Conversamos com as autoras sobre o diferentes pontos de vistas do feminismo, da complexidade do tema e de como ele é essencial para um mundo mais justo e da razão do "menino veste azul e menina veste rosa" não fazer sentido algum

Desafiando os padrões e lutando direitos e igualdade, as feministas estiveram presentes na história da humanidade desde sempre. Filósofas, rebeldes e ativistas, elas desafiaram o status quo, quebraram padrões e revolucionaram a sociedade. A HQ , de e , mostra que o movimento não cabe em uma única definição e que está longe de um reducionismo. A obra, lançada pela editora Blucher, traça a evolução do feminismo na Europa e na América do Norte desde a Antiguidade até os tempos atuais.

O livro é uma espécie de ensaio e traz informações importantes e contextualizadas, mas contadas de maneira bem-humorada e com uso de caricaturas. Assinado pela desenhista Patu e pela jornalista e cientista política Antje Schrupp, a obra discute temas relevantes para a luta das mulheres, como direito ao voto, autonomia sobre o corpo e independência intelectual. Também destaca personalidades importantes para o movimento, como Simone de Beauvoir, Angela Davis, Olympe de Gouges e Audre Lorde.

É interessante que a obra traz um olhar bastante apurado para mostrar o quanto o feminismo é complexo e amplo. “Feminismo não é sobre a relação de mulheres e homens (ou outros gêneros), mas sobre as ideias das mulheres para o mundo. O feminismo, como você pode ver em muitos países, não reivindica apenas os direitos das mulheres, mas sim um mundo justo e uma boa vida para todos”, disse Antje, em entrevista à Revista O Grito!. 

A obra é parte de uma série sobre histórias breves de movimentos políticos pelo mundo e esperamos que novos volumes cheguem por aqui. A HQ traz reflexões sobre o papel do feminismo para a busca de uma sociedade mais justa.  “Temos que deixar isso bem claro: você não pode ajudar os pobres se você não se juntar ao feminismo. Se você não é feminista, você é parte do problema, não a solução, não importa quão “liberal” ou “socialista” você pense que é”. diz Antje.

No papo abaixo, as autoras falam do processo criativo da obra, do momento do feminismo no mundo e ainda comentam o lançamento da HQ no Brasil do “menino veste azul e menina veste rosa”.

Leia a entrevista. O livro está à venda o site da editora e na Amazon.

O livro discute temas importantes sobre os surgimentos das ondas feministas e é bem didático. Mas achei pertinente o uso do termo “breve” e também da delimitação do contexto (“Euro-Americano”). Pode nos contar como foi o processo de organização do conteúdo do livro?

Antje: A ideia deste projeto veio do editor que já havia começado uma série de quadrinhos “breves” para explicar os movimentos políticos. O primeiro contato acho que foi com Patu, então depois eles perguntaram se eu queria colaborar como co-autora.

Patu: Para mim foi muito importante nomear que tipo de feminismo falamos no livro. O título “euro-americano” não se refere apenas ao contexto do Norte Global, mas também para desafiar uma visão hegemônica em que o feminismo é representado a partir de uma perspectiva branca e europeia. Conversando com Antje e a editora sobre isso, eles concordaram que deveríamos pelo menos mencionar esse quadro no título. Do meu ponto de vista enquanto pessoa com experiência em imigração na Alemanha, eu sabia sobre exclusões, pontos de vista universalistas no feminismo branco e sobre o eurocentrismo.

Antje e eu viemos de diferentes perspectivas e descobrimos uma maneira de comunicar o que é importante para cada um de nós durante o processo de trabalho e tentamos ajustar o conteúdo dessa forma. O principal trabalho de Antje foi decidir sobre o conteúdo. O meu foi colocá-lo na dramaturgia, escrever diálogos e fazer os desenhos.

Como nasceu esse projeto? Pode nos contar como foi o processo criativo até ele ser transformado em quadrinhos?

Antje: Obviamente, foi difícil decidir que questões e pessoas escolher em um enorme universo de ideias feministas ao longo dos séculos. Eu queria mostrar uma mistura de nomes proeminentes e menos conhecidos. Você não pode contar uma história do feminismo sem mencionar Simone de Beauvoir ou Judith Butler, por exemplo, mas um movimento complexo não é feito somente por alguns líderes de destaque. Eu queria ampliar o foco e apresentar não apenas ativistas dos direitos das mulheres em um sentido restrito, mas também ativistas de movimentos trabalhistas ou antiescravistas, por exemplo.

Quis mostrar o feminismo como um movimento pluralista com uma variedade de opiniões e até contradições, não como um partido monolítico para os “interesses das mulheres”. Com esses parâmetros em mente, identifiquei pessoas e problemas e eventos históricos e escrevi um primeiro rascunho da história. Então, passei esse material à Patu.

Patu: A ideia do quadrinho veio da editora. É parte de uma série sobre diferentes movimentos sociais. Eu estava muito interessada, porque significava uma oportunidade para estudar sobre várias histórias feministas. A editora me colocou em contato com Antje, que me enviou um rascunho.

Simone de Beauvoir presente na obra: muitos pontos de vista. (Divulgação).

O processo criativo teve alguns desafios, como transformar um texto factual em um storyboard cômico e dramático. Eu tentei encontrar um jeito humorado, com um pouco de auto-ironia em meus diálogos e designs de personagens. Um dos maiores desafios foi ter uma quantidade delimitada de páginas para contar todas essas histórias. Isso influencia muito a narrativa e o modo com a história será apresentada. E para mim há sempre o desejo de contar mais perspectivas. Durante o processo do storyboard eu também comecei a ir a vários arquivos feministas e gastar muitas horas em pesquisa na internet para material visual.

Acreditam que os quadrinhos enquanto mídia contribuam de alguma maneira específica para a disseminação do tema?

Antje: Com certeza!

Patu: Não há diferença se você perguntar se literatura ou quadrinhos aumentam a disseminação do feminismo. Claro que sim, assim como a literatura pode ou não pode mostrar ponto de vistas feministas, quadrinhos também podem ou não podem.

A luta feminista não pode ser dissociado da luta pelo direito de todos: “se você não é feminista, então é parte do problema”. (Divulgação).

O feminismo não é único, como é apontado no livro. De que forma a obra pode contribuir para alargar o debate sobre as diversas ideias e tendências feministas no mundo?

Antje: Na minha opinião, feminismo não é sobre a relação de mulheres e homens (ou outros gêneros), mas sobre as ideias das mulheres para o mundo. O feminismo, como você pode ver em muitos países, não reivindica apenas os direitos das mulheres, mas sim um mundo justo e uma boa vida para todos. Neste momento histórico, o mundo é dominado pela luta entre a globalização neoliberal-capitalista e o nacionalismo autoritário-racista. Os movimentos tradicionais de esquerda, dominados por homens, falharam repetidas vezes em apresentar uma alternativa. O feminismo pode ser uma alternativa quando deixar de lado sua perspectiva burguesa branca e historicamente dominante e abraçar a diversidade.

As mulheres não têm interesses comuns ou opiniões idênticas só porque são mulheres. Mas elas têm uma grande variedade de experiências e ideias que ajudariam a colocar o mundo em ordem novamente. Esta é uma verdade global, eu acho.

Patu: Eu trabalho como quadrinista e ilustradora. Eu tento manter as perspectivas intersecionais em minha mente enquanto escrevo minhas próprias histórias em quadrinhos. E, para mim, é importante estar ciente de que estou desenhando e escrevendo de uma determinada posição. Como produtora de imagens, como quadrinista, acho importante me confrontar com as representações coloniais, sexistas, classistas e heteronomativas da mídia com as quais todos nós crescemos e que muitas vezes ainda está no inconsciente coletivo. Eu acho que imagens e ficção são coisas poderosas e podem influenciar e transformar nosso pensamento e consciência.

Se algo como “papéis naturais de gênero” realmente existisse, eles se manifestariam naturalmente. Você não teria que manipular ou forçar crianças pequenas, desde a mais tenra idade, a comportamentos conformativos ao gênero.

Como enxergam hoje o papel do feminismo em um mundo cada vez mais apegado às ideias conservadoras (caso de Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil)?

Antje: Há uma razão pela qual os políticos de direita em todo o mundo escolheram o feminismo como seu principal inimigo. Lutar contra a liberdade das mulheres é literalmente uma das suas marcas. Eu acho que eles esperam nos manter ocupadas na defesa de direitos básicos, por exemplo, para escolhas reprodutivas ou liberdades sexuais.

Então, para nós, é ainda mais importante insistir que nosso objetivo é maior: feminismo é sobre justiça, uma renda básica, saúde, relações pessoais livres, direitos reprodutivos, habitação decente, redes de cuidado, liberdade de movimento e assim por diante, para todos os quase 8 bilhões de pessoas neste planeta Terra. Nunca devemos separar os direitos das mulheres dos direitos das pessoas. Isso vale especialmente para os líderes masculinos de esquerda, que muitas vezes pediram às mulheres que reformulassem sua própria agenda para se unirem a um movimento comum. Algo como “ajude os pobres agora, ajude as mulheres mais tarde”. Esta agenda falhou, é fundamentalmente errada. Temos que deixar isso bem claro: você não pode ajudar os pobres se você não se juntar ao feminismo. Se você não é feminista, você é parte do problema, não a solução, não importa quão “liberal” ou “socialista” você pense que é.

Patu: Eu prefiro falar sobre meu trabalho criativo. Então, sendo bem direta: eu não consigo entender o feminismo neoliberal, de direita e conservador. O feminismo é um monte de coisas e, claro, você encontra feministas em diferentes partes do espectro político. Não tenho certeza se o feminismo “salvará o mundo”, especialmente se não estiver lidando com racismo, classismo e histórias pós-neocolonialistas e imperialistas.

O lançamento do livro chega em um momento bem específico do Brasil em que a ministra dos direitos humanos e da família afirma que meninos devam usar azul e as meninas rosa. Como veem essa onda anti-progressista em relação às questões de gênero?

Antje: O pesadelo rosa-azul da cultura de hoje é, na minha opinião, um sintoma de um mundo que perdeu o sentido da pluralidade de gêneros e, talvez, até do pluralismo em si. Nem todo mundo é um “homem”, muito menos um homem branco, saudável e rico. Mas nós construímos sociedades inteiras baseadas neste ideário. Vivemos em simulações sociais que fecham os olhos para o fato de que todas as pessoas são carentes, dependentes dos outros, que não existem “homens feitos por si mesmos”.

Se você não é capaz de ver a realidade, você tem que inventar contos de fadas. Os clichês de gênero nada mais são do que um conto de fadas, na verdade, muitas vezes até mesmo uma história de horror. E são inerentemente ilógicos: se algo como “papéis naturais de gênero” realmente existisse, eles se manifestariam naturalmente. Você não teria que manipular ou forçar crianças pequenas, desde a mais tenra idade, a comportamentos conformativos ao gênero. O fato de que todos esses esforços para educar “meninas de verdade” e “meninos de verdade” são necessários é, em si, uma prova de que esses estereótipos são tudo menos “natural”.

Patu: Eu não posso fazer uma análise política. Estou muito triste e zangada com o que está acontecendo.

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