CAPA DO DISCO Foto por Sofia Colucci Arte por Naia Rozzino
CAPA DO DISCO Foto por Sofia Colucci Arte por Naia Rozzino scaled

NIWA abraça suas raízes e faz do canto seu principal instrumento em Araponga

Canções exploram o potencial do produto vocal da artista com fundos musicais que mesclam toques tradicionais, orientais e eletrônicos

NIWA abraça suas raízes e faz do canto seu principal instrumento em Araponga
4.5

NIWA
Araponga
YB Music, 2023. Gênero: Pop, MPB

Dentro das inúmeras possibilidades da música, a voz é um instrumento potente, com uma larga tradição dentro do cancioneiro brasileiro, da MPB aos raps e traps. Araponga, disco de estreia da carreira solo de NIWA, tem o canto como a base de tudo. Um canto que carrega técnicas e acima de tudo se utiliza como ressonador de mensagens, de vivências.

O título do trabalho é o nome de uma ave típica das regiões de mata atlântica no Brasil. A Araponga é conhecida no país pelo seu canto alto e estridente. Apesar de pequena, emite um som que pode chegar a 125db. Seu canto pode não ser o mais belo, pela característica extremamente metálica, mas é de fato, potente.

É justamente inspirada nesses adjetivos que a artista se debruçou numa pesquisa dedicada. Claudia Nishiwaki Dantas, a intérprete por trás do nome artístico, é formada em canto popular e pós-graduada em Canção Popular pela Faculdade Santa Marcelina, além de ser pesquisadora e professora de pedagogia vocal. Seus estudos para a produção do álbum estiveram focados em fugir das estéticas vocais específicas ensinadas em conservatórios e faculdades, explorando a diversidade de estilos que o campo possui. Isso, atrelado a seu histórico ancestral e cultural.

As dez faixas do álbum trazem experimentos. Música eletrônica, synths, toques tradicionais e orientais, e muito vocal servindo de instrumento também (vocalizes, coros, contracantos, harmonias e reverbs). A mistura toda tem muito a ver com a premissa do disco: o processo de NIWA em abraçar suas raízes.

Em conjunto com o desbravamento das potencialidades do campo vocal, a cantora também pesquisou sobre a musicalidade de seus ancestrais. A família japonesa da mãe, a família paraense cabocla do pai, e as origens indígenas, africanas e europeias culminam nesse resgate sonoro, já percebido na primeira faixa “Urutau”, onde a tradição do canto e estética indígena conversam com referências de um instrumental típico oriental.

Nesse mesmo processo de resgate à ancestralidade, há lugar para reflexões próprias e de autodescoberta. Entender-se como mestiça num país racista e permanentemente supremacista branco inspiram NIWA nos relatos dessa vivência através da música.

A já citada “Urutau”, “Paisagem com Lua Cheia” e “Tenho Pressa” dialogam sobre isso, esse processo de taxar a “não indentidade” a “indefinição” do mestiço fomentado pela sociedade. Essa última faixa, descreve uma sensação tardia da artista, que conta apenas ter apreendido essas noções raciais e de etnia aos 24 anos. No momento, ela vive um estágio de aprendizagem e aderência de um conhecimento transcendente. 

A sequência traz faixas como “A Justiça de Tupã”. Enérgica, evidencia a percussão do tambor e a voz de NIWA num registro mais agudo, trazendo também o sample da faixa “Yo’i Tüna Pogü”, de Djuena Tikuna, expoente da Música Popular Originária. 

Nos destaques, “Quente” é um experimento surpreendente e cativante. A introdução com um vocalize quase hipnótico abre espaço para uma intervenção de um grave potente e agudos brilhantes, uma conversa destes elementos. O beatbox nesta é genial, contemplando essa proposta de testes de novas estéticas. Há novidades também em “Vai se Tratar”, iniciando com dizeres soltos como Não sou tua mãe pra ficar te ensinando, junto a outros que entram em loop e se sobrepõem formando a melodia da faixa. Pega de surpresa. Ambas contam com a participação de Giu Castro, Loreta Colucci e Nathalie Alvim, integrantes do grupo Gole Seco, o qual NIWA também faz parte.

“Vai se Tratar” convida também para uma abordagem sobre vivências femininas no disco. Os ditos da introdução se provam parte de uma letra aborrecida pelos desaforos e situações desagradáveis as quais mulheres se veem submetidas por homens, os típicos “macho uó”. Sobre isso também versa “A Pele”, discutindo as narrativas da mulher além das esperadas por uma sociedade machista, e “Mulessa” negando esse cenário de submissão.

NIWA ainda se permite a mergulhos mais reflexivos e intimistas em “Serra” ou até numa recuperação de memória extremamente afetiva em “Aoi Me No Nyngio”. A faixa interpretada em língua nativa indígena é uma canção que sua avó cantava para ela quando criança, dialogando num lúdico infantil sobre o encontro de uma boneca com uma menina.

Lançar-se com Araponga na carreira solo é NIWA mostrando para o que veio. A dedicação em pesquisa e a ornamentação de arranjos ousados que buscam justamente essa novidade é perceptível e revigorante. É a voz em destaque, é a valorização das raízes ancestrais, e é qualidade em música. O canto de NIWA é potente como o da ave-inspiração.

Ouça NIWA – Araponga

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