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“Com a Santana, eu me encontrei.” A frase de João Neto, publicitário e redator alagoano de 24 anos, resume a relação com Santana Blossom, persona drag que começou como experimentação e ganhou novos contornos a partir da resposta do público. Natural de Capela e residente em Maceió, João encontrou na personagem uma maneira de colocar em cena sua criatividade e aquilo que, artisticamente, sempre quis expressar. Em setembro, esse percurso chegou a um momento importante com a vitória na terceira edição do Lipsynca, no Recife.
O contato com a arte drag aconteceu por meio de RuPaul’s Drag Race, mas foi a possibilidade de experimentar liberdade e singularidade que fez João se reconhecer nessa linguagem. A recepção do público foi decisiva para que Santana deixasse de ser apenas uma experiência e passasse a ser encarada como um projeto artístico. “Comecei a receber o feedback e o carinho das pessoas. Percebi que a minha arte poderia ser bem mais aproveitada”, conta.
A estética da artista parte de um repertório pop bastante definido. Glee, que está na origem do nome Santana Blossom, é sua principal referência, acompanhada por Lady Gaga, The Rocky Horror Picture Show, Hairspray, a cultura ballroom e artistas drag da velha guarda. No palco, essas influências aparecem em performances centradas na expressão e na emoção.
O drama é um dos registros que mais interessam à artista. Santana gosta de observar a reação do público e encontrar, nas expressões de quem assiste, a confirmação de que a performance criou algum tipo de conexão. A comédia ainda é um território menos explorado. Embora seja fã de queens caricatas, ela reconhece que desenvolver esse registro é um dos desafios que pretende enfrentar.
A construção de uma drag também acontece fora dos palcos. Para João, reunir coragem para sair de casa montado e se expor aos olhares de outras pessoas foi um dos momentos mais difíceis do processo. A experiência de se colocar em risco e assumir a própria presença faz parte da construção de Santana.
No Lipsynca, João chegou com uma expectativa menos ambiciosa: se divertir e conhecer a cena drag pernambucana. Durante a competição, porém, começou a perceber que poderia ocupar aquele palco também como candidato ao título. A possibilidade se tornou realidade quando seu nome foi anunciado como vencedor.
A conquista trouxe, sobretudo, confiança. João ainda se considera um artista em formação e entende que precisa descobrir muito sobre sua própria linguagem. Ao mesmo tempo, o reconhecimento recebido no Recife mostrou que o trabalho de Santana pode ultrapassar as fronteiras de Alagoas. “Estar ali e ver que pessoas gostaram do meu trabalho além do meu estado foi surreal. Recife está no meu coração agora.”
Entre referências da cultura pop, experimentações e descobertas, Santana Blossom segue construindo uma trajetória que ainda está longe de se considerar pronta. Para ela, cada palco funciona como uma nova oportunidade de aprendizado.
Você contou que conheceu a arte drag através de RuPaul’s Drag Race. O que você encontrou na drag que não encontrava em outras formas de expressão?
Encontrei liberdade, encontrei singularidade. Gosto de dizer que, com a Santana, eu me encontrei.
Em que momento você percebeu que a Santana Blossom poderia deixar de ser apenas uma experimentação e se tornar um projeto artístico?
Com certeza, foi quando comecei a receber o feedback e o carinho das pessoas. Percebi que a minha arte poderia ser bem mais aproveitada.

Quem é Santana Blossom e quem é a pessoa por trás dela? Onde essas duas identidades se encontram e onde se separam?
A Santana é tudo aquilo que o João um dia sonhou ser artisticamente. Então, João é a criatividade e a força, mas a Santana é o caminho que eu escolhi para expressar tudo isso.
Qual foi o momento mais difícil do seu processo de construção como artista drag?
Acho que o momento mais difícil é criar coragem para sair de casa montada e dar a cara a tapa, se arriscar.
Que referências visuais, musicais e culturais ajudaram a construir a estética da Santana?
Com toda certeza, Glee é a raiz de onde vem a Santana. Mas Lady Gaga, filmes musicais como The Rocky Horror Picture Show e Hairspray, a comunidade ballroom e artistas drag old school me moldam como artista.
Você descreve Santana como uma drag muito expressiva, interessada em transmitir emoção. O que você quer que o público sinta depois de assistir a uma apresentação sua?
Depende muito da performance, da música e dos cenários que eu me coloco, mas geralmente o drama me atrai muito. Ver os olhos das pessoas brilhando com as minhas expressões me deixa muito feliz e realizada.
Existe alguma emoção que você considera particularmente difícil de transformar em performance?
A comédia. Eu sou obcecada por queens caricatas, mas é definitivamente uma área na qual ainda não me arrisco tanto e admiro muito quem tem esse timing cômico.

Quanto existe de personagem e quanto existe de você mesma nas performances?
Não existe Santana sem a vontade de fazer acontecer do João. Então, nos palcos, o alter ego da Santana é essencial e indispensável, mas, sem o planejamento que ponho, a criatividade e a determinação, nada disso seria possível.
Se você tivesse que apresentar Santana Blossom para alguém através de uma única música, qual seria e por quê?
É a pergunta mais difícil dessa entrevista. Com certeza, todas as respostas para essa pergunta seriam uma versão de Glee. Mas, especificamente, Don’t Stop Believin’. Nunca performei, mas com certeza irei. Sempre me passa a mensagem de não parar de acreditar em mim e na minha arte.
O que você ainda sente que precisa descobrir sobre sua própria linguagem artística?
Eu sou uma drag muito nova, minha experiência ainda é pouca e acredito que os palcos ainda têm muito o que me ensinar, porque todas as vezes que subo neles sinto que aprendi alguma coisa nova.
Você venceu a terceira edição do Lipsynca, em setembro, no Recife. Quando percebeu que poderia realmente sair dali como vencedora?
Eu comentei com todo mundo que fui me divertir e conhecer a cena drag pernambucana, mas, durante a noite, fui percebendo que eu também tinha o potencial de estar ali, dividindo o palco com artistas tão incríveis e até ganhar. Mas a ficha só caiu quando chamaram meu nome.
O que mudou na Santana Blossom depois do Lipsynca?
Acredito que minha confiança em mim mesma. Eu sou uma artista que ainda duvida muito de mim mesma, mas estar ali e ver que pessoas gostaram do meu trabalho além do meu estado foi surreal. Recife está no meu coração agora.


