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Foto: Divulgação/Netflix.

“Adolescência” faz retrato dolorido da passagem à juventude

Merecidamente aclamada, minissérie da Netflix é tão difícil de acompanhar quanto são as dúvidas e sofrimentos que envolvem essa fase do desenvolvimento humano

Na primeira cena da minissérie Adolescência, uma dupla de policiais, um homem e uma mulher, conversam amenidades enquanto aguardam dentro da viatura estacionada em frente a uma casa. Uma dessas moradias vistas em filmes que retratam o estilo de vida de um bairro qualquer numa pacata cidade do interior da Inglaterra. Dá para sentir o frio matinal e a umidade do lado de fora. O sargento Luke Bascombe (Ashley Walters) reproduz para sua colega Misha Frank (Faye Marsay) a mensagem de voz deixada pelo filho por meio do Whatsapp. O garoto comunica ao pai a impossibilidade de ir à escola naquele dia por não se sentir bem. Bascombe sabe que é enrolação, sabe também que é “mole demais” para se impor diante dessa clara tentativa juvenil de evasão à responsabilidade. À mãe caberá a parte chata de dizer “não”.

A trivialidade da rotina termina aí, às 6h da manhã, quando agentes paramentados arrombam a porta dessa casa, numa sequência sem cortes de tirar o fôlego. A tropa de choque é seguida por Bascombe e Frank, avançando pelas escadas até entrar no quarto de um garoto que, ainda em sua cama, arregala os olhos e urina no pijama. Petrificados também estão o pai, a mãe e a irmã de Jamie Miller (Owen Cooper), 13 anos. O espanto é compartilhado pelo espectador diante da tela. Aquela é uma casa, como tantas outras, que abriga uma família branca da classe média trabalhadora.

Os objetos casualmente arrumados são ejetados pelo impacto da abordagem policial, mas é possível captar, pela memorabília espalhada, pelos sorrisos pendurados em retratos, pelo papel de parede do quarto do filho, com estampa de galáxias, que ali reside uma família que se ama, se protege, se acolhe e se importa com os seus.

A leitura da ordem judicial, dando conta de que aquela é uma prisão motivada por acusação de homicídio, torna tudo ainda mais inconcebível. É como se tivéssemos sido arrancados de um sono reparador e embarcados, sem direito a uma xícara de café, no lado violento da existência. O mundo como eles o compreendiam até então cessa ali, numa van que transporta a fragilidade de um menino franzino, mal entrado na adolescência. O som ao redor é uma babel de conselhos técnicos dispensados pelos agentes da lei. O acusado responde entre lágrimas: “Eu quero o meu pai aqui”.

É o pai, Eddie Miller (Stephen Graham), a figura escolhida por Jamie para ser o adulto que deverá acompanhá-lo durante os procedimentos preliminares na delegacia. Não é spoiler afirmar que a acusação de homicídio procede. Já nesse primeiro episódio, o fato é exibido incontestavelmente pelas filmagens das câmeras de segurança que estão por toda parte. As imagens mostram, claramente, Jamie esfaqueando uma colega de classe num estacionamento próximo à escola.

Crimes que envolvem adultos maltratando crianças revolvem nossos estômagos e plantam dúvidas sobre o germe da maldade intrínseco à condição humana. Crimes cometidos por crianças nos jogam num estado de desamparo perplexo em relação à inocência atribuída à fase primeira do desenvolvimento humano, quando ainda não fomos contaminados por sementes de ódio e compilação de traumas. É como se toda estrutura na qual depositamos confiança desmoronasse sem deixar qualquer alternativa de abrigo ou apoio. Como aquele lar violado pela força da lei.

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Bastidores do episódio de Jaime (Owen Cooper) em conversa com a psicóloga (Erin Doherty): o que significa ser “homem”. (Divulgação/Netflix)

Entre as providências tomadas para recolhimento de provas contra Jamie Miller, a coleta de sangue, diante do medo de agulha demonstrado por ele, introduz sutilmente a ideia da vítima: Kate Leonard havia sido esfaqueada sete vezes e abandonada no local, onde sangrou até a morte. Até esse momento, ela permanece como uma figura fugidia, quase desimportante em sua tragédia. E assim continuará ao longo dos episódios. Um segundo plano que nos obriga a pensar na existência de não apenas uma vítima, mas várias, abarcando toda uma comunidade.

Mesmo quando é confrontado com o vídeo definitivo sobre sua culpabilidade, Jamie segue negando sua autoria. Para o pai, no entanto, esse é o primeiro passo num caminho de aceitação que se provará longo e íngreme.

A conta pessoal de Jamie no Instagram, como uma janela tão aberta quanto as câmeras de segurança que capturaram o crime pelo qual ele é acusado, é utilizada pelos policiais como fonte de evidências. Erroneamente, eles tentam estabelecer uma ligação de amizade entre perpetrador e vítima a partir dos comentários deixados por Kate Leonard nos posts de Jamie, quando, na verdade, os emojis ali colocados destilam insultos codificados. Jamie não tem namorada, nunca se relacionou sexualmente, entretanto, seu perfil é recheado com fotos de corpos femininos às quais ele acrescenta comentários considerados “agressivos” pelos policiais que o interrogam.

Os comentários de Kate enfatizam o fato de o garoto ser “incel” (do inglês involuntary celibate), virgem a despeito da vontade de iniciar uma vida sexual. O desconhecimento intergeracional sobre os novos códigos de comportamento é o começo do mergulho no propósito da série: desvendar o motivo que levou ao crime e não sua autoria, uma vez que essa é irrefutável.

Crimes cometidos por crianças nos jogam num estado de desamparo perplexo em relação à inocência atribuída à fase primeira do desenvolvimento humano, quando ainda não fomos contaminados por sementes de ódio e compilação de traumas. É como se toda estrutura na qual depositamos confiança desmoronasse sem deixar qualquer alternativa de abrigo ou apoio.

A busca por “razões” tem como cenário a escola em que ambos estudavam. O ambiente se configura como uma mistura caótica de adultos ora desorientados, ora acovardados, ora ameaçadores, nas figuras de tutores ou gestores. Do outro lado, alunos que se movem como um rebanho sem condutor, agrupados em tribos, às vezes sendo bullies, às vezes sendo alvo de bullying. O estafe, mal remunerado e sobrecarregado, não está preparado para variáveis como a influência digital e suas consequências na vida real.

A alienação sobre o contexto no qual estão inseridos esses jovens extrapola o perímetro do educandário e se estende ao lar. O crime ocorreu entre 21h35 e 22h35. Como pode um jovem de 13 anos estar fora de casa sem que seus pais tenham percebido sua ausência? Bascombe, o investigador encarregado do caso, desconhece completamente que seu próprio filho é alvo preferencial de bullying. A parentalidade, seus excessos e lacunas, é viga-mestra nessa série, que tem sido apropriada e frequentemente adjetivada como “dolorida”.

O conceito de responsabilidade, no entanto, aqui é estendido, de modo a corresponder ao provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. “Essas crianças são impossíveis. O que porra eu posso fazer?”, diz, à certa altura um professor, escancarando o esgarçamento de um tecido que precisa estar íntegro para cumprir sua função precípua.

É o filho do sargento Bascombe, Adam, quem entrega a chave para o portal que dá acesso a uma paisagem inóspita, pontuada por códigos indicativos de uma hostilidade tão oculta quanto autoexplanatória. Cada um dos emojis aplicados nos comentários carregam ofensas relacionadas a uma ideologia misógina ou a uma cultura de humilhação com base na matemática da validação por meio do interesse sexual. É o olhar do outro que me valida e empodera. Sem ele, o sujeito é invisibilizado ou, pior, se torna um pária.

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Christine Tremarco e Stephen Graham em cena de Adolescência: a angústia dos pais em meio à dúvida “o que poderíamos ter feito de diferente”? (Divulgação/Netflix).

Se os dois primeiros episódios de Adolescência nos apresentam atuações espetaculares, como a de Stephen Graham, também responsável pelo roteiro, no terceiro vemos nascer um talento promissor com a performance que marca a estreia de Owen Cooper como ator. Já em detenção e aguardando julgamento, durante entrevista com a psicóloga (interpretada por Erin Doherty) que deverá dar o parecer sobre sua condição psicoemocional, isso fica ainda mais evidente.

A conversa oscila entre aspectos corriqueiros de sua pregressa vida em família, circulando cautelosamente até alcançar o ponto fulcral da construção da masculinidade. O que significa “ser homem” na sociedade na qual se está inserido e, especialmente, como essa estrutura é percebida e introjetada por alguém aos 13 anos de idade.

O diálogo caminha por reminiscências que retroagem até a primeira infância, vislumbrando pequenos pedaços de expectativas formadas sobre a masculinidade padrão e seus arquétipos: “o construtor”, “o atleta”, “o bruto”, “o chefe de família”, “a fortaleza”. Até o ponto de ruptura. Instigado pelas observações certeiras da psicóloga, Jamie explode como uma barragem que sustentou por mais tempo que podia o peso que pressiona por trás. Uma enxurrada que, em vez de água, pedras e lama, arrasta fúria represada.

O que sai de sua boca é repetição de um discurso de ódio contra a representação feminina, replicado à exaustão por figuras expoentes da “machosfera” que prolifera nas redes sociais, a exemplo de Andrew Tate, o red pill que congrega quase 10 milhões de seguidores.

Ao caminhar para seu desfecho, no quarto episódio, observamos os escombros deixados: uma família tentando seguir em frente a partir do que restou, com os pais fazendo a inevitável pergunta: “poderíamos ter evitado?”. Kate, cuja face vemos apenas através de retrato, uma vez que não há flashback para que a conheçamos melhor, segue como essa “vítima” secundária, sem que consigamos também acompanhar a perspectiva daqueles que foram afetados por sua morte. Tudo ao redor é desolação, inclusive para nós, igualmente jogados num local de reflexão: “Como evitar? Como Proteger? Como educar?”.

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