CADA UM PELO SEU QUINHÃO
As Três Vidas, romance do português João Tordo é uma verdadeira lição de sobrevivência no dia a dia contemporâneo

Por Fernando de Albuquerque, editor d’O Grito!

Jovem e cosmopolita, o escritor portugues João Tordo é a personificação de uma persona literária “entre mundos”: ainda com um pé no passado, mas construindo uma nova passagem para a realidade cotidiana. Seu último livro “As Três Vidas” é a perfeita metonímia do escritor pós-industrial e, aqui, ele conta a história de Antônio Augusto Millhouse Pascoal, um homem para lá de misterioso e que, como psicanalista não muito convencional, trata pacientes famosos. Pessoas que representam de alguma forma algum grande acontecimento do mundo criado por Tordo. Arautos da guerra civil espanhola, defensores da democracia na América Central, rebeldes intelectuais que, por bem ou por mal, tem a mente e o corpo preso em seus insucessos enquanto defensores de um ideário geopolítico.

De forma sutil, mas bastante simbólica, Tordo vai desenhando a intrincada rede de relacionamentos que é travada, somente, por meio de cartas e encontros pessoais. Cada novo paciente na Quinta do Tempo, propriedade de Millhouse Pascoal localizada no Alentejo é uma pedra num jogo político internacional. São personagens em fuga ou mesmo à deriva do que defendem, todos eles vivendo o presente sob o peso de passados que precisam ser desvendados.

Mas as mais de 600 páginas desse romance entrecortado por tantos flashbacks e dono de um descritivo detalhado, mas não por isso desinteressante tem como enredo mestre um homem idoso e de passado dúbio, Millhouse, um jovem desesperadamente em busca de um emprego (de identidade não revelada) e uma jovem, Camila – neta de Millhouse -, que vive tentando manter o equilíbrio sobre a corda bamba, uma metáfora plena da narrativa que se desenvolve, do viver no mundo e do próprio futuro que espera os personagens.

Aqui, o jovem escriba que exerce a função de secretário de Millhouse, toma a posse de narrador / protagonista e vive numa espécie de mundo paralelo em que tudo levita às margens do que é socialmente aceito, mas que também mantém-se sobre um precário equilíbrio entre o hoje, o ontem, entre o ser e o não ser tal como o funâmbulo que joga e arrista a vida sobre um fio de acasos e pura sorte.

Toda a primeira parte do romance (a maior) se transforma num verdadeiro limbo que desenha diante de si um poderoso clímax – e talvez um leitor pouco afeito aos engates literários e pouco experiente largaria “As Três Vidas” de mão. Nesse primeiro tomo a narrativa oscila entre momentos de verdadeira tensão e outros de alumbramentos. Tordo nos fornece elementos para conhecer uma história de contornos soturnos e sinistros, cheia de relações de causa e consequência. Em outros momentos passamos a conhecer aventuras e patifarias de jovens ricos e desregrados mais afeitos à experimentar um mundo em finais de semana pouco usuais. A narrativa, desta dorma, brinca, o tempo todo, com as sombras e clarividência.

Do verdume do Alentejo à Nova Iorque, é na cidade americana que entramos no verdadeiro contraste que é a vida para ser vivida. Um entremeio de encontros breves, aturdidos, daquilo que se prevê, mas não se realiza, das surpresas nem sempre agradáveis, de um corre-corre veloz, estonteante e ansioso. Igualmente referendado aos praticantes do funambulismo. É nessa vida extremamente esgotável, em que o equilíbrio vale mais que a vontade de seguir em frente.

Mas se não foi na paisagem campestre que o protagonista alcançou o amor e a sabedoria, também não é na cidade que irá fazê-lo. A paixão por Camila ainda não será concretizada, as pedras do quebra-cabeça que é seu patrão também, aqui, não estarão juntas. E é desse amálgama de possibilidades irrealizáveis, mas que beiram a concretude que está o tema central de “As Três Vidas”: de que é preciso muita diplomacia e equilíbrio para sobreviver num mundo onde tudo é feito para que ninguém ser plenamente livre.

NOTA: 8,0

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