Atriz do curta Vaca Profana, Roberta Gretchen comemora prêmio no Cine Jardim e defende mais inclusão de transexuais no cinema

Da Revista O Grito!, em Belo Jardim

Roberta Grectchen Coppola ganhou o prêmio de melhor atuação da Mostra Competitiva de Curtas do IV Cine Jardim pelo personagem Nádia no filme Vaca Profana, de René Guerra. Roberta é travesti na vida real e faz o papel também de uma travesti que sonha em ser mãe. No cinema ela já teve uma participação em outro curta de René, Quem Tem Medo de Cris Negão? (2012), mas apenas dando um depoimento.

Alegre e sempre com o astral lá em cima, ao receber o prêmio na festa de encerramento do festival, Roberta falou, emocionada, da importância do prêmio por ela estar sendo vista e aplaudida, pela primeira vez, pelo seu talento e não por ser um objeto sexual. O Grito! bateu um papo com Roberta sobre esse momento tão valioso de sua vida.

O Grito! – Você é uma travesti totalmente assumida e foi convidada para fazer o filme Vaca Profana. Eu queria que você falasse um pouco dessa tua experiência.
Roberta – É um prazer estar aqui dando essa entrevista. Quando eu recebi essa proposta de fazer Vaca Profana eu já tinha feito shows em casas noturnas, mas nunca um personagem com um papel forte como o de Nádia. Eu também participei de brincadeiras no programa CQC, do Marcelo Tas, no programa do André Abujamra, que me chamavam para fazer coisas engraçadas, mas nunca um personagem de uma travesti que seria totalmente diferente da minha vida. Esse personagem que eu fiz é muito forte.

Você fazia performances cômicas e não um papel dramático, um personagem melancólico. Como foi então entrar no personagem? Você não era Roberta, era uma atriz interpretando Nádia?
Roberta é alegre. Eu tive momentos tristes, passei por muitas dificuldades, sofri muito preconceito como até hoje enfrento, mas sempre supero, eu não deixo de ser a Roberta brincalhona. Então, quando eu fui fazer esse papel eu tinha que ser muito serena, melancólica, eu tive até que fazer um curso de yoga. René me pôs para fazer esse curso porque eu era muito dinâmica e a Nádia é quieta, pensativa, uma coisa que eu não sou. Eu sou doidinha, não quero nem saber. Nádia, o sonho dela é ser mãe e eu, Roberta, não tenho nenhuma vontade de ser mãe.

Roberta em Belo Jardim. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!).

Quando você estava pronta para o personagem, você se sentiu Roberta interpretando Nádia? Depois desse filme, você sente-se capaz de ser atriz de outros filmes?
Depois que assumi minha sexualidade, as minhas formas femininas na minha vida pessoal eu não tenho coragem de fazer o que a Nádia fez, de querer se travestir de homem para poder adquirir alguma coisa, para poder realizar um sonho. Mas no filme tem uma cena em que a Nádia faz isso. Eu tive que me despir, tirar toda minha feminilidade, tirar o cabelo, e isso me deu força. No início eu vivi um conflito porque eu não estava conseguindo me ver naquele papel, mas aí o René conversou comigo e eu superei. Hoje, se eu tivesse que fazer até um papel masculino eu não me importaria como eu me importei antes dessa cena. E depois que fiz todo esse trabalho, que comecei a ir em festivais e as pessoas me encararem como um ser humano eu percebi que eu continuo sendo a Roberta, mas também sou uma atriz.

Perguntei isso porque se comenta muito de filmes com gays ou travestis em que os papéis são feitos por homens heterossexuais. Você acha que é importante você se pensar como atriz independente da tua sexualidade?
Sim, eu acho importante. A gente tem que lutar para poder mostrar nosso talento independentemente de ser travesti ou não. Por que para um papel de gay tem que pegar um ator hétero, fazer laboratório com ele em vez de chamar um ator gay? Vejo que o cinema brasileiro está evoluindo e eu tenho que agradecer ao René Guerra, pois ele luta muito para mostrar que nós travestis também podemos exercer a profissão de atriz.

Você já recebeu convite para outro filme?
Sim, já recebei convite e estou aguardando o resultado do teste em vídeo para Maria Clara Escobar e vamos ver se eu vou fazer outro filme com o René.

Você tem percorrido os festivais representando o filme Vaca Profana e a partir dessa tua vivência como está sendo tua relação com esse novo ambiente?
O primeiro festival que eu fui foi o Kinoforum. Então o que acontece? Se você anda na rua as pessoas te olham e dizem “é mais uma travesti”, “essa daí deve se prostituir”, então eu achei o cinema mágico, as pessoas do cinema me respeitam e é tão gratificante você fazer um trabalho e as pessoas te abraçarem, te olharem e falarem “parabéns por esse trabalho” e isso é muito bom porque as pessoas estão vendo a Roberta atriz. Hoje, aqui em Belo Jardim, eu fiquei muito emocionada de ter gente de Cuba, da Argentina, me cumprimentando, querendo tirar foto comigo. Eu estou muito feliz. E eu agradeço muito a Preta Portê Filmes porque Nádia foi uma personagem que vai marcar o resto da minha vida. Meus amigos no Facebook não me chamam mais de Gretchen, eles dizem “ei, vaca profana”.

Roberta sobre representatividade: por que para interpretar um gay se escala um ator hétero e coloca ele para fazer laboratório?. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!).

Eu também admiro o fato de você assumir muito claramente sua identidade de travesti.
Em nenhum momento eu tento esconder, ocultar o que faço ou deixei de fazer. Se caso amanhã eu começar a ser chamada para fazer mais filmes, fazer teatro, quem sabe eu possa até deixar de lado a prostituição que eu ainda tenho que fazer, pois eu vou viver do quê? A travesti tem dificuldade de entrar numa empresa, até de trabalhar num salão de beleza, nós enfrentamos muitas barreiras. Por isso espero que essa fase seja para sempre, que eu possa mostrar meus trabalhos, minha capacidade e mostrar que eu sou um ser humano igual a você, a qualquer pessoa.

Obrigado, Roberta. Vamos torcer para que isso aconteça.
Um beijo para todos que lerem essa entrevista.

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