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Foto: Jan Ribeiro/Fundarpe.

A presença incontornável de Jomard, por Ricardo Maia

A importância de Jomard transcende o cenário pernambucano. Talvez não tenha alcançado a projeção nacional massiva que teria se tivesse nascido ou morado no eixo Rio–São Paulo, mas a sua marca na cultura é imensa

Jomard abriu muitas portas na minha vida. Ele foi um guia intelectual, mas também sensível, estético e artístico. Pela diferença de idade, trazia consigo uma conexão com o passado, quase uma ancestralidade, uma figura quase de “orixá” ou de uma entidade, por mais que ele mesmo não gostasse dessas canonizações. A sua influência marcou profundamente a minha vida pessoal, artística e profissional.

Ele me apresentou a universos amplos, desde a poesia e o tropicalismo até as artes em geral e o pensamento filosófico. Eu já lia Paulo Freire, mas Jomard havia trabalhado com ele, o que trazia para perto toda essa referência pedagógica e política. Jomard praticava uma política do corpo a corpo, do ordinário, do dia a dia, uma troca próxima com poucas pessoas que gerava uma grande reverberação. Ele gostava de andar pelos lugares, conversar, se relacionar e se envolver profundamente com as pessoas, lembrando muito aquela ideia de engajamento comunitário e troca constante.

A importância de Jomard transcende o cenário pernambucano; ela é de ordem nacional. Ele escreveu dois manifestos do movimento tropicalista e textos sobre a Bossa Nova. Talvez não tenha alcançado a projeção nacional massiva que teria se tivesse nascido ou morado no eixo Rio–São Paulo, mas a sua marca na cultura é imensa.

O cinema é fundamental para compreendê-lo. Ele é uma referência incontornável no ciclo do cinema Super-8 brasileiro. Suas obras e seu método criativo dialogavam diretamente com a vanguarda cinematográfica, carregando influências de Jean-Luc Godard e Glauber Rocha. Havia uma fusão constante em sua obra: a música, a poesia narrada em off entrecortada por imagens e sons, e a experimentação estética. Atualmente, o público recorre às obras dele tanto para discutir sua arte quanto para revisitar como era o Recife na década de 1970.

Além do cinema, destacam-se seus trabalhos de poesia, como os Atentados Poéticos, que circulavam de maneira alternativa: ele tinha o hábito de imprimir e distribuir os textos para as pessoas na rua, enviá-los pelo correio ou entregá-los a quem encontrava em suas viagens. Ele tentava ampliar ao máximo a circulação de suas ideias pelas mídias e tecnologias disponíveis.

Se formamos um resumo sobre Jomard, o eixo central de sua trajetória é o compromisso inegociável com a liberdade: a liberdade crítica, a liberdade criativa, a liberdade do corpo e o direito de existir do jeito que cada um quisesse e se sentisse bem. Ele era profundamente respeitoso com todas as formas de existência. Havia nele uma postura crítica e transgressiva que recusava discursos paternalistas ou certezas estabelecidas, marcando fortemente tudo o que produziu.

Essa generosidade se manifestava na convivência diária. Ele conheceu minha mãe antes de mim, e nossos caminhos se cruzaram a partir de um trabalho que fiz na Unicap, no curso de jornalismo. A partir daí, nossas casas viraram extensões um do outro: íamos à casa dele, ele vinha à minha, circulando pelos espaços culturais e boêmios do Recife, como o centro da cidade, o Bloco do Nada e o Carnaval.

Os espaços que transitei com Jomard eram múltiplos e vibrantes. Ele circulava pelas universidades, como na Cantina Star, na Boa Vista, um espaço que ele adorava, nos ambientes de shows de bandas da época (como o Deta Comum e no Capibar), e nos grupos de estudo que ele próprio organizava. Nesses encontros, discutíamos estética, cultura, arte, além de textos de pedagogia e psicanálise.

Esses espaços reuniam figuras importantes da cena acadêmica e artística da época, como Ângela Prysthon e Paulo Cunha (que foi meu orientador). Como eu estudava jornalismo na Unicap e não na UFPE, Jomard me levava para assistir às aulas como ouvinte nas disciplinas de Ângela Prysthon no PPGCon. Ele fazia isso com frequência: frequentava aulas, participava ativamente de programas de pós-graduação e estava sempre disposto a se envolver e trocar saberes.

Para mim, ficam muitas memórias e momentos compartilhados. Ele abriu as portas para a minha entrada no mestrado do PPGCom da UFPE e topou parcerias ousadas, como gravar com a nossa banda no projeto Jota Bem Comum. Jomard era aquele que entregava pastas repletas de textos — seus e de outros autores que admirava —, buscando sempre aquecer o debate, o momento histórico e o calor da troca intelectual. Sua obra, sua postura e sua generosidade intelectual continuam amplificando o nosso repertório e ecoando na cultura brasileira.

Ricardo Maia é jornalista, pesquisador e produtor cultural.