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Tonfil cresceu entre rodas de repente, leituras de eruditos e a música do Sertão do Pajeú. (Foto: Mariana Pinheiro/Divulgação)

Papo com Tonfil: Quanto mais longe estou do Sertão do Pajeú, maior a sensação de pertencimento

O músico e artista visual pernambucano retorna aos palcos enquanto prepara novo disco para o ano que vem

Tonfil é pura poesia. Neto do repentista Louro do Pajeú, conhecido como o rei do trocadilho, o cantor esbanja uma voz melodiosa a serviço de harmonias e da poesia. O artista faz parte da família Marinho, que carrega no DNA a rima e a cantoria do Sertão do Pajeú, mais especificamente, de São José do Egito, capital nordestina da poesia popular.

Atualmente morador em Olinda, Tonfil também é artista visual de formação, tendo como região de pesquisa, arte figurativa, naturalista e clássica. Tem em seu currículo exposições, instalações e cursos.

Em 2011, Tonfil lançou seu primeiro álbum Acontecer, com participação dos músicos Vinícius Sarmento e Greg Marinho, com repertório autoral, baseado na poética popular brasileira e sertaneja. Já em 2016, participou do álbum Valsas e Canções, do compositor Xico Bizerra, ao lado de nomes como Alaíde Costa, Almério e Elba Ramalho. Em 2017, gravou para o álbum A chama Infinita de um amor eterno, também de Xico Bezerra.

Atualmente, o artista está voltando aos palcos depois de um hiato de mais de um ano provocado pela pandemia neste sábado (13), no Barrio Café e Bar, em Olinda. Tonfil dedica ainda-se à preparação do seu novo álbum, que terá direção musical de Juliano Holanda, com quem já trabalhou no projeto Reverbo, que reuniu nomes da nova geração do cancioneiro pernambucano.  “Começo o ano com todo o gás para o lançamento do meu CD MOLDURA”, adianta o artista.

Conversamos com exclusividade com Tonfil sobre sua origem, influência da família na sua obra e novos projetos que ele está preparando. Confira:

Como e quando foi que Antônio José de Lima Filho tornou-se Tonfil?

Desde pequeno. No meio dos meus já me chamavam de Tonfil. Minha tia e meus pais também gostavam muito de Henfil. Que também tinha “filho” no nome. Mas se referindo ao artista, Tonfil nasceu aos 13, 14 anos, quando vi que seria a arte a guia do meu ofício. E aos 23, 24 anos, me levei a sério kkkkkkk

A família Marinho é conhecida por carregar no DNA a rima e a cantoria do Sertão do Pajeú, mais especificamente, de São José do Egito, a capital nordestina da poesia popular. Como este lugar habita em você, como ele atravessa a sua arte?

Como diz meu primo, o poeta Antônio Marinho: “acho até que um punhado dessa terra dissolveu-se nas gotas do meu sangue”. Eu trago muito em mim o meu lugar. Quanto mais longe fisicamente dele, mais a sensação de pertencimento.  E por ter essa aura universalista e abrangente, meio arcaico e meio moderno, meio longe meio perto, o meu canto e o significado do meu lugar alimentam todos os segmentos de minha arte.

Você é neto do Louro do Pajeú. Qual influência do seu avô no seu trabalho?

Sinto muita influência de meu avô na nossa facilidade em metabolizar as palavras, os significados e significandos. Nesse meu passeio pela poesia, música e artes visuais, lancei, em 2015, um livro de haicais e poemas curtos: COSMIGALHA. E nessa ludicidade que a comunicação perspicaz proporciona, sinto muito a presença dele.

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O artista prepara seu novo álbum para 2022. (Foto: Mariana Pinheiro/Divulgação)

Hoje você reside em Olinda. O que motivou a sua saída de São José do Egito e vir para a Região Metropolitana?

Eu já tinha morado na capital [Recife] há um tempo. Fiz ensino médio aqui. Passei em jornalismo e cursei até o terceiro período na Universidade Católica de Pernambuco. Não concluí, achava tolhedor de minhas linguagens, que eram mais voltadas à arte. Fiz vestibular do Instituto Federal de Pernambuco para Artes Visuais e passei. Só nos últimos seis meses que fui pra Olinda, um lugar que eu já era apaixonado, mas só quando fui morar que senti os batuques de lá, nas ladeiras de minhas veias. E Olinda e seus encontros abriram um leque e possibilidades pra meus projetos e ideias. Mas o que motiva sempre os artistas de interior virem pra cá é a possibilidade de terem sua arte mais valorizada e mais próxima das vitrines mais vistas.

Como é o seu processo de compor?

Não sou de compor muito. Na música prefiro ser intérprete a compositor, mas quando acontece, nascem letra e música juntas. Mas quando escrevo, geralmente é poema curto, tento ser sintético.

Como lidou com o cenário pandêmico? Como foi ficar longe dos palcos e do público?

Lidei muito mal. Eu estava com várias apresentações e entramos no lockdown, então tivemos que nos adaptar aos novos recursos, que pra mim são um pouco vazios. Me adaptei muito mal às lives.  Não gostava nem de fazer e nem de assistir. Sinto que perco a organicidade.

Se você fosse escolher uma música para ser a sua, qual seria?

Nunca fui bom em preferir, em escolher coisas prediletas. Nunca gostei de pódios e nem de prêmios. Prefiro curvas a retas. Mares bravios a mares calmos. Ondas poetas.

Mas como diz meu amigo Juliano Holanda: “a maior ambição da canção é ser silêncio”. Acho que o silêncio é minha música preferida. Nele faço todos os ritmos. Cabem muitas ideias.

Você acha que a falta de conscientização de uma parcela grande da população tem a ver também com a própria formação cultural e musical do povo brasileiro ao longo das últimas décadas? Qual sua visão sobre o Brasil atualmente?

Creio que seja o contrário. Nos últimos anos, a formação cultural e musical é que tem sofrido bastante com esse necroprojeto de desvalorização da verdade e da consciência. Estamos numa vala procurando formas de se salvar. O macabro governo Bolsonaro tenta cada vez mais diminuir a importância que temos, mas a arte é como a natureza: sempre resiste e se sobrepõe harmoniosamente.

Você está retomando shows presenciais. Como está se sentindo com esse retorno aos palcos? Qual repertório pretende apresentar?

Sinto que escapamos e mesmo que a gente tenha que continuar com todos os cuidados, a sensação de ver que a gente ainda existe e resiste é a das melhores. Ver que gente  continua a  produzir fora das telas e dos conteúdos  digitais. Quanto aos repertórios, variam muito, mas começo a apresentar o repertório do CD que está pra sair em breve.

E o que está planejando para o futuro?

Nesses dois galhos onde produzo, tenho algumas coisas à mão, outras à vista e outras em mente. Começo o ano com todo o gás para o lançamento do meu CD MOLDURA, com direção musical de Juliano Holanda. E na parte [da arte] plástica tenho algumas exposições e instalações com viagens nesse meio.

Serviço

Sábado (13) às 17h

Barrio Café e Bar – Av. Joaquim Nabuco, 5 – Varadouro, Olinda

R$ 10,00 – Couvert