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“Não existe palavra na sua língua para traduzir tekoha. Se você quer entender o que é, primeiro precisa compreender como nós entendemos o mundo.” É a partir dessa premissa que a quadrinista, artista visual e pesquisadora franco-brasileira Clara Chotil constrói Tekoha, graphic novel que chega ao Brasil pela editora Veneta. A autora estará presente no Festival Internacional de Quadrinhos, o mais importante evento do gênero, que acontece em Belo Horizonte de 4 a 8 de novembro no Minas Centro, na capital mineira.
Inteiramente pintada em tinta acrílica em grandes formatos, a obra propõe um mergulho poético na relação ancestral entre os povos Guarani-Kaiowá e a terra, confrontando as marcas da espoliação colonial no Mato Grosso do Sul com a urgência da resistência indígena no presente.
É também um livro calcado na investigação e toca em questões políticas que seguem em disputa. “Um dos principais obstáculos é a pressão do agronegócio sobre as terras indígenas. É uma questão estrutural: os interesses econômicos ligados à exploração da terra exercem grande influência política, inclusive no Congresso Nacional”, explica Chotil em entrevista à Revista O Grito!.
Fruto de anos de pesquisa e de passagens por residências artísticas na França, Espanha e Canadá, além da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, a obra cruza vivências íntimas e memória coletiva com a mesma densidade com que a autora resgatou a trajetória da cantora Maria d’Apparecida em Ópera Negra (Veneta, 2023).
Clara Chotil conversou sobre o processo de traduzir a cosmogonia oral dos guarani-kaiowá para a página pintada, a busca por suas próprias raízes, os impasses da demarcação de terras no cenário político atual e seus novos projetos de resgate a partir dos quadrinhos.

Você trata um pouco disso no livro, mas gostaria de saber qual foi a primeira lembrança ou ideia que despertou em você a vontade de fazer esse projeto sobre os Guarani-Kaiowá e seu território?
Na verdade, este livro é sobre o apego à terra, sobre a herança e as raízes. No meu caso, essas temáticas me levam à questão dos povos Guarani-Kaiowá, porque ao aprofundar um pouco a pesquisa, percebi que minha própria história está ligada à deles. Parto, portanto, de uma questão pessoal que me leva a me abrir para a história do Brasil, da colonização, até chegar finalmente à história e à cosmologia Guarani-Kaiowá, à questão da relação com a terra e da resistência.
O que o livro propõe é conectar diferentes narrativas que são conhecidas de maneira independente, embora sejam relativamente pouco conhecidas, e que geralmente são contadas de forma paralela, apesar de acontecerem em um mesmo espaço-tempo.
Tekoha e outras obras artísticas que falam da questão indígena sempre destacam a urgência do tema e o fato de os povos indígenas viverem em estado de guerra, em luta constante contra o extermínio. Mas a impressão que temos é que a sociedade em geral, sobretudo os habitantes das áreas urbanas e das capitais, é totalmente alheia a isso. Você acha que a arte (e sua HQ) aborda esse problema de alguma maneira?
O alcance da minha arte em relação a essa causa me parece pequeno, uma gota d’água entre tantas outras. Estou convencida de que a arte é necessária para contribuir para a transformação dos imaginários, mas, sozinha, não é suficiente para mudar mentalidades e transformar a realidade. Ela atua em uma escala de tempo insuficiente, por isso é importante agir simultaneamente em outras frentes.
Neste momento, na sequência da vitória de Lula, estamos vendo um aumento da violência: envenenamento da água, assassinatos e atropelamentos. Diante da força coletiva mobilizada nas ruas e nas redes durante as eleições, as lideranças indígenas pedem que essas mesmas forças sejam mobilizadas na luta pela proteção e pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas. Os povos indígenas fizeram um esforço descomunal para votar e reeleger Lula. Agora, precisam de proteção em seus territórios.

É muito impressionante como a HQ consegue abordar, de maneira muito orgânica, temas que perpassam a questão indígena no Brasil, como o direito à terra, identidade, política e história, mas tudo amarrado por um fio narrativo muito pessoal. Pode nos contar um pouco sobre o processo de criação do roteiro?
Eu sabia que essa seria uma narrativa coral, com uma galeria de personagens que fariam a história avançar. Foi somente ao longo da escrita que senti a necessidade de criar uma personagem muito próxima de mim, ao tomar consciência da importância da busca que move a narrativa, uma busca pessoal que, me pareceu, ganharia mais consistência se eu explicitasse meu ponto de vista e meu ponto de partida. Não acho que essa seja necessariamente a melhor maneira de escrever uma história, mas, no meu caso, foi a voz narrativa que encontrei e que consegui desenvolver para contar essa história.
A arte é necessária para contribuir para a transformação dos imaginários, mas, sozinha, não é suficiente para mudar mentalidades e transformar a realidade. Ela atua em uma escala de tempo insuficiente, por isso é importante agir simultaneamente em outras frentes.
Clara Chotil
A obra se passa, em parte, durante o governo de Jair Bolsonaro, um dos mais retrógrados no que diz respeito ao tratamento reservado aos indígenas no Brasil. Porém, o livro sai pouco antes da reeleição de Lula. Como você enxerga o modo como o governo atual lida com o tema?
O atual mandato de Lula já concluiu 20 demarcações. É muito mais do que no governo anterior, que havia anunciado que não faria nenhuma e cumpriu sua promessa. Mas ainda é muito pouco.
Um dos principais obstáculos é a pressão do agronegócio sobre as terras indígenas. É uma questão estrutural: os interesses econômicos ligados à exploração da terra exercem grande influência política, inclusive no Congresso Nacional. Mesmo quando uma terra já foi identificada pela FUNAI, seu processo de demarcação pode permanecer suspenso durante anos por disputas judiciais. Essa insegurança jurídica favorece a continuidade dos conflitos.
O governo precisa intensificar o processo de demarcação, acelerar os procedimentos e também agir para proteger as populações que vivem sob ameaça e sofrem ataques cotidianos.
“Diante da força coletiva mobilizada nas ruas e nas redes durante as eleições, as lideranças indígenas pedem que essas mesmas forças sejam mobilizadas na luta pela proteção e pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas.”
Clara Chotil
A obra foi produzida ao longo de três anos, em duas residências artísticas. Como foi essa experiência?
Na verdade, foram mais de duas! Fiz cinco ou seis residências e escrevi praticamente cada capítulo em um lugar diferente. Isso combinou com o ritmo do livro, que é constituído por blocos narrativos que funcionam de maneira relativamente autônoma. Eu trabalhava em outros projetos ao mesmo tempo, o que me permitia ter momentos de digestão e reflexão para fazer a história avançar. O encerramento das residências, as apresentações e as viagens a Dourados também foram momentos preciosos para receber conselhos e redirecionar a escrita.



Como foi pesquisar e retratar a cosmogonia dos Guarani-Kaiowá em quadrinhos? Quais foram os desafios de levar para o papel uma tradição ancestral e, sobretudo, oral?
Optei por manter trechos do texto praticamente inalterados e criar uma fluidez, principalmente por meio de uma continuidade entre páginas que se sucedem como grandes afrescos. Nesse trecho, o texto se transforma em um recitativo: não há mais diálogos, o que cria um contraste com a musicalidade dos outros capítulos.
E como se deu a decisão de pintar a HQ com tinta acrílica? O que você acha dessa experimentação na linguagem dos quadrinhos, no que diz respeito às texturas, técnicas etc.?
Gosto da ideia de me aproximar graficamente da tradição pictórica, que me é mais próxima do que a tradição dos quadrinhos, que conheci mais tarde. Me sinto mais à vontade com essa ferramenta, embora a passagem para a prancha e, portanto, para o papel e o desenho a lápis, tenha representado uma novidade em relação à minha prática pictórica.
Ainda assim, escolhi o acrílico por hábito, o que me levou a trabalhar em grande formato, uma prática que considero prazerosa, pois é muito imersiva. Trabalho sempre em páginas duplas, então, durante a realização, ficava cercada pelos meus capítulos em grande formato.
Ópera Negra, sua HQ que também foi publicada no Brasil pela Veneta, trata de uma investigação para trazer à luz uma personagem muito importante que estava esquecida. Como artista, essa busca é o que te move? Como surgem suas inspirações para novas criações?
Gosto de utilizar o espaço dos meus quadrinhos como um tempo de reflexão. Projeto meus livros pensando no que sua realização vai me proporcionar viver: encontros, viagens, aprendizados… Até agora, trabalhei muito em diálogo com o trabalho da minha mãe, que dedica uma atenção especial à memória e à transmissão, e cujas pesquisas oferecem uma matéria que me parece interessante revisitar e reaproveitar. Ao mesmo tempo que dão continuidade ao trabalho dela, minhas obras questionam, estabelecem conexões, prolongam e confrontam essa matéria já reunida.
Qual é a sua expectativa para o FIQ? O que você tem acompanhado dos quadrinhos brasileiros e o que chamou sua atenção recentemente?
Quero conhecer outros autores e também pesquisadores em HQ. Recentemente, pude ler o trabalho de Luckas Iohanathan, que achei muito bonito. De maneira geral, estou muito animada para conhecer novas obras e autores. Os festivais de quadrinhos são sempre momentos extremamente estimulantes.
O que podemos esperar de você no futuro? Quais são seus próximos projetos?
Atualmente, estou trabalhando em uma nova biografia de artista: Lucy Citti Ferreira, pintora brasileira do modernismo que viveu a maior parte de sua vida em Paris. Retomo a questão das trajetórias esquecidas ou minimizadas e a da memória coletiva. É uma história em quadrinhos que também faz parte de um doutorado em pesquisa-criação que comecei há quase um ano na Universidade de Montpellier, na França.
Tekoha
Clara Chotil
184 páginas, 2026. R$ 134,90. Tradução de Letícia de Castro
Compre: Amazon
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