Morre Jomard Muniz de Britto, poeta e cineasta vanguardista pernambucano, aos 89 anos

Irreverente e contestador, Jomard foi nome importante da cultura pernambucana e fez parte do movimento tropicalista

jomard
Jomard fez parte da cena pernambucana por várias gerações. (Foto: Jan Ribeiro/ Secult PE - Fundarpe)

Morreu nesta segunda-feira (12/10) o cineasta, poeta e filósofo pernambucano Jomard Muniz de Britto, aos 89 anos. Irreverente e contestador, Jomard foi nome importante da cultura pernambucana e fez parte do movimento tropicalista. A informação foi publicada por sua família nas redes sociais.

Autor de livros importantes como Do Modernismo a Bossa Nova, Terceira Aquarela do Brasil e filmes em super 8 como O Palhaço Degolado, Inventário de um Feudalismo Cultural, A Lua Luta por Lula, entre outros. Animador cultural, foi grande incentivador de jovens artistas, poetas e músicos, o que o fez ser abraçado por diferentes gerações.

Jomard foi amigo de Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros. Foi entusiasta do tropicalismo e adaptou o movimento à cultura pernambucana, cunhando o termo “Pernambucália”. Fez diversas críticas ao conservadorismo na arte no Estado e travou embates com representantes da estética armorial, como o dramaturgo Ariano Suassuna.

Jomard nasceu no Recife em 1937 e formou-se em filosofia pela antiga Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Iniciou sua trajetória como professor de ensino básico e, na década de 1960, aproximou-se de Paulo Freire no seu Sistema Paulo Freire de Educação de Adultos. Por essa ligação foi preso pela ditadura militar em 1964 e levado para o Forte das Cinco Pontas, onde dividiu cela com o político Gregório Bezerra.

Nas décadas de 1970 e 1980, Jomard foi um dos expoentes da produção Super-8, película mais acessível que fez com que vários artistas pudessem se expressar de maneira independente na ditadura militar. Parte de seus curtas foram restaurados e exibidos no Janela Internacional de Cinema, com a presença de Jomard, no ano passado.

Pesar

O prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), lamentou a morte de Jomard em nota.

“Recebi com tristeza a notícia do falecimento de Jomard Muniz de Britto. Sempre ativo e provocador, Jomard dedicou a vida à arte e a fazer do Recife uma referência de criatividade e pensamento crítico. Meus sentimentos aos familiares e amigos. Que Deus conforte seus corações”, declarou no comunicado.

A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) também lamentou a morte do cineasta e filósofo.

“Jomard foi perseguido pela ditadura civil- militar e nunca deixou de provocar com sua língua dos três pês: poeticidade, política e pedagogia. Admirado por Paulo Freire, com quem percorreu o país, Glauber Rocha, Caetano Veloso e Gilberto Gil, Jomard fez da experimentação sua forma de existir”, afirmou.

A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) também lamentou a morte de Jomard.

“Figura inquieta e transgressora, Jomard construiu uma obra marcada pela experimentação, pela liberdade criativa e pelo questionamento das convenções. […] Em 2025, parte dessa contribuição ganhou a tela do Cinema São Luiz, com a exibição de cinco de seus filmes em Super-8 digitalizados e restaurados, durante o festival Janela Internacional de Cinema do Recife. Um bela e justa homenagem, que contou com a presença do cineasta na ocasião”, disse.