Cão sem Plumas, de Camila Valença, tem exibições na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Janela de Cinema 2026

O documentário percorre a cartografia do Capibaribe e bastidores da criação do espetáculo da Companhia Deborah Colker

Rio c7 net
A geografia humana que se desloca no fluxo das águas foi a base das coreografias de Deborah Colker. (Foto: Cafi)

A realizadora pernambucana Camila Valença estreia na direção de longas-metragens com Cão sem Plumas, documentário que investiga o cruzamento entre literatura, dança e linguagem cinematográfica ao longo do curso do rio Capibaribe. Produzido pela Perdidas Ilusões e JR Produções, com produção associada da Jurema Filmes e produção executiva de Carol Ferreira, o filme toma como ponto de partida o processo criativo do espetáculo homônimo concebido pela coreógrafa Deborah Colker. Além de estar na programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ele será exibido nesta sexta (30), no Cinema São Luiz, no Janela Internacional de Cinema.

A montagem cênica foi diretamente inspirada no poema O Cão sem Plumas, publicado em 1950 pelo escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto para decodificar as tensões sociais e a paisagem humana das margens fluviais do Estado. O alicerce da narrativa documental remonta a 2016, quando Colker, o produtor João Elias, Valença e o diretor Cláudio Assis realizaram uma residência artística de 25 dias com uma comitiva de 50 pessoas por municípios do Interior de Pernambuco. 

ela 2 net 2
O filme usa os versos do poema de João Cabral de Melo Neto para descrever os moradores que vivem às margens do Capibaribe. (Foto: Cafi)

O percurso cruzou localidades do Agreste, da Zona da Mata e do Litoral, a exemplo de Belo Jardim, Brejo da Madre de Deus, Nazaré da Mata, Limoeiro, Carpina e Tamandaré. A experiência envolveu oficinas corporais com moradores, apresentações públicas em praças e trocas com mestres da cultura popular, culminando em uma intervenção em balsa marítima entre o Parque das Esculturas Francisco Brennand e o Marco Zero, no Recife.

CAMILA VALENCA Credito Rodrigo Gorosito
Este é o primeiro longa metragem da diretora Camila Valença. (Foto: Rodrigo Gorosito)

Com trajetória consolidada como produtora em longas como Big Jato (2016), Piedade (2019), Vivo 76 (2026) e Coração de Lona (2026), Valença concebeu a produção como um exercício metalinguístico. A obra opera como um filme dentro do filme, articulando os registros captados durante os ensaios com uma reflexão sobre a materialidade dos corpos e as margens geográficas descritas na poesia cabralina. O projeto documental conta com imagens de still assinadas pelo fotógrafo Carlos Assunção Filho, o Cafi (1950-2019), direção de fotografia de Pedro Sotero, Crika e Marcelo Lacerda, além de montagem dividida entre Mariana Valença e Mair Tavares.

Caranguejo net 2
O documentário tem foco na criação artística e busca uma narrativa sensível capaz de expressar a relação dos corpos com o rio. (Foto: Cafi)

A força poética dos versos de João Cabral ganha corpo sonoro na tela por meio das interpretações vocais da compositora paraibana Cátia de França e do cantor e poeta pernambucano Lirinha, além de intervenções musicais assinadas em parceria com DJ Dolores. Ao revisitar os registros, quase uma década após as viagens, o filme reafirma a urgência política e estética da obra original, traduzindo o atrito entre a lama dos manguezais, a aridez do Sertão e a expressão física dos intérpretes em um inventário visual sobre o território pernambucano.

Serviço:

Cão Sem Plumas – Janela Internacional de Cinema

Onde: Cinema São Luiz

Quando: Sexta-feira (30) 18h20

Ingressos: ingressosfundarpe.org e na bilheteria do cinema R$ 10 inteira R$ 5 meia