Há algo de particularmente belo em assistir, na tela do Cinema São Luiz, a histórias que celebram as pessoas responsáveis por manter viva a própria sala de exibição. No domingo (1º), último dia da 17ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, a programação começou sob o signo do afeto, com o curta-metragem Miguel, de Janaína Guedes e Sérgio Poroger. Em apenas nove minutos, a obra presta homenagem a um dos profissionais que integram o cotidiano do histórico cinema da Rua da Aurora, lançando luz sobre um trabalho que, embora fundamental à experiência cinematográfica, raramente ocupa o centro das atenções.
Assim como O Programador, exibido no sábado (31), Miguel encontra na simplicidade do registro uma dimensão humana comovente. Mais do que documentar um ofício, o filme parece interessado em reconhecer a importância daqueles que, longe dos holofotes, ajudam a preservar a experiência coletiva do cinema. A sessão ganhou contornos ainda mais emocionantes com a presença do próprio Miguel Tavares, acompanhado de familiares. Ao final, uma prolongada salva de palmas reverberou pela sala.
Na mesma sessão, a animação franco-belga Iron Boy (Le Corset, 2026), de Louis Clichy, ofereceu um dos momentos mais arrebatadores desta edição do Janela. Ambientada na zona rural francesa dos anos 1980, a narrativa acompanha Christophe, um menino de 11 anos que tenta corresponder às expectativas do pai, agricultor de temperamento rígido, enquanto enfrenta uma condição física que o faz perder o equilíbrio repentinamente. Obrigado a utilizar um pesado colete ortopédico de ferro, o garoto vê sua rotina profundamente alterada, mas encontra na música, nas amizades e nas descobertas da infância possibilidades de emancipação.

Realizada com animação tradicional desenhada à mão, de delicadas texturas aquareladas, a obra é um deslumbramento visual. Os traços, as cores e a expressividade dos personagens conferem à narrativa uma sensibilidade extraordinária, sem que a beleza plástica se sobreponha à complexidade emocional da história. Pelo contrário: a estética parece prolongar os sentimentos de Christophe, traduzindo em imagens sua vulnerabilidade, seus desejos e a descoberta gradual de um mundo que não precisa estar restrito às expectativas paternas.
Também impressiona o desenho de som, elemento decisivo para a construção da atmosfera afetiva do longa. A musicalidade não funciona como mero acompanhamento, mas como parte essencial da trajetória do protagonista, encontrando na descoberta do órgão um caminho para a expressão de sua individualidade. Há uma delicadeza rara na maneira como Clichy articula as limitações do corpo, as imposições familiares e o desejo de liberdade, sem recorrer ao sentimentalismo fácil. Premiado com o Prêmio Especial do Júri da mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes de 2026, Iron Boy figura entre os melhores filmes exibidos nesta edição do Janela, uma celebração extraordinária da arte e da vida.
O cinema reencontra sua própria história
A programação prosseguiu com uma sessão dedicada a O Estranho (The Stranger, 1946), de Orson Welles, precedida pelo curta pernambucano That’s a Lero-Lero (1995), de Lírio Ferreira. Um dos trabalhos de Welles como diretor e ator, o longa acompanha a investigação de um criminoso nazista que vive sob identidade falsa numa pequena cidade norte-americana. Realizado logo após a Segunda Guerra Mundial, o filme articula elementos do suspense e do cinema noir para abordar a persistência do horror nazista mesmo depois da derrota militar do regime.
O resgate da memória cinematográfica ganhou uma dimensão particularmente significativa na sessão seguinte, dedicada a Luciana, a Comerciária (1976), de Mozart Cintra. Produzido há meio século, o longa pernambucano permaneceu praticamente invisível durante décadas, sem alcançar o circuito comercial à época de sua realização. A obra acompanha uma jovem que deixa o município de Pedra, no Agreste, para tentar uma nova vida no Recife, construindo uma narrativa atravessada pelas transformações sociais e pelos deslocamentos entre o interior e a capital.
Filmado em 35 milímetros e preservado pela família do diretor, Luciana, a Comerciária foi recuperado e digitalizado pela Cinemateca Brasileira, permitindo sua redescoberta em 2026. Depois das exibições históricas realizadas em setembro no Cinema da Fundação, a chegada do longa ao São Luiz representou mais uma oportunidade de reencontro do público com um capítulo pouco conhecido da produção audiovisual pernambucana. A sessão foi acompanhada pelo curta Entrevista com Celeida Sette, de Kleber Mendonça Filho, ampliando o diálogo com a memória familiar e cinematográfica que tornou possível a preservação da obra.
Na sequência, o Janela apresentou Tigre de Papel (Paper Tiger, 2026), novo trabalho do cineasta norte-americano James Gray. Estrelado por Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson, o thriller se passa na Nova York dos anos 1980 e acompanha dois irmãos que, em busca de ascensão econômica, acabam envolvidos num negócio ligado à máfia russa. A promessa de prosperidade dá lugar a uma espiral de ameaças, desconfiança e desintegração familiar.
Exibido anteriormente no Festival de Cannes e na abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa retoma um território recorrente na filmografia de Gray: as tensões entre ambição, pertencimento familiar e as contradições do chamado sonho americano. A sessão no Recife antecedeu a estreia comercial brasileira, prevista para janeiro de 2027.
O Recife se reconhece na tela
Coube à série pernambucana Delegado, dirigida por Leonardo Lacca e Marcelo Lordello, encerrar a programação da 17ª edição do Janela. Foram exibidos três episódios da produção, que acompanha Felipe (Johnny Massaro), jovem delegado recém-ingresso na Polícia Civil que precisa confrontar seus ideais de justiça com a realidade de uma instituição marcada por precariedades, práticas questionáveis e contradições cotidianas.
A premissa poderia facilmente resultar num drama policial convencional, mas Delegado encontra na comédia um caminho especialmente fértil para explorar os absurdos da rotina institucional. Com ritmo ágil, diálogos espirituosos e um elenco em evidente sintonia, a série aposta numa veia humorística afiada, que extrai comicidade das relações entre personagens e das situações frequentemente insólitas enfrentadas pelo protagonista.
Um dos grandes destaques é o personagem Marmota, interpretado pelo sempre competente Rubens Santos. Com presença cênica marcante e excelente domínio do tempo cômico, o ator potencializa algumas das passagens mais divertidas da produção, conferindo ao personagem uma espontaneidade que se integra organicamente à dinâmica do elenco. As piadas, as expressões e, sobretudo, a geografia recifense projetada na tela provocaram identificação imediata entre os espectadores.
Entre aplausos e gargalhadas, a última jornada do festival reafirmou a potência do cinema como experiência coletiva, capaz de reunir desconhecidos numa mesma sala e fazê-los compartilhar emoções, descobertas e afetos. Quando as luzes do São Luiz se acenderam pela última vez nesta edição, ficou a saudade dos encontros, das histórias e da comunhão que só a experiência coletiva do cinema proporciona. E, desde já, a expectativa pelo próximo Janela.
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