“Opinião, todo mundo tem. Mesmo que no sistema do “compartilhado””

Por Tatiana Severo
Colunista da Revista O Grito!

Estava botando a conversa em dia com um amigo meu de Malta quando ele mencionou que terá que ser jurado num julgamento em Melieha. Enquanto ele dissertava sobre o como isso poderia atrapalhar seu final de semana romântico com a namorada na Sicília, comecei a pensar de como seria participar ativamente de um julgamento. A perspectiva de tal experiência que de antemão parecia intrigante, logo se transformou em algo parecido com “A Escolha de Sofia”. Quanto mais eu pensava nisso mais angustiante me parecia exercer o papel de jurado. E a pergunta sem resposta continuou martelando na minha cabeça: como definir quem tem a capacidade de julgar? Se é que isso é possível.
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Opinião, todo mundo tem. Mesmo que no sistema do “compartilhado”. O que mais vejo nas redes sociais e fóruns da internet é isso. Um monte de gente soltando o verbo, mais preocupados com a conjugação verbal do que com o significado do verbo discernir. Aparentemente o que se vê é a liberdade de expressão em atividade plena. Aparentemente. Ao ver tantos posts, comentários e compartilhamentos quando – após quatro anos com uma conta no Facebook – comecei a checá-lo e usá-lo com mais frequência, pensei : Que ferramenta poderosa para se estimular o pensar! Mas o fascínio durou pouco e depois da fase de deslumbramento, veio o medo. Medo pior do que medo de terrorismo, do neural vírus, da Mírian Rios. Senti medo de estar rodeada por zumbis.

Não, não roubei o colírio alucinógeno do Macaco Simão. Os zumbis estão por toda parte sim. Pode rir. Agora me responda: qual a diferença entre um ataque de zumbis e o ataque destruidor dos arruaceiros chavs na Inglaterra, meses atrás? A diferença é que os zumbis estão atrás de cérebros para se alimentar, enquanto que a massa não pensante não tem nem idéia de que este órgão existe. Bem vindo ao remake do Mad Max, ao contrário de seu filho pródigo Resident Evil, no Mad Max Reloaded, os zumbis falam sim e organizam ataques pela internet. Pois é, eles falam, digitam, pensam que pensam, mas não sabem discernir o certo do errado.

A discussão do que é certo ou errado pode parecer infindável se considerarmos aspectos culturais. Mas pelo prisma de humanidade, de sermos seres vivos, a resposta é tão óbvia que se torna quase mítica. E a única maneira de se ter certeza de que alguém é um ser em meio a uma evolução intelectual e não de fato um zumbi irresoluto é através da catalisação de sua capacidade de pensar e sentir de maneira prática, com a experiência de vida e teórica, com o estudo. E é o somatório da teoria com a prática que faz a educação. De que serve saber falar gramaticalmente correto os ideais errados? Substituíram os pássaros do Hitcock por papagaios sem educação. E educação não é ir pra escola nem protestar usando canções antológicas do Pink Floyd. We DO need education sim. Mas isso não quer dizer estudar somente. É saber ser sociável, generoso, bondoso e acima de tudo saber pensar, usando a razão, o instinto e a emoção igualmente.

De nada adianta ter lido de Aquino a Zand sem ter o poder de reflexão. E foi justamente Zand que disse que o mundo está cheio de gente, mas com poucos seres humanos. Um monte de gente que acorda, trabalha, dirige bêbado, assiste à novela das oito, fala mal dos outros, faz churrasco no domingo e diz pro filho de três anos que é errado menino ter rosa como cor favorita. Um monte de gente que não se pergunta a razão de fazerem sempre as mesmas coisas. De repetirem as opiniões e, conseqüentemente, as atitudes herdadas de seus familiares e da mídia. A ação sem reflexão é justamente o que se alastra pela internet. O postar porque todo mundo tá postando. O que não deixa de ser um julgamento de uma ideia, um acontecimento, uma pessoa, seja ela celebridade ou não.

E por possuírem formação acadêmica ou estarem antenados nas últimas notícias estes Louros José se acham aptos a julgar. E ainda se intitulam formadores de opinião arrastando um monte de seguidores sem asa. Daí surgem termos com bullying e o politicamente correto porque as pessoas simplesmente não estão nem aí em usar a cachola e separar o que realmente tem fundamento ou não na era da diarréia virtual. Fala-se muito, pensa-se pouco. E neste mundo apocalíptico de mentecaptos, o planeta é realmente dos macacos e quem nunca compartilhou, que atire o primeiro comment.
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* Tatiana Severo é jornalista e cronista.

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