Janela de Cinema 2026 foi uma vitrine excepcional para filmes LGBTQIA+

Além da estreia de 'Sandra Roque' e 'A Margem do Rio', festival exibiu os ótimos 'Club Kid' e 'Seis Meses no Prédio Rosa e Azul'

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Filmes com temática LGBTQIA+ tiveram destaque no Janela 2026 e atraiu grande público. (foto: Alexandre Figueirôa)

As produções LGBTQIA+ estão em alta. No último Festival de Cannes, em maio último, nada menos de 21 longas-metragens com a temática estavam na seleção oficial e já se anuncia, para o Oscar 2027, uma grande presença de filmes queer nas diversas categorias da premiação. Talvez refletindo essa tendência, este ano, o Janela Internacional de Cinema apresentou na programação uma ótima seleção de filmes LGBTQIA+.

Entre os exibidos, dois pernambucanos: o curta-metragem Sandra Roque, de Mayara Santana, e o premiado longa-metragem A Margem do Rio, de Matheus Farias e Enock Carvalho, obras que já comentamos na cobertura do Janela. Além deles tivemos o média francês Tutti-Frutti, de Céline Sciamma, o curta Pier Paolo Pasolini, de Agnès Varda, e os longas Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, de Bruno Santamaria Razo e Club Kid, de Jordan Firstman.

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Caique Copque e Ítalo Martins no filme ‘A Margem do Rio’. (Foto: Victor Jucá/Divulgação)

Estes dois últimos tiveram uma recepção calorosa do público e curiosamente tinham como leit-motiv da trama a presença de personagens infantis. No mexicano Seis Meses… um menino gay de 11 anos e no estadunidense, um garoto de 10 anos que entra, de repente, na vida de um adulto gay baladeiro. Ambos os filmes com bons roteiros têm como principal mérito uma abordagem sincera em suas tramas que desconstroem estereótipos das relações familiares no universo queer.

Seis Meses… conta a história de Bruno, um menino de 11 anos, vivendo no início da década de 1990 na cidade do México. Seu pai é um ilustrador, a mãe tem um pequeno restaurante informal, e Bruno está começando a descobrir sentimentos pelo seu melhor amigo. Ao mesmo tempo em que experimenta as emoções da proximidade da adolescência, Bruno tem que conviver com o anúncio inesperado de que seu pai é portador do vírus do HIV e portanto, teria pouco tempo de vida.

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‘Seis Meses no Prédio Rosa e Azul’ é uma co-produção da pernambucana Desvia com o México e a Dinamarca. (Foto: Divulgação)

Esse contexto enraizado em uma tragédia familiar que poderia resvalar para um dramalhão, pelas mãos de Razo, transforma-se num delicado painel de situações corriqueiras que vão compondo uma narrativa comovente capaz de extrair de uma realidade dolorosa vislumbres de como o sofrimento também pode gerar resistência emocional. Ao invés de centrar a trama na dor e na angústia, o diretor entremeia os momentos de tensão com cenas dos momentos alegres da família recheados com música e dança.

A elaboração estética de  Seis Meses… é um dos seus elementos mais significativos. Na verdade, a trama do filme é uma reconstrução da história do próprio Razo vivida 30 anos antes. Com uma formação de fotografia documental, ele expõe de forma aberta os limites entre o cinema documental e o ficcional. Os primeiros planos apresentam uma entrevista que ele faz com sua mãe e a partir daí as imagens produzidas se alternam entre momentos de pura encenação e outras que parecem cenas de um documentário.

Um outro artifício usado para marcar a identidade visual do filme, foi o fato dele ter sido rodado em película de 16mm, o que dá ao filme uma textura granulada e imperfeita, afastando dele a nitidez fria do cinema digital. Essa opção reforça visualmente a ideia de memória afetiva pretendida pelo seu diretor que ainda acrescenta um visual de cores vivas e quentes que dão calor humano às ações que se desenvolvem na trama.

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O diretor Bruno Santamaria Razo reconstrói acontecimentos de sua própria vida . (Foto: Divulgação)

A centralidade da história a partir da visão do garoto também é outro elemento fundamental da narrativa, pois é a partir de seu olhar que se organiza o mergulho no passado que o filme quer retratar. A câmera em vários momentos é colocada na perspectiva física e emocional do menino, enfocando a sua busca para decifrar os segredos dos adultos e o seu próprio desejo vacilante pelo amigo.

Seis Meses em um Prédio Rosa Azul teve a participação efetiva de técnicos brasileiros como os montadores Marília Moraes e Eduardo Serrano (de O Agente Secreto) e o desenho de som de Miriam Biderman e Ricardo Reis, além da trilha sonora do paraense Léo Chermont. É mais um empreendimento da Desvia Filmes fundada por Rachel Ellis e Gabriel Mascaro, e uma co-produção com o México e a Dinamarca. 

Club Kid

Filme de estreia na direção do escritor e ator Jordan Firstman, Club Kid foi um dos grandes destaques do Festival de Cannes esse ano. Exibido na mostra Un Certain Regard, foi aplaudido por cerca de sete minutos e teve seus direitos de distribuição adquiridos pela prestigiada distribuidora de cinema independente A24. Firstman já era conhecido no meio cinematográfico pela sua atuação em Rotting the Sun (2023), pelos curtas que dirigiu com personagens gays e também pelos esquetes cômicos postados no Instagram durante a pandemia da covid-19.

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‘Clube Kid’ é o primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta, escritor e ator Jordan Firstman. (Foto: A24)

Club Kid mostra a história de Peter, um homem gay promotor de festas da cena queer nova iorquina, cuja vida pessoal é regada por drogas, sexo e música eletrônica. Em meio a orgias, carreiras de cocaína, gotas de GHB, house music, Peter, interpretado pelo próprio Jordan Firstman, descobre que é pai de Julian (Reggie Absolon) um garoto de 10 anos e sua existência dá uma cambalhota que o obrigará a tomar outro rumo de vida.

O principal mérito do filme é escapar dos clichês usuais desse tipo de trama. Firstman não faz concessões de ordem moral e aborda o universo LGBTQIA+ de forma aberta, sem julgamentos, revelando a complexidade de sentimentos e desejos que o atravessa e no qual há espaço para as pessoas gays, trans, reverem suas escolhas existenciais, amadurecerem e comporem novas estruturas familiares.

O roteiro de Club Kid é muito bem construído, pois transita entre a comédia ácida e o melodrama de forma natural e espontânea. O contraste entre uma vida irresponsável marcada pelo hedonismo e a necessidade de cuidar de uma criança, todavia, não é colocado na narrativa como sendo situações em oposição, nem que a liberdade e excessos do cenário queer é um erro. Firstman mostra apenas que certos acontecimentos muitas vezes exigem amadurecimento e um ajuste da nossa jornada.

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O bom desempenho de Firstman e do garoto Reggie Absolon é um dos destaques de ‘Club Kid’. (Foto: A24)

A exemplo de Seis Meses em um Prédio Rosa e Azul, Club Kid foi filmado em película de 35 mm o que permite retratar com mais precisão a atmosfera vibrante da vida clubber de Nova York. A imagem granulada e quente imprime uma nostalgia que nos remete a filmes dos anos 1970 e 1980 ambientados na noite e discotecas do período. A trilha sonora é outro elemento fundamental na composição estética do filme, pois ela dá o tom do desenvolvimento da trama ao mesclar hits da dance music como You Make me Feel, de Sylvester, com o eletrônico moderno do Death Grips e estabelecer um contraponto dramático com a música de Elliott Smith e as canções etéreas do Cocteau Twins para marcar  as mudanças existenciais do protagonista.

O êxito e o reconhecimento crítico de Club Kid deve-se ainda às atuações marcantes dos protagonistas, tanto o jovem ator Reggie Absolon, pela forma como consegue mostrar-se uma criança que teve um amadurecimento precoce, mas não perdeu a inocência, quanto o próprio Jordan Firstman. A  convincente performance de Firstman expressando os extremos da personalidade de Peter que passa do destempero de um tresloucado baladeiro a um homem fragilizado pela paternidade inesperada, é digna de aplauso.

Portanto, se você perdeu as sessões desses filmes no Janela de Cinema, fique atento para as suas estreias. O filme de Bruno Santamaria Razo ainda não tem data certa para lançamento nas salas comerciais, pois ainda está percorrendo o circuito dos festivais, mas Club Kid chega aos cinemas brasileiros em 04 de fevereiro de 2027.