos um traço atual da arte em que artistas das novas gerações, muitas vezes, revisitam procedimentos, estilos, técnicas e temas que artistas mais experientes já trabalhavam. E como na Reviramundo temos autores de diversas faixas etárias, organizamos a distribuição das obras de modo que o visitante possa livremente enxergar essas relações”, pontua Cavani.

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Blecaute. (Gustavo Bettini/Divulgação).

O título da exposição, prossegue Cavani, “é uma metáfora que remete a própria Terra, ela gira, o mundo dá voltas e muitas alegorias podem ser feitas a partir daí. Então a exposição vai se construindo por agrupamentos sugeridos entre os trabalhos dos artistas. No início temos três obras com personagens cobertos, com máscaras, personagens meio ocultos como se indicasse que a exposição vai abrir-se em seguida”. 

De fato, vemos nesse primeiro grupo, o personagem da obra de Géssica Amorim que tem um tecido sobre o rosto, a foto de Nicolas Gondim trazendo a temática dos papangus, porém diferentes dos papangus que conhecemos em Pernambuco, e o quadro de Guto Oca, onde temos a figura de um homem negro com o rosto emoldurado em um véu rosa-cinza, revelando tanto o seu olhar daltônico quanto suas preocupações com questões de identidade.

Em seguida passamos para a obra de Priscila Buhr em que ela trabalha fotografia, objetos bordados e usa também o papiro, um papel que é quase um tecido e no qual podemos ver a trama das fibras que o formam. “Esse trabalho de Priscila conversa com a obra de Géssica, que também tinha a trama dos tecidos, com a textura da parede e se relaciona com a obra seguinte de Sebastião Pedrosa, que faz parte da série Tessituras, onde ele faz pequenas pinturas, recorta elas em tiras e depois mistura todas”, observa Cavani.

Narrativa com liberdade

No seu trabalho de curadoria, Cavani faz questão de assinalar que apesar de ter pensado em uma narrativa, em uma lógica, ela não está escrita em lugar algum. “Queria deixar o visitante livre para ele também poder ver outras conexões e fazer suas interpretações de forma intuitiva”. Voltando a sua descrição, Cavani destaca que no conjunto de obras da segunda parte da exposição ele selecionou peças que sugerissem uma ideia de desconstrução.  

“O desenho de Gerson Ipirajá que abre essa sequência, mostra uma diluição da forma. Ele usa a técnica de pintura a aguada, em que a mistura de tinta nanquim e água fazem um desenho espontâneo, no qual ele incorpora traços do seu subconsciente cujas formas remetem a culturas ancestrais afro-indígenas do Nordeste do Brasil”, diz Cavani.

Após a obra de Ipirajá vemos o trabalho de Agda, uma artista que opera com várias linguagens e tem ligações com a cultura sertaneja do Nordeste. Cavani diz que, além dos desenhos exibidos, ele queria mostrar todas as expressões com as quais ela trabalha. “Na abertura da Reviramundo, ela cantou e recitou poemas criados na hora, usando como mote o título da exposição”. 

Na continuação temos uma gravura de Ana Lisboa – uma poliestergrafia que retrata uma espécie de corrimão descontruído –, seguida por um quadro de Lucas Elias, no qual vemos um cobogó como se estivesse flutuando entre azulejos e plantas. Depois, vemos um desenho de Daniel Araújo com uma figura humana que parece estar derretendo. 

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Mauricio Arraes. (Foto: Gustavo Bettini/Divulgação).

Percebe-se ainda que Cavani não quis agrupar as obras, separando, por exemplo, as obras figurativas das abstratas ou deixando quadros do mesmo artista lado a lado. “Quando visitei os ateliês fui vendo obras que não integraram o acervo da galeria, mas que poderiam compor os núcleos da exposição, por isso alguns artistas têm mais de um quadro exposto, mas eles não estão um junto do outro. Também foi minha intenção que cada área da mostra tivesse sempre uma quebra”. 

Outro núcleo da exposição é formado pelos trabalhos de Anderson Sang que cria uma espécie de floresta extraterrestre e foge do formato clássico da tela quadrangular ou retangular. “Anderson é um artista que lida com realidade virtual e vamos convidá-lo em breve para ele vir na Arte Plural apresentar seus experimentos nesse suporte”, avisa Cavani. 

Nesse mesmo conjunto tem o trabalho de Danielly Guerra com uma paisagem disforme e surreal e o de Ana Lisboa que traz uma floresta, mas representada de maneira fragmentada e muito livre. Depois, ao lado de um quadro de Luciano Pinheiro, temos a interessante obra de Cacá Mousinho. “Ela faz um exercício de desenhar, apagar, desenhar de novo, voltar a apagar e os rastros do desenho vão ficando, isso remete ao passar do tempo algo muito presente na exposição”, explica Cavani.

Obras com figuras humanas formam um outro núcleo onde Cavani quis mostrar trabalhos que se mostram como crônicas do cotidiano e comportamentos da cultura pop. “Isso está presente no quadro de Eduardo Nóbrega que a princípio parece uma pintura abstrata, mas cujas cores denotam uma paleta bem própria do artista que somadas aos demais elementos trazem algo muito jovem e contemporâneo”. 

Essa jovialidade pode ser vista também nos trabalhos de Blecaute falando de moda, de desejos e de Adeildo Leite, com seu homoerotismo sutil onde vemos um rapaz com um celular fazendo uma selfie associado a um cartaz imaginário da primeira Bienal de São Paulo. Ao lado, temos uma tela de Maurício Arrais cuja personagem é uma vendedora de feira. Segundo Cavani ela funciona como uma espécie de provocação e ironia sobre o mercado de arte. 

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Gerson Ipirajá, um dos artistas presentes na mostra. (Foto: Alexandre Figueirôa/O Grito!).

Concluindo o conjunto temos uma série de fotos de Helia Scheppa feitas na frente do Cinema Especial, uma sala de filmes pornôs que existia na Rua da Saudade e mais fotos dos papangus de Nicolas Gondim. Elas foram registradas na Praia da Peroba, em Icapuí, no Ceará, onde os brincantes, nos dias de Páscoa, saem pela praia com fantasias e máscaras feitas de materiais recolhidos no lixo.

Completam as obras selecionadas para a Reviramundo duas esculturas. A primeira é de Mozart Santos, na qual ele pega elementos da natureza e do cotidiano e reconstrói objetos a partir de sua poética pessoal. A outra, de Cacá Mousinho, pelo seu peso e volume, foi colocada na entrada da galeria. Ela é construída com tacos de antigos edifícios de São Paulo que se tornaram ocupações. “A artista participou desses movimentos e sua obra nos faz pensar em uma lógica de coexistência de tempos distintos. Tantas pessoas em diferentes épocas passaram por esses prédios e a escultura emerge como algo que foi destruído e se renova”, conclui Cavani. 

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