Guaia é um trabalho autobiográfico, experimental e pop muito inspirado em Guaianazes, bairro onde o cantor viveu

se reconecta com suas raízes em seu melhor disco até aqui
NOTA8.5

Foi em seu disco mais autobiográfico que Marcelo Jeneci encontrou sua voz autoral. Seu novo trabalho traz uma sonoridade mais rica e sofisticada que seus álbuns anteriores. Essa reconexão com seu passado e suas referências mais importantes renderam ao músico seu melhor disco até aqui.

Guaia tem esse nome em homenagem Guaianazes, bairro da periferia de São Paulo, onde ele nasceu e se criou. Os seis anos que Jeneci levou desde o seu último álbum serviram para promover uma desconstrução tanto em sua estética sonora quanto em sua poética.

Mais experimental, Jeneci está mais ousado na sua alquimia de ritmos e constrói tudo de maneira a enaltecer seu passado e suas referências. É o caso, por exemplo, da presença de elementos do frevo, forró e, claro, sanfona, que evidenciam sua forte relação com o Nordeste.

Revelado a partir das parcerias com Chico César, Vanessa da Mata e Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci se arriscou solo apenas a partir de Feito Pra Acabar, que estourou com hits como “Felicidade” e “Pra Sonhar”. Ele apurou ainda mais seu talento para um pop envolvente, porém bem orquestrado, no ótimo De Graça (2013).

Guaia é bem diferente de ambos e o primeiro em que conhecemos Jeneci na intimidade, como se ele explorasse a segurança de estar em casa, com letras bem mais confessionais. “Música pra mim é abrigo”, diz ele em texto de apresentação do disco. Músico multi-instrumentista com forte apelo pop como poucos de sua geração, Jeneci experimenta com diversos instrumentos e orquestrações, da guitarra ao piano passando pelo cravo, órgão e sanfona.

A união de um som mais urbano com referências que remetem ao agreste pernambucano se entrelaçam com a própria história de Guaianazes, bairro construído por trabalhadores de todas as regiões do Brasil.

Esses afluentes sonoros combinam diversos sabores e cores, que é justamente a riqueza do disco. “Aí Sim”, primeiro single do disco, traz uma aproximação com o reggae em mais um hit pop irresistível de Jeneci. “Redenção”, com seu tom de mantra, traz canto gregoriano e bateria de frevo em uma letra que mostra os conflitos dos dogmas cristãos do músico.

Foto: Marina Benzaquem.

As relações com o Nordeste aparecem em “Oxente”, faixa em parceria com Chico César, que foi gravada por Elba Ramalho em seu mais recente O Ouro do Pó da Estrada. É uma faixa que enaltece ainda mais Jeneci como sanfoneiro. Tem também “Vem Vem” com pífanos de João do Piff, Marcos do Piff e Zé Gago. Traz vocais de Maya, o que remete à participação de Laura Lavieri nos dois discos anteriores de Jeneci. “Palavra Amor”, a mais trivial do disco, conecta Jeneci em um pop repleto de sintetizadores.

A faixa final, “Ritos”, conduzida sem letra, apenas com a voz de Jeneci é o fecho ideal para o disco por sua atmosfera em tom de acalanto. E se relaciona bem com a abertura, “Emergencial”, que acorda o ouvinte com o canto indígena de Ikashawhu, da trigo Yawanawa. Unindo Pernambuco com Guaianazes, Jeneci faz uma música que fala a um Brasil profundo, mas também à metrópole (pop e experimental como nunca).

MARCELO JENECI
Guaia
[slap, 2019]

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