“Será mesmo que ser feliz é algo tão utópico para sempre ser levado na brincadeira?”

Por Tatiana Severo

Cá estava eu lendo o que tinha de novo dentre as atualizações de status do Facebook quando me deparo com a seguinte atualização postada por um amigo meu: “Objetivo do dia: ter paciência para reclamar com a Claro. Segundo objetivo do dia: arrumar provas suficientes para botar um processo na mesma. Boa tarde de segunda para vocês! :)” Eu, em minha insana inocência respondi com um: “objetivo principal: ser feliz”. Claro que o tom de minha resposta foi de brincadeira, mas será mesmo que ser feliz é algo tão utópico assim que tenha que ser sempre levado na brincadeira?

Dizem que para se ser feliz, você precisa ter objetivos, metas e trabalhar arduamente para consegui-los. Que não se deve deixar de lado seus objetivos por nada, por ninguém. Que sua felicidade depende única e exclusivamente de você. E que você tem que ser rápido, pois a vida é Cazuza e o tempo não para. Dizem, e eu finjo que escuto, pois sei que essa lógica de que a vida é complexa e tudo tem que ser difícil não faz sentido algum, ainda mais se a gente considerar que a vida é finita e pra infinidade de sonhos, desejos e anseios que temos, não é curta, é minúscula.

E para aproveitar essa chance única de sermos felizes, precisamos ser objetivos. Mas o que é realmente ser objetivo? Minha terapeuta dizia que eu era prolixa em vez de ir direto ao ponto: ou seja, falar com profundidade emocional as mesmas coisas de sempre. Ela queria que eu fosse objetivamente prolixa. Chegar falando as mesmas coisas, como se isso fosse levar a algum lugar. Como se o blá blá blá fosse resolver o fato do meu marido não ter tempo pra mim, de meu pai ser um alcoólatra temperamental, de minha irmã ser casada com o pedófilo que me abusou na infância, de meu irmão insistir em dirigir bêbado. Pois é, a prolixa era eu.

Quando um problema surge, a lógica é parar e tentar corrigi-lo o mais rápido possível para que tal problema não vire uma bola de neve. Isso na teoria da objetividade. Porém, o que ocorre na realidade é a famosa e prolixa “operação tapa-buraco” Aquela carta na manga que serve como um paliativo mas não resolve nada. O problema é que muita gente vive assim. Nesse ciclo vicioso da atitude paliativa, da vida objetivamente prolixa.

E se perde tempo atirando milhares de vezes e nunca acertando pois só se foca nos mesmos alvos errados, nos objetivos imediatos, não no objetivo principal. O filho está mal na escola? Coloca na aula de reforço que conseqüentemente o faz perder as aulas de inglês, que o faz fazer reforço do reforço e o faz render pouco na escola porque ele se sente exausto. É casar com alguém, não ter tempo pra ele, brigar e fazer terapia para resolver o problema. É ir direto pra cerveja mais barata porque sabe que vai beber muito, mas gastar uma grana com médico porque adquiriu uma cirrose. Ser objetivamente prolixo é trocar qualidade por quantidade. É ficar na mesma operadora de celular porque o plano acaba em X meses e é prolixamente correto perder tempo e ganhar uma estafa em vez de gastar um pouco mais e se ver livre de algo que te incomoda.

A causa da minha prolixidade era que na realidade eu estava sendo objetiva demais. Eu queria um basta. E basta são necessários para que possamos progredir e ir de encontro ao que queremos. É a maneira mais simples e objetiva de sermos felizes quando algo está errado. Porém o meu basta precisava de adeptos para funcionar. Daí a minha prolixa insistência. Talvez minha fé se depositasse na crença de que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e que minha persistência fosse a maneira mais objetiva de eu conseguir o que queria, ser feliz.

A vida tem um prazo de validade curtíssimo e para aproveitá-la temos que selecionar o que interessa, o que nos faz feliz. E mesmo que ao priorizar nossa felicidade, nossos objetivos, tenhamos que ser prolixos e bater constantemente na mesma tecla, isso ainda é melhor do que continuar fazendo as mesmas coisas rumo a nada. Afinal, é melhor ao menos tentarmos, mesmo que prolixamente sermos felizes do que continuarmos sendo objetivamente infelizes. E viva la revolución! mesmo que no ritmo devagar devagarinho do Martinho da Vila.

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