Obra dos argentinos Carlos Sampayo e José Muñoz é tida como a biografia que mais se aproxima do legado artístico de Billie

A biografia em quadrinhos de Billie Holiday (1915-1959) nos ensina bastante sobre o conceito de “clima”, algo imprescindível em qualquer arte que se proponha a contar uma história através de uma narrativa, seja a mídia que for. Criada pelos argentinos Carlos Sampayo e José Muñoz, a obra transporta para a linguagem dos quadrinhos o jazz novaiorquino popularizado por Billie. Fragmentado, obscuro, passional ao extremo e cujo clima sempre foi marcado por beleza e dor.

Compositora e cantora, Billie Holiday (cujo nome de batismo era Eleanora Fagan), foi um dos maiores nomes do jazz, autora de clássicos como “Strange Fruit” e “Lady Sings The Blues“. Morreu prematuramente, aos 44 anos, de cirrose hepática, algemada à cama do hospital após uma detenção por posse de drogas.

Sua história de vida está imbuída em sua música, marcada por momentos plenos de alegria e sofrimento. Tornou-se uma das maiores estrelas de seu tempo, mas sofreu na pele o racismo da sociedade norte-americana. Foi presa diversas vezes, sofreu violência policial e chegou a ser proibida de cantar em clubes de Nova York, além de ter passado por relacionamentos destrutivos que a levariam à depressão. Sua vida pessoal alimentava o mito do jazz como trilha dos desesperados, dos excessos.

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No prefácio dessa nova edição brasileira da HQ, o crítico de jazz Francis Marmande assim resume a trajetória da cantora: “Encarnava a imagem do jazz em preto e branco: suas músicas de vadio truculento e disforme, que primeiro odiaram – típica história do racismo cotidiano à moda americana – que logo acabariam sendo mitificada (…) e que agora querem branquear a grandes golpes de sociologia e antropologia, embora retintos da moral puritana.

E voltamos à questão do clima: não há como entrar na leitura da obra sem ser tomado por uma atmosfera muito particular que remete diretamente à música de Billie. Gibi não tem áudio nem trilha sonora, mas aqui é como se tivesse. Muñoz e Sampayo fazem um trabalho cheio de camadas e nuances que vão além do formalismo: é um equilíbrio entre o tributo passional e um estudo de clima aplicado aos quadrinhos.

Nesse gibi “jazzístico”, os autores costuram a história de vida da cantora a partir de uma investigação jornalística, 40 anos depois de sua morte. Na trama, um repórter começa a levantar informações sobre a cantora, o que nos leva a uma narrativa não-linear que perpassa diversas passagens de sua vida, desde seu começo nos clubes, passando pelo estrelato, o relacionamento conturbado com seus companheiros e o vício em drogas e álcool.

O preconceito racial, claro, está presente o tempo todo, expondo uma sociedade americana que nunca a aceitou de bom grado.

O trabalho de Muñoz e Sampayo é tido até hoje como uma das melhores biografias da cantora e uma das que melhor traduziram seu legado artístico para a música. Lançada nos anos 1980, a HQ fez a dupla conhecida fora da Argentina, levando-os a receber o Grand Prix no prestigiado festival de Angoulême.

A edição da Mino é primorosa, com capa dura, com detalhes em dourado na impressão e papel de alta gramatura. A obra já tinha saído por aqui pela L&Pm com o subtítulo “A Dama Negra do Jazz”, mas recebe agora o tratamento da obra-prima que é.

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