Uma luneta apontada ao passado: era agosto de 1972 quando o cineasta William Greaves reuniu, na casa do músico Duke Ellington, em Nova York, algumas das principais figuras do Renascimento do Harlem. Movimento artístico, cultural e intelectual eclodido nas décadas de 1920 e 1930, o Harlem Renaissance foi primordial para a produção cultural afro-americana e contribuiu para a consolidação de uma nova consciência política e racial nos Estados Unidos. Proeminentes artistas plásticos, escritores, músicos e ativistas participaram do grande encontro na casa de Ellington: Aaron Douglas, Romare Bearden, Eubie Blake e Arna Bontemps, entre tantos outros. Muitos não se encontravam havia décadas.
Era uma vez no Harlem resgata os registros imagéticos captados pelas câmeras de Greaves em 16 mm. O material permaneceu sem uma versão cinematográfica concluída por mais de cinco décadas. Coube ao filho do diretor, David Greaves, que também participou das filmagens originais, retomar o projeto com a colaboração da filha, Liani Greaves. O resultado é um documentário que mergulha o espectador numa janela temporal na qual a oralidade é o fio condutor para a compreensão da relevância daquelas figuras que, ouso dizer, são completamente desconhecidas do grande público.
Essencialmente calcado nos depoimentos filmados durante a reunião, o filme dos Greaves é eficiente ao buscar artifícios técnicos para dinamizar a narrativa, como dividir a tela em duas para contemplar mais de um personagem ou inserir outras imagens de arquivo – fotografias, recortes de jornais. Mesmo nichado e repleto de referências a nomes que escapam à maioria de nós, espectadores brasileiros, o documentário alcança êxito ao ser conduzido sem o didatismo tão comum a produções que buscam explicar tintim por tintim as nuances históricas, individuais e coletivas, da história ali apresentada.
Ressalte-se a passagem na qual Richard B.Moore declama o poema “If we must die”, de Claude McKay: é o tipo de registro que fisga o espectador, pela beleza do texto, e aguça a curiosidade de quem não conhecia, até então, a trajetória de tais artistas. Como numa conversa de mesa de bar filmada, William Greaves encapsulou testemunhos riquíssimos, ora bem-humorados, ora profundamente graves e que refletiam as preocupações sociorraciais de uma geração determinante para a luta por direitos para a população preta estadunidense.
Importante recordar que o encontro registrado em Era uma vez no Harlem foi realizado apenas quatro anos após o assassinato de Martin Luther King Jr., um dos principais líderes da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, o que confere uma dimensão ainda mais significativa à reunião promovida por William Greaves. Aqueles artistas e intelectuais, que décadas antes haviam ajudado a redefinir o lugar da população negra na cultura norte-americana, testemunhavam uma sociedade ainda atravessada pelas mesmas tensões raciais que impulsionaram sua produção artística. Tensões que, infelizmente, ainda perduram nos dias atuais e fazem da obra uma ode à luta antirracista.
O filme teve estreia mundial no Festival de Sundance, em janeiro de 2026, e percorreu alguns dos principais eventos cinematográficos internacionais ao longo do ano. O documentário integrou a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes e passou por festivais como os de Toronto, Nova York, Londres e Lisboa. No Brasil, integrou a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo antes de chegar ao público pernambucano no Janela Internacional de Cinema do Recife.
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