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Do mosteiro ao mangue: a história do grupo teatral que driblou a ditadura em Pernambuco

Livro resgata trajetória do Vivencial, grupo de uma das experiências cênicas mais radicais do país

Foto: Gabriel Mesgo/Divulgação

Entre as décadas de 1970 e 1980, em plena ditadura militar, um grupo teatral formado por gays, lésbicas, travestis e todas as pessoas que se consideravam desviantes, principalmente os dissidentes sexuais e de gênero, construiu, entre Olinda e Recife, uma experiência cênica radical, que transformou por completo a cena cultural pernambucana. Tratava-se do Vivencial, coletivo que, influenciado pelo tropicalismo, pelo teatro de revista e pela contracultura, desafiou o regime com humor, excessos e resistência.

Sua história, pouco conhecida até mesmo dentro dos círculos da dramaturgia brasileira, ganha finalmente um resgate à altura de sua importância, com o lançamento de Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial, escrito pelo jornalista Márcio Bastos. A publicação sai pela Autêntica e integra a coleção Nossas Histórias, coordenada por Renan Quinalha e dedicada a resgatar marcos da resistência LGBTQI+ no Brasil.

Parte da fama que o grupo tem hoje surgiu de modo indireto: o Vivencial inspirou livremente o premiado filme Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Mas nem essa referência foi suficiente para que a história real chegasse ao grande público. Márcio Bastos aponta a desproporção: enquanto outros representantes do experimentalismo pernambucano dos anos 1970 conquistaram o merecido reconhecimento nacional e
internacional, como Paulo Bruscky, Daniel Santiago, Ave Sangria e Alceu Valença, “o Vivencial, que foi uma das experiências artísticas mais radicais do teatro brasileiro do período, permanece pouco conhecido na história das artes cênicas do Brasil”.

Para o autor, o Vivencial passou tanto tempo na sombra porque “Como país, temos um problema com a memória. Há pouco incentivo para se olhar para trás, para entender como as experiências anteriores ajudaram a moldar o nosso agora. E isso passa pela falta de preservação de documentos, por exemplo. No caso do Vivencial, há ainda as camadas de ser um grupo disruptivo, de forte presença LGTBI+, que surge em Pernambuco e que finca sua atuação aqui.”

A história do grupo começa de forma inesperada. Em 1973, o hippie Guilherme Pontes Coelho, então com 23 anos, chegou ao Mosteiro de São Bento, em Olinda, disposto a se tornar monge beneditino, adotando o nome de João Batista. Menos de um ano depois, já como noviço, dirigiu a peça que batizaria o grupo: Vivencial I, estreada em 24 de maio de 1974, em um galpão do Colégio de São Bento, para comemorar os dez anos da Associação de Rapazes e Moças do Amparo (Arma), pastoral católica de Olinda da qual vários futuros integrantes participavam.

O espetáculo, montado com colagens de notícias de jornal, textos de Bertolt Brecht e Jean Genet e poemas de Fernando Pessoa, já trazia crítica à Igreja, ao machismo e ao racismo, e uma defesa aberta da diversidade sexual, algo raro para os palcos da época. O público jovem se empolgou, mas a direção do mosteiro não permitiu novas apresentações, incomodada com a repercussão. Guilherme deixaria o hábito monástico nos anos seguintes, sem nunca abandonar de fato aquela mistura de sagrado e profano que passaria a guiar o grupo.

Tudo isso aconteceu em meio a um cenário de repressão. Desde o início dos anos 1970, a Polícia Federal proibia a participação de travestis no carnaval em todo o país, e o Recife via circular grupos como o autointitulado Comando de Caça aos Afeminados, que espancava pessoas dissidentes de gênero pelas ruas. Casas noturnas eram fechadas por batidas policiais e travestis, presas por não revelarem o nome de batismo. Foi contra esse pano de fundo que as vivecas seguiram se apresentando ao longo da década, ganhando público e visibilidade, até decidirem, em 1978, dar um passo maior: erguer sua própria sede.

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Ensaio do Vivencial em 1982 (Foto: Ana Farache)

“Me assusta e entristece perceber como, hoje, existe um discurso que minimiza ou mesmo nega as violências da ditadura militar. O que vemos é o crescimento da extrema-direita e a naturalização de discursos de ódio, com risco de entrarmos em um novo período autoritário. Por isso, a experiência do Vivencial torna-se ainda mais emblemática: mesmo no contexto de repressão absurda da ditadura, esses jovens de diferentes origens e realidades ousaram construir um território de contestação e celebração da vida. Nossa alegria, afinal, é política, e o Vivencial entendeu isso desde o primeiro espetáculo. Era um grupo vibrante e construído no respeito às diferenças. Não era preciso se encaixar em um modelo para fazer parte. Essa perspectiva de coletividade, de uma organização da festa e da alegria, pode nos ajudar muito a enfrentar esse momento tenebroso”, diz Márcio Bastos.

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(Foto: Capa/Divulgação)

O terreno escolhido ficava na comunidade de Ponte Preta, na divisa entre Olinda e Recife, uma área de mangue cercada de mocambos e palafitas, sem saneamento nem transporte público. Sem dinheiro para paredes de alvenaria, os próprios integrantes ergueram, com as mãos, o Vivencial Diversiones: café-concerto com show de striptease, cinema pornô, música e teatro sob o mesmo teto. Apesar da localização precária, a casa virou point da alta roda pernambucana e chegou a receber Caetano Veloso, que apareceu de surpresa numa noite de maio de 1979, depois de se apresentar no Recife, e saiu de lá impressionado o bastante para ajudar a articular uma temporada do grupo em São Paulo.

A imprensa local chamou o Diversiones de “a mais moderna casa noturna do Nordeste”. Na prática, era um teatro improvisado com poucos recursos que virou, ainda assim, fenômeno de público, a ponto de os ingressos serem reajustados mais de uma vez e a bilheteria precisar fechar para conter a fila. Comparações com o grupo carioca Dzi Croquettes eram frequentes nas colunas de teatro, mas, de acordo com o autor, o
parentesco era mais de espírito de época do que de origem: enquanto o Dzi dialogava com uma cena internacionalizada, criava identidade visual própria, o Vivencial nascia diretamente das contradições populares do Recife e de Olinda, incorporando ao elenco pessoas sem qualquer treinamento artístico, misturando elementos visuais e se engajando como um movimento. Outra diferença importante é que no Vivencial, diferentemente do Dzi Croquettes, as mulheres, cis e trans, tinham lugar de destaque. Bastos afirma que o humor e os corpos dos grupos se distinguem porque refletem seus contextos.

O livro faz parte da coleção “Nossas Histórias”, iniciativa da Autêntica, que, para o autor, é essencial para abrir espaços a narrativas que ficaram nos documentos. Sobre o processo de reunião de materiais de pesquisa, ele conta: “Acho que a principal dificuldade foi não ter acesso a materiais que se perderam no tempo. Muitas fotos e documentos se perderam após mudanças de casa ou mesmo por ação do tempo. Ainda assim, consegui encontrar documentos incríveis, desde cartas e bilhetes até dramaturgias. É como um quebra-cabeça e, com essa generosidade coletiva, vamos chegando a outras peças. E tenho certeza de que ainda há muito a ser encontrado. Por exemplo: o pesquisador Augusto Lins Soares atualmente está produzindo um fotolivro sobre o Vivencial e encontrou fotos até então inéditas! Ou seja, é uma pesquisa sempre em construção e desejo que o interesse pelas vivecas só aumente.”

O livro também recupera personagens até então preservados apenas na memória oral, como o ator Roberto de França, o Pernalonga, que entrou para o grupo aos 15 anos e se tornaria um dos maiores símbolos das vivecas, e a travesti Lolita, figura lendária da boemia do Bairro do Recife, que resumia sua relação com a cidade numa frase que virou bordão: “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”.

Dissolvido oficialmente em 1983, o Vivencial nunca parou de ecoar para quem viveu aquilo. Em maio de 2024, Guilherme Coelho, hoje com 73 anos e de volta à vida religiosa, reuniu antigos companheiros em Olinda para celebrar os 50 anos do grupo: uma mostra improvisada, com figurinos guardados desde os anos 1970 e um painel usado no filme Tatuagem, que reuniu mais de 200 pessoas entre vivecas sobreviventes e uma nova geração curiosa. “Nunca achei que o Vivencial acabou; se diluiu”, resume Coelho no epílogo do livro.

Ele argumenta que vê o Vivencial hoje na cena teatral pernambucana de muitas maneiras. “Seus artistas migraram para os palcos, para shows em boates, foram para as artes visuais, a música, o cinema. Para todos os lugares, levaram consigo, em maior ou menor medida, as experiências e a estética do grupo. Nos anos 1980, essa influência foi fundamental para formar uma geração. Um dos grandes exemplos do impacto do Vivencial é o espetáculo Cinderela – a história que sua mãe não contou. O texto foi escrito por Henrique Celibi, que entrou no grupo ainda adolescente, quando sua mãe morreu e ele ficou órfão. Celibi morava na Ilha do Maruim, pertinho do Vivencial Diversiones, que ficava no Complexo de Salgadinho. Com o grupo, se fez artista e foi fortemente influenciado pelo humor ácido, periférico e escrachado que as vivecas imprimiram na época do Diversiones. Fazer muito com pouco, encher o texto de frases de duplo sentido, expor as mazelas da sociedade a partir do riso: tudo isso era muito vivencialesco. E é o que está em Cinderela, que Jeison Wallace e a Trupe do Barulho transformaram em um marco da cultura pop pernambucana.”