Uma noite radiante para o cinema feito em Pernambuco. Essa foi a sensação que marcou os espectadores no terceiro dia do XVII Janela de Cinema. A exibição de dois pesos pesados da produção fílmica deste ano – os longas Cão sem Plumas e A Margem do Rio – não deixam dúvida de que nosso cinema está evoluindo tanto do ponto de vista técnico quanto na sua elaboração estética e narrativa. Ambas as obras mostraram um trabalho apurado em que fica evidente um audiovisual que inclui o diverso e a construção coletiva como eixos do seu processo de criação.
O documentário Cão Sem Plumas, primeiro longa-metragem de Camila Valença, tem como tema a expedição realizada pela coreógrafa Deborah Colker em 2016, ao lado do cineasta Cláudio Assis. A jornada tinha como motivo o registro de imagens que seriam projetadas na montagem do espetáculo inspirado no poema Cão Sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto, para sua companhia de dança

Durante 24 dias, a equipe do projeto, com cerca de 50 pessoas, percorreu o leito do rio Capibaribe desde sua nascente no Agreste pernambucano, passando por cidades como Limoeiro e Nazaré da Mata, até sua foz no litoral do Recife. Valença gravou todo o processo criativo desenvolvido por Colker que incluiu residência artística, encontros com as populações das cidades visitadas, oficinas de dança com moradores locais, ensaios e as coreografias finalizadas pelos bailarinos da companhia.
Com esse material a cineasta produziu um filme que mescla poesia, dança e cinema fazendo emergir uma expressividade que dialoga diretamente com a arte contemporânea. Nele, as palavras, os corpos e as imagens reconfiguram e abarcam os sentimentos, os desejos e reverbera os caminhos da dimensão social que a cultura pode oferecer para o mundo de hoje.

Valença foi muito feliz na edição de Cão Sem Plumas ao conseguir levar para a tela a vitalidade criativa de Deborah Colker. O documentário tem uma dinâmica e uma organicidade ímpar ao mostrar como a elaboração cênica proposta pela coreógrafa dialoga com expressões da cultura popular nordestina rural e urbana em que ambas saem engrandecidas e visualmente deslumbrantes.
Não menos efusiva foi a primeira exibição pública no Recife de A Margem do Rio, o premiado filme de Matheus Farias e Enock Carvalho. O longa-metragem pernambucano venceu o Prêmio Especial do Júri do Festival de Locarno 2026, na Suíça, e conquistou o troféu de Melhor Longa-Metragem de Ficção do Festival do Rio 2026. A exibição arrancou aplausos entusiasmados do grande público que compareceu ao São Luiz, uma reação mais do que merecida para uma obra realmente instigante.

Mais uma vez o Capibaribe, esse rio que corta o Recife e tanto nos comove, é o pano de fundo de uma trama que conjuga drama e thriller e consolida um estilo narrativo e formal que já esteve presente nos curtas feitos pela dupla como Quarto para Alugar (2016), Caranguejo Rei (2019) e Inabitável (2020). Em seus trabalhos, além dos personagens LGBTQIA+, fica claro que Farias e Carvalho gostam de lidar com o suspense e, sobretudo, com o fantástico. E nesse longa de estreia esses elementos reaparecem de uma forma ainda mais sofisticada e elaborada, algo que permeia tanto o roteiro quanto os elementos imagéticos e sonoros.
A trama de A Margem do Rio mostra o cotidiano de Izaquiel, vivido pelo ator Caique Copque, um auxiliar de serviços gerais que costuma ir à noite ao manguezal das margens do Capibaribe, conhecido lugar de pegação gay, em busca de sexo furtivo. Lá ele conhece Jeremias (Ítalo Martins), um pescador misterioso, com quem passa a ter encontros e juntos descobrem a violência cometida por fundamentalistas religiosos no local.
Além da trama central, a narrativa aborda a vivência de Izaquiel com um grupo de amigas travestis e trans com quem divide a moradia e, também, a relação conflituosa com os pais e seus empregadores por conta de sua orientação sexual. A composição do universo de experiências do protagonista é um aspecto importante da narrativa, pois coloca em cena e destaca uma comunidade que como Izaquiel precisa refugiar-se em zonas pouco à vista para poderem sobreviver.

Além da fotografia e iluminação finamente construída, vale ressaltar o empenho do elenco cuja entrega aos personagens e desenvoltura diante das câmeras acrescentam uma camada de sensibilidade à narrativa. Isso é válido, em primeiro lugar, para Caique Copque e Ítalo Martins, cujo desempenho, sobretudo quando estão atuando juntos, nos transmitem um misto de tensão existencial e desejo incontrolável que ultrapassa a superfície da tela. A mesma intensidade na interpretação é observada quando Renna Costa, Artia e Ísis Broken estão em cena, algo que inclusive as levou a ganharem juntas o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Rio. Por tudo isso, nem precisa dizer que A Margem do Rio, cuja estreia nacional está marcada para 07 de janeiro, é um filme imperdível.


