Direto da Zona da Mata Norte de Pernambuco, o produtor cultural e coordenador-geral do Festival Canavial, Afonso Oliveira – conhecido como Afonso Maracatu – endereçou uma carta aberta ao presidente Lula, à Ministra da Cultura, Margareth Menezes, e à presidenta da Funarte, Maria Marighella.
Em resposta a uma carta assinada por cerca de 400 artistas que criticavam a gestão e pediam a troca de liderança do ministério, Afonso defende a cultura popular, a interiorização dos editais e a distribuição de recursos aos artistas em cada município brasileiro.
“Toda vez que a cultura popular ocupa um lugar de relevância na política cultural do país, esse trabalho é questionado por uma parcela da elite da produção cultural brasileira”, diz o texto publicado no Instagram. “Uma elite concentrada no eixo Rio-São Paulo. Foi assim com os Pontos de Cultura de Gilberto Gil e Célio Turino, chamados à época de ‘assistencialismo’. É assim, agora, com a ministra Margareth Menezes.”
O documento assinado por Afonso critica o fato de o manifesto divulgado esta semana não citar nominalmente a ministra, além de pontuar que o documento não contextualiza o trabalho de reconstrução após os quatro anos de Jair Bolsonaro. “O manifesto não tem a coragem de citar o nome da ministra, mas é a ela que se dirige. E o faz de modo injusto, ao reduzir quatro anos de reconstrução a uma gestão ‘de editais e leis de incentivo’.”
A carta aberta destaca os números da gestão de Margareth Menezes: foram R$ 3,8 bilhões da Lei Paulo Gustavo, repassados a estados e municípios, e R$ 15 bilhões da Política Nacional Aldir Blanc, que se tornou permanente. A Lei Rouanet também bateu três recordes seguidos de captação, com R$ 25,7 bilhões movimentados.
Segundo a carta, o comando da ministra à frente do Minc não se limitou a “uma gestão de editais” e que as políticas colocaram o Nordeste e o Norte no mapa da cultura. “A ministra Margareth Menezes, mulher negra, baiana, vinda da cultura popular, decidiu que o Brasil da cultura não termina na Avenida Paulista nem na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ela chamou isso de nacionalização do fomento, e cumpriu.”
“A cultura é o vetor de luta contra a extrema direita”
A Revista O Grito! conversou com Afonso Oliveira sobre a carta aberta e a repercussão do manifesto assinado por artistas na última terça-feira.
“Na semana passada começaram a surgir na imprensa possíveis nomes para assumir o MinC e logo depois surgiu esta notícia de um manifesto obscuro, sem mostrar assinaturas, sem divulgar o texto e com frases preconceituosas sobre a gestão de Margareth”, diz Afonso Maracatu. “Já conheço como o setor da elite da produção cultural atua. É vergonhoso, depois de sairmos de uma eleição dura”.
O produtor cultural ainda relembra a necessária reconstrução do Ministério da Cultura, que havia sido extinto durante o governo de Jair Bolsonaro, e a integração do Norte e do Nordeste no mapa da cultura, regiões que historicamente não recebem fomento compatível com sua produção.

“Primeiro é importante que o povo brasileiro e latino americano garanta a permanência de Margareth Menezes e sua equipe a frente do MinC, pois a cultura é o vetor de luta contra a extrema direita”, defende Afonso. “Depois precisamos avançar nas conquistas. Precisamos levar para todos os Ministérios a partir do Presidente Lula e da Ministra um compromisso com a cultura brasileira (não confundir com a produção cultural). Temos que tranformar o programa Cultura Viva num programa Brasil Vivo.
Para o produtor pernambucano, a cultura precisa ser tratada de maneira multisetorial, com várias políticas atuando juntas. Rebatendo o manifesto divulgado na terça-feira, Afonso critica a falta de visão sobre os conceitos de “arte” e “cultura”.
“Até hoje eu percebo que quando os outros Ministérios se envolvem, eles tratam a cultura como arte. Há uma confusão de conceitos. Enquanto a sociedade e os gestores não entenderem a importância da cultura, vamos estar preocupados apenas com as artes. É o que parece que esse manifesto entende”, explica. “Os dados mostram o importante trabalho que essa gestão do MinC fez pela cultura brasileira e a Funarte pelas artes. Isso se refletiu na eleição do presidente Lula. Ou eles acham que foram os ilustres de Copacabana e Vila Madalena que mobilizaram o setor cultural deste país?”


