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Resenha: O corpo metamorfoseado em O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
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Cinema

Resenha: O corpo metamorfoseado em O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

Por João Nóbrega·5 de abril de 2017, 11:59·5 minutos de leitura
ornitologo

Longa do cineasta português aborda a vocação erótica do cristianismo em uma narrativa que subverte fórmulas clássicas do cinema

Se quisermos definir O Ornitólogo, do cineasta português João Pedro Rodrigues, por associações aproximativas, poderíamos dizer que o filme é uma espécie de Stalker (Tarkovsky, 1979) movido por pulsões pasolinianas. Se bem que essa definição não faça jus ao todo do novo filme de JPR, ela é capaz de revelar aspectos relevantes da obra. De Stalker temos a jornada espiritual entre a natureza (hostil ou estéril?), ainda que em JPR essa espiritualidade seja mais auto-irônica do que movida por um objeto concreto de fé, tal como ocorre em Tarkovsky. De Pasolini, o gosto pela iconoclastia e pela profanação, isto é, pela ressignificação anárquica – mas nunca aleatória – de uma ostensiva iconografia cristã.

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Em linhas gerais (porque para este filme em especial estas linhas só poderiam ser generalistas), o filme traz Fernando (Paul Hemy), um ornitólogo que se encontra na região de fronteira entre Portugal e Espanha para observar os espécimes locais. Navegando em seu caiaque, distraído com as aves da região, Fernando acaba por ser levado pela corredeira. Mais tarde, ele será salvo por duas peregrinas chinesas que acabaram por se desviar do Caminho de Santiago de Compostela, o qual originalmente elas trilhavam. Após Fernando manifestar sua falta de fé, as chinesas punem o homem, e partir daqui a jornada do ornitólogo será progressivamente insólita, mas sempre guiada pelos pássaros.

Fernando é metáfora para o cineasta do Primeiro Cinema (aquele praticado entre 1895 e 1915), encarnando o velho desejo cientificista, e colonialista, de apreender o mundo em sua totalidade, possibilidade há muito abandonada pelos contemporâneos. Fernando é cineasta de Ciência, ele observa para catalogar, para dispor e colecionar. Assim o filme, de início, estabelece a condição contemplativa observacional e seu tecido complexo: observamos Fernando, que observa os pássaros, que devolvem olhares a Fernando. E assim vai ser até o fim do filme: a Natureza possui olhos. O sonho cataloguista do protagonista, no entanto, será logo levado pela correnteza. Uma vez salvo pelas peregrinas chinesas, dotadas de um catolicismo sincrético, o ateísmo do até então ornitólogo é confrontado e punido.

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Devoção: a transformação do protagonista em Santo Antônio. (Divulgação).

As chinesas abrem o olhar do espectador para o simbolismo que irá perpassar todo filme, e que vai sendo aos poucos enunciado pelas duas. As peregrinas como que condensam toda a tendência sadomasoquista do catolicismo, aquela inclinação para ver no autoflagelo, e no flagelo do outro, a expiação de todos os pecados – inclinação muito bem conhecida por um Mel Gibson, por exemplo.

Aliás, essa vocação erótica do cristianismo parece ser tudo o que mais interessa JPR na lida com tal iconografia. Assim, após as duas amarrarem Fernando à uma árvore, numa espécie de bondage ritualístico, associado também ao desejo de castração, elas lançam uma espécie de maldição santa a Fernando: “Você vai encontrar seu caminho! ”.

Após livrar-se das sadomasoquistas, o protagonista segue à deriva e encontra parte de seus pertences (inclusive o caiaque destruído), como restos de um ritual primitivista que mais tarde seremos levados a contemplar junto a Fernando. Aqui se inicia uma metamorfose à revelia do metamorfoseado, ou assim parece, uma vez que as forças que levam a cabo à transformação de Fernando ou são desconhecidas (como as suscitas pelo ritual), ou são obstáculos naturais, ou ainda são forças naturais imponderáveis. De qualquer forma, estas forças se revelam sempre inelutáveis. E assim acompanhamos a longa transformação de Fernando em Santo Antônio, aparentemente o santo ao qual as chinesas são devotas.

É a partir daí que JPR se aprofunda em uma de suas questões centrais: o alcance da transcendência através da experiência da matéria. Fernando, desacordado após manifestar o ritual pagão, acorda e se depara com um jovem deleitando-se nas tetas de uma cabra, chupando-lhe o leite vigorosamente. Com esse jovem, de nome Jesus, Fernando irá levar a cabo o ato sexual. O sexo, será novamente ressignificado enquanto sadomasoquismo, pela justaposição à cena em que, invertendo as polaridades da cena anterior, transforma o sexo em apunhalada. Fernando então fica cada vez mais à deriva, vagando, buscando ocupar um espaço que lhe rejeita, mas também lhe chama, através da pomba branca do Espírito Santo, para o coração da floresta.

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De um cinema documental para uma narrativa contemporânea, onde o corpo assume o centro do filme. (Foto: Divulgação).

Testemunhamos, então, não só a metamorfose de Fernando, mas também a transformação de um cineasta, e do cinema como um todo. Quando Fernando finalmente conclui sua transformação em Santo Antônio, o santo é interpretado, na verdade, pelo próprio João Pedro Rodrigues. JPR faz uma transição do Primeiro Cinema, que rimava com as aspirações científicas do ornitólogo, para um cinema essencialmente contemporâneo, em que o corpo assume o protagonismo. Como objeto, esse corpo se insere no filme a partir de uma subjetividade que interage com os objetos do mundo de maneira fragmentada. Aqui é interessante observar como essas duas formas de cinema se tocam e se afastam: se no primeiro cinema, a observação e a contemplação tinham a pretensão de capturar a realidade, de modo documental; no cinema contemporâneo, a observação e a contemplação (que geram essa sensação de eterno retorno tão afeita ao cinema atual) buscam justamente estudar esse corpo em relação ao espaço.

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JPR parece consciente destes pontos de contato e de afastamento entre os dois cinemas, utilizando-se, no primeiro terço do filme, de uma linguagem próxima aos documentários. Gradualmente, no restante do filme, o diretor vai colocando o corpo de Fernando no centro do filme, desestabilizando-o, progressivamente, através da perversão de diversos gêneros cinematográficos: cria-se suspense sem razão aparente, enuncia-se a chegada de criatura maligna que nunca se concretiza, e se reencena o duelo dos Westerns, com desajeito e estranheza. O roteiro, em si, é também perversão da fórmula clássica, é uma jornada do herói às avessas, que quebra, uma a uma, nossas expectativas.

Assim como o filme disseca e perverte fórmulas, a transformação do corpo, em O Ornitólogo, acontece pela perversão do sadismo, que, ao final, é condensado pelo índice da corda do bondage e pelo ritual de queimar as próprias digitais, a ferro quente. A metamorfose, antes movida por forças sempre externas, penetra o corpo de Fernando, e torna-se voluntária, sendo apenas consagrado por Amazonas modernas (tão lógicas quanto insólitas).

O ORNITÓLOGO
João Pedro Rodrigues
[O Ornitólogo, POR, 2016 / Vitrine Filmes]
Com Paul Hemy

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