Em um cenário marcado pela circulação acelerada de informações e pelo avanço da desinformação nas redes sociais, a jornalista e pesquisadora pernambucana Karoline Fernandes lança um livro que busca responder a uma questão cada vez mais urgente: é possível preparar as pessoas para reconhecer e resistir às fake news antes mesmo de serem enganadas por elas?
A resposta apresentada pela autora é sim. Em Meias#Verdades: aprenda a desmascarar táticas de desinformação e combater as fake news, publicado pela Editora Appris, Fernandes reúne conceitos contemporâneos sobre desinformação e apresenta o método conhecido como prebunking como uma estratégia capaz de fortalecer a resistência das audiências diante de conteúdos manipulativos.
A obra é resultado da pesquisa de doutorado desenvolvida pela autora no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Durante a investigação, Karoline também atuou como pesquisadora visitante no Laboratório de Interações Humano-Computador da KU Leuven University, na Bélgica, instituição reconhecida internacionalmente por suas pesquisas em inovação e tecnologia.

Segundo a pesquisadora, a eficácia da desinformação está diretamente relacionada aos mecanismos emocionais e cognitivos que influenciam o comportamento humano. Um dos exemplos citados no livro é o chamado Efeito de Verdade Ilusória, fenômeno psicológico que faz com que informações repetidas sejam percebidas como mais confiáveis, independentemente de serem verdadeiras.
“A desinformação está muito mais associada às nossas emoções do que à nossa razão. Alguns efeitos psicológicos descritos pela ciência evidenciam isso. No livro, apresento um método inovador que foi aplicado de maneira pioneira na audiência brasileira durante a minha pesquisa”, explica a autora.
O conceito central da publicação é o prebunking, termo derivado da expressão inglesa pre-debunking e que pode ser entendido como uma forma de “pré-desmascaramento” da desinformação. Desenvolvido pelos pesquisadores Sander Van der Linden e Jon Roozenbeek, da Universidade de Cambridge, o método se baseia na Teoria da Inoculação Psicológica.
A lógica é semelhante à de uma vacina biológica. Em vez de expor o organismo a uma versão enfraquecida de um vírus para estimular a produção de anticorpos, o prebunking expõe as pessoas a versões controladas de estratégias de manipulação, acompanhadas de explicações e refutações. Dessa forma, os indivíduos desenvolvem maior capacidade crítica para identificar tentativas futuras de engano.
“É possível treinar previamente as audiências sobre as estratégias adotadas pelos manipuladores para que, futuramente, quando essas pessoas se depararem com a desinformação, saibam se proteger e criem resistência contra esses discursos”, afirma Karoline.
Além de apresentar os fundamentos teóricos do método, a autora defende a aplicação do prebunking em jogos sérios (serious games) como ferramenta educativa. A proposta busca transformar o aprendizado sobre desinformação em uma experiência interativa, aproximando conceitos científicos de públicos diversos.
A iniciativa também ultrapassa as páginas do livro. Karoline está desenvolvendo, por meio da startup Literacia Edu, o jogo mobile Meias#Verdades, voltado para o treinamento de crianças e adolescentes contra a manipulação on-line. A ferramenta tem lançamento previsto para 2026 e pretende utilizar elementos de gamificação para fortalecer competências relacionadas à educação midiática e ao pensamento crítico.
Com prefácio do pesquisador e escritor Paolo Demuru, a publicação foi viabilizada por meio do edital Inova Mulher, da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). O livro está disponível em formato impresso e digital.

