Reabertura completa do Museu da Abolição traz exposições que articulam passado e futuro

Exposição "Que Herança Você Vai Poder", com 29 artistas, reflete fracasso da abolição como projeto de cidadania; Já "Restituir o Possível" traz um acervo de peças de 12 países africanos

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Tela "Levantamento de Mastro" compõe mostra "Que Herança Você Vai Poder?". (Autoria: Ge Viana/Divulgação)

Após reforma realizada entre 2020 e 2022, o Museu da Abolição (MAB), equipamento localizado no bairro da Madalena, Zona Norte do Recife, reabre de forma plena com as exposições Que Herança Você Vai Poder? e Restituir o Possível. O evento de abertura acontece nesta segunda (15), às 18h, já a visitação pode ser feita pelo público a partir da terça (16).

As duas exposições foram pensadas para dialogar diretamente com o acervo original e a missão institucional do espaço do MAB e inauguram uma nova etapa institucional: “o MAB não esteve fechado. Desde a reabertura, o museu seguiu ativo como palco de diversas mostras e atividades diversas. O que celebramos agora é um momento em que lançamos o nosso novo projeto museográfico pensado e trabalhado especialmente para a instituição”, pontua a diretora substituta, Fabiana de Lima Sales.

A primeira exposição, intitulada Que Herança Você Vai Poder, ocupa o primeiro piso do sobrado cum uma curadoria de 29 artistas e 31 obras feitas pelo historiador Alexandro de Jesus junto a uma equipe que se propõe a refletir “o que restou, de fato, após 1988?” – ano em que a Lei Áurea foi assinada no Brasil.

"Monumento à Voz de Anastácia" é uma das obras expostas. (Autoria: Yhuri Cruz/Divulgação)
“Monumento à Voz de Anastácia” é uma das obras expostas. (Autoria: Yhuri Cruz/Divulgação)

O texto curatorial constata que a abolição da escravidão no Brasil, formalizada em 1988, foi mais simbólica do que efetiva: “O que parte da arte brasileira escancara é o fracasso da abolição como projeto de cidadania. A suposta liberdade concedida em 1888 não rompeu com o regime racial, apenas o atualizou sob novas formas de segregação e silenciamento. Através de performances, instalações, vídeos e objetos, artistas contemporâneos reencenam essa história inacabada, convidando o espectador a uma tomada de consciência crítica. Uma libertação na qual o gozo seja possível”.

O percurso da mostra é distribuído em três eixos: presente, passado e futuro. As obras de cada uma das seções vem tensionar e refletir sobre essas heranças. Para cumprir com esta intenção, reúne artistas como biarritzzz, Tiago Sant’Ana, Caetano Dias, Yane Mendes, Trojany, Tiganá Santana e o Frente 3 de Fevereiro, entre outros, que tensionam as narrativas hegemônicas sobre a história da abolição e a atualidade do ser negro no Brasil.

Já a segunda exposição recebe o título de Restituir o Possível e ocupa o piso térreo do MAB. Com curadoria de Isabelle de Oliveira Ferreira e Wellington Ricardo da Silva (coletivo Mandume Cultural), a mostra apresenta um recorte do Acervo de Cultura Material Africana do MAB/Ibram, composto por 109 peças, dentre elas: esculturas, máscaras e regalias, provenientes de 12 países africanos e mais de 20 etnias.

A proposta expositiva desloca a ideia de restituição do campo material para o simbólico e sensível: trata-se de reconhecer que o que foi deslocado e reconfigurado pelo colonialismo permanece vivo nas práticas, nos corpos e nas criações negras contemporâneas.

Sobre a reabertura plena do Museu da Abolição, a museóloga Daiana Silva Carvalho destaca: “este novo momento marca a retomada do diálogo do MAB com os públicos e o fortalecimento do compromisso com a participação social e com a valorização das memórias, histórias e culturas afro-brasileiras”.

Serviço

Que herança você vai poder? | Restituir o possível
Museu da Abolição
Abertura: 15 de junho de 2026 (segunda-feira), 18h
Visitação: A partir de 16 de junho
Segunda a sexta, das 9h às 17h. Sábado, das 13h às 17h
Entrada gratuita
Endereço: Rua Benfica, 1150 – Madalena, Recife – PE.