Quanto vale a voz de um artista? A cultura e a campanha pela reeleição de Lula

Contra a mentira e o medo, a arte e a coragem se mostraram a melhor resposta

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Ato "Cultura com Lula", no Rio de Janeiro. (Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação)

Durante o período de campanha, vimos, além dos levantes populares históricos, muitos artistas colocando a cara para jogo e se posicionando firmemente contra um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL). Não é segredo que a classe cultural sofreria desmontes importantes em todas as suas frentes: quem defende uma narrativa única, quem precisa de mentiras para se sustentar e quem não entende o significado de liberdade não gosta da arte, porque a arte é plural, crítica e viva. Mas se posicionar publicamente também é uma decisão difícil. Requer humanidade, coragem e, às vezes, implica perder oportunidades e contratos importantes. Diante do fascismo, no entanto, a classe artística brasileira não titubeou em se somar à luta, principalmente por meio de projetos independentes.

E o envolvimento valeu a pena: porque a voz e a influência de quem conversa com o povo por meio da arte não são pouca coisa. Ver um rosto conhecido e uma voz familiar falando sobre direitos, princípios e escolhas que importam à política brasileira tem um peso diferente, afinal, essas são pessoas que tocam por meio da música, do teatro, das novelas, das histórias contadas das mais diversas formas. O público de cada artista carrega um senso de identificação e pertencimento que se traduz fortemente nos valores e ideais que o artista expõe. A revista O Grito, portanto, agradece a cada nome da cultura que decidiu não se ausentar e lutar por um Brasil democrático. Os artistas foram cruciais para a vitória de Lula. Registramos aqui algumas das iniciativas e movimentos da classe artística pela democracia.

Nas ruas, deram show, mais uma vez, um número infindável de músicos que se juntaram aos atos em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, e tantos outros lugares, com nomes como Baiana System, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Marina Sena, Daniela Mercury, Marisa Monte… Em Pernambuco, os blocos de carnaval de Recife e Olinda juntaram a luta à alegria para mobilizar as pessoas a saírem de casa. Além disso, foram notórias, no Nordeste, reuniões, assembleias e mobilizações da classe artística para se organizar na campanha. Houve, inclusive, uma carta assinada por nomes importantes do audiovisual, como Kleber Mendonça Filho, Petra Costa, Fernando Meirelles e Rodrigo Teixeira, pedindo à comunidade internacional atenção ao Brasil.

No tema dos manifestos e cartas, quase todas as categorias artísticas se posicionaram, inclusive as livrarias, que divulgaram um manifesto coletivo em nome de mais de 30 estabelecimentos pedindo pela defesa da bibliodiversidade, da democracia e de políticas públicas para o livro. Na internet, diversos artistas internacionais também pautaram as eleições brasileiras e pediram pela continuidade de um governo democrático: Tilda Swinton, Javier Bardem, Almodóvar, Guillermo Del Toro, Mark Ruffalo, Joachim Trier, Julie Delpy, Juliette Binoche, Madonna, Roger Waters, Pedro Pascal e muitos outros.

No campo da mobilização digital, projetos encabeçados pelo jornalismo independente, como o Revelando, tiveram papel crucial para pautar os inúmeros perigos que traria um governo de Flávio Bolsonaro e contaram com artistas para contar cada história investigada: Fábio Porchat, Juliette, MC Cabelinho, Wagner Moura, Luana Piovani, Samara Felippo, Camila Pitanga e Alessandra Orofino apresentaram a temporada. Outras iniciativas também produziram materiais extremamente relevantes, como o perfil do 342Artes, criado por Paula Lavigne, que desde 2011 articula os artistas brasileiros pela democracia, e relatos e posts dos próprios artistas, que tomaram a questão nas mãos e decidiram conversar com o público.

Juntos e mobilizados, cheios de coragem, os multiplicadores de cultura mundo afora lutaram com garra junto aos estudantes, jornalistas, idosos e cada um que foi à rua panfletar, virar voto, conversar, gritar nos atos, cada um que lutou digitalmente, espalhando conhecimento e mostrando a cara com uma coragem histórica. A luta valeu a pena, vencemos e vamos sorrir. Depois, nos resta trabalhar pela continuidade dessa bravura, pela organização popular, pelo trabalho de base contínuo daqueles que foram às ruas, pela reformulação da comunicação digital e pela humanidade de cada artista de sempre defender as pautas que importam ao povo brasileiro, sem medo. Porque quem tem voz vai continuar teimando, sempre, por um futuro melhor.