Janela de Cinema leva para tela do São Luiz a memória viva de figuras marcantes da vida brasileira

Curta pernambucano O Programador e episódios de Sócrates Brasileiro abriram programação da mostra neste sábado

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Curta pernambucano O Programador, homenagem ao programador Geraldo Pinho, abriu sessões de sábado do XVII Janela de Cinema. (Foto: Diego Nigro)

O penúltimo dia do Janela Internacional de Cinema 2026, começou logo pela manhã do sábado com a exibição de obras que enaltecem personalidades marcantes. Exibidos em sessão conjunta, O Programador e Sócrates Brasileiro revelaram ao público olhares ternos sobre duas figuras prodigiosas, cada qual em seu horizonte de atuação.         

O primeiro deles foi o curta dirigido por Walter Andrade e Alex Vailati, que revisita a trajetória de Geraldo Pinho (1951-2021), figura incontornável da história da cinefilia pernambucana. Pesquisador, realizador audiovisual e, sobretudo, um apaixonado pela sétima arte, Pinho dedicou boa parte da vida à formação de plateias e à preservação dos cinemas de rua do Recife. Esteve à frente da programação de espaços emblemáticos, como o Teatro do Parque, o Cinema Apolo e o próprio São Luiz, onde permaneceu até sua morte.        

Desenvolvido a partir de um projeto do Laboratório de Antropologia Visual (LAV) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), O Programador recupera vestígios dessa trajetória por meio de registros de arquivo, depoimentos e espaços atravessados pela presença de Pinho. A homenagem adquire contornos particularmente afetivos ao ocupar a tela do São Luiz, lugar onde o programador ajudou a cultivar gerações de espectadores. 

De Pernambuco a sessão seguiu para os gramados brasileiros: foram exibidos dois episódios de Sócrates Brasileiro, série documental dirigida por Walter Salles, que resgata a trajetória de outro personagem cuja grandeza ultrapassou os limites de sua atividade profissional. Craque de inteligência rara, dono de uma elegância quase displicente com a bola nos pés, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (1954-2011) foi também médico, intelectual e uma das vozes mais eloquentes da luta pela redemocratização do país.       

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Sócrates Brasileiro, de Walter Salles, resgata história do jogador defensor da redemocratização do Brasil. (Foto: Bob Thomas/Getty Images)


A produção percorre o legado do eterno Doutor, especialmente sua participação na Democracia Corinthiana, movimento que fez do futebol um território de experimentação democrática em plena ditadura militar. Entre a inventividade esportiva e a consciência política, emerge o retrato de um homem que se recusou a dissociar o jogo das questões de seu tempo.

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Noite do sábado foi uma das mais concorridas da programação do VII Janela de Cinema. (Foto: Victor/Jucá/Cinemascópio)

Coquetel de bons filmes        

A programação do sábado reservou ainda um encontro entre diferentes épocas e geografias do cinema. Às 14h50, o Janela apresentou uma seleção de cinco curtas-metragens do Festival de Nova York, com trabalhos de realizadores como Agnès Varda, Jia Zhangke, Kamal Aljafari, Camilo Restrepo e Kleber Mendonça Filho.      

Na sequência, os espectadores conferiram o pernambucano That’s a Lero-Lero (1994), de Lírio Ferreira e Amin Stepple, que antecedeu a exibição de A Dama de Xangai (1947), clássico noir de Orson Welles. A aproximação não é casual: o curta-metragem brasileiro revisita a passagem do cineasta norte-americano pelo Recife nos anos 1940, estabelecendo um diálogo direto com a obra que foi projetada em seguida.   

À noite, foi a vez de um dos títulos mais aguardados desta edição, o documentário Tudo Pode Ser Visto, de Nathan Fielder e Lance Oppenheim. Os ingressos da sessão estavam esgotados desde o primeiro dia de vendas e esta foi uma das primeiras exibições no Brasil, pois o filme só entra no circuito comercial no final de novembro.  A obra de Fielder e Oppenheim ganhou o selo de filme cult desde a estreia em Nova York e já é apontado como forte candidato ao Oscar de Melhor Filme pelo inusitado de seu tema e a inventividade da abordagem feita por seus autores.

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Os dias que antecederam a prisão empresária Elizabeth Holmes foram documentadas por Nathan Fielder e Lance Oppenhiemn. (Foto: Divulgação)

O documentário gira em torno da personagem de Elizabeth Holmes, conhecida nos Estados Unidos pelo golpe milionário por ela aplicado no Vale do Silício. Holmes fundou a empresa de biotecnologia Theranos, cujo produto principal era uma máquina revolucionária para realizar exames de sangue. A empresária ficou famosa e estampou capas de revistas até descobrirem que sua invenção não funcionava. Acusada de fraude, Holmes acabou condenada a 11 anos de prisão. O caso inspirou inclusive a minissérie The Dropout, realizada em 2022 e estrelada pela atriz Amanda Seyfried. 

O documentário de Fielder e Oppenheim é um desses filmes que escapam às classificações convencionais do gênero e cuja construção, o tempo inteiro, questiona os limites da representação documental.  34 dias antes de ser ir para uma prisão federal no Texas, Holmes e o companheiro Billy permitiram que os dois cineastas se instalassem em sua casa com a intenção de que o público conhecesse a verdadeira Elizabeth Holmes e tirasse suas próprias conclusões.

A partir desta premissa, os documentaristas desenvolvem uma relação com o casal que ultrapassa as diversas fronteiras que este tipo de registro audiovisual possa estabelecer. A câmera dos cineastas penetra na intimidade da dupla e flagra os detalhes dessa convivência. Por ela acompanhamos Holmes e sua insistente negação de culpa na fraude de sua empresa, a presença e forte influência do seu companheiro e, também, o próprio comportamento de Fielder que não esconde seu estranhamento com a situação, as dúvidas sobre o caráter de sua biografada e um certo afeto que acaba desenvolvendo por ela. 

Apesar de seus 170 minutos de duração e centrado basicamente nas conversas dos envolvidos na história, o interesse por Tudo Pode Ser Visto não sofre abalos, graças a engenhosidade dos realizadores. Para se ter uma ideia do que o filme traz, depois de Holmes ser presa, por conta das restrições impostas para se obter imagens dela, Fielder e Oppenheim convidaram nada menos que a atriz de Dropout, Amanda Seyfried para encenar com eles os diálogos que a câmera não podia mostrar.

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A obra transgressora de Ken Russel, The Devils, foi mais um clássico revisitado pelo Janela de Cinema. (Foto: Divulgação)

Encerrando a noite, foi mostrado o curta-metragem belga Melk, de Filip Anthonissen, que dividiu a sessão com Os Demônios (1971), do britânico Ken Russell, marcando a tradição do Janela de revisitar clássicos do cinema e obras transgressoras e provocativas.