COMO ME LEMBRO DO SÃO LUIZ
A suntuosa cortina vermelha, as sessões ao longo do dia, uma sessão de hipnose, pura cinefilia. Histórico cinema do Centro do Recife, completa 60 anos

Por Alexandre Figueirôa
Editor da Revista O Grito!

Entre todos os cinemas do Recife, o São Luiz, sem dúvida, era o que mais me fascinava. Primeiro pela arquitetura. O alto-relevo dos motivos de decoração do teto e das laterais; a suntuosa cortina vermelha abrindo lentamente após o gongo; os vitrais coloridos que se acendiam por alguns segundos entre o apagar das luzes e o início da projeção, tornavam as sessões do São Luiz um momento único.

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Vez por outra eu ia para a sessão bossa jovem, que acontecia nos sábados pela manhã e atraia principalmente jovens estudantes, moças e rapazes que iam paquerar, namorar e ver filmes leves em geral voltados para sua faixa etária. Embora também gostasse de assistir os chamados “filmes de arte” exibidos no Coliseu, em Casa Amarela (onde, por exemplo, vi perplexo Teorema, de Pasolini), muitas vezes fiquei na calçada do edifício Duarte Coelho para comprar o ingresso e assistir alguma comédia ou drama romântico.

Foi numa dessas sessões que vi o meloso Love Story com Ryan O’Neal e Ali MacGraw e o singelo Susan e Jeremy, o Primeiro Amor, com Robby Benson e Glynnis O’Connor, filme que desnorteou meu coração ainda sujeito aos arroubos apaixonados da juventude.

E foi lá também, já na década de 80, um pouco mais velho e inflado pelos ventos da rebeldia e fã ardoroso do Pink Floyd, onde vi o filme The Wall, dirigido por Alan Parker. Para entrar por completo na “viagem” do filme, lembro como se fosse hoje, como eu e um amigo turbinamos a mente com uísque e outras substâncias gasosas para entrar de sola na viagem da ópera rock transposta para a tela.

Vimos a primeira, a segunda e a terceira sessão no dia da estreia do filme no Recife, pois naquele tempo, diferentemente dos dias atuais, pagava-se um ingresso e podia se ficar o dia todo dentro do cinema assistindo toda as sessões do dia. Saímos do São Luiz como se tivéssemos sido submetidos a uma sessão de hipnose.

Felizmente o São Luiz no alto dos seus 60 anos resistiu à decadência do centro do Recife e não se transformou em loja de eletrodomésticos, nem igreja evangélica e ao entrarmos nele sentimos o quanto ele foi valioso para o exercício de nossa cinefilia.

Reprodução

Foto: Arquivo JC / Reprodução

Projeção a partir do São Luiz durante o Janela Internacional de Cinema (Foto: Victor Jucá/Divulgação)

* Alexandre Figueirôa é editor-executivo da Revista O Grito!, doutor em Cinema pela Universidade Sorbonne Paris-IV, autor de Cinema pernambucano – Uma história em ciclos e professor da Universidade Católica de Pernambuco.

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