Aroeira (Foto: Márcio Lima/ Divulgação)

A GRANDEZA DAS PEQUENAS MEMÓRIAS
Aroeira, da cia Viladança consegue unir simplicidade e abstração
Por Rafael Dias

Os gestos e os pequenos movimentos, marcados pela simbologia resistente por trás das miudezas e da aridez do cotidiano, prescindem de qualquer outro meio. Desenhados com delicadeza e afeto, os passos (aí está a força da dança, a não-física) são mais eloqüentes que um espaço cênico de vozes. A lição magnífica é repassada pela cia Viladança, um dos grupos residentes do Teatro Vilha Velha, de Salvador. O espetáculo Aroeira é um libelo de bolso que extravasa a amplitude de nossos sonhos e vazios.

Mesmo com uma conotação ricamente abstrata, a encenação se fez entender pelo público heterogêneo do Teatro Apolo, no Recife. No começo do espetáculo, um grupo de crianças de escola pública sentado nas primeiras fileiras parecia não se importar muito com o que se passava no palco, mas logo depois foram sendo magnetizados pela simplicidade pelo conjunto de luzes, sombras e construções poéticas do real. A coreografia de Cristina Castro traz à tona os traços e fragmentos de memória que ficam relegados em nosso consciente e lhes dá um novo sentido. O retalho de lascas de sentimentos perdidos recompõe aquilo que deixamos em aberto por nossa própria indiferença ou desleixo. A singularidade está em conduzir o que não somos capazes (ou não queremos) fazer: vasculhar o nosso porão de sentimentos incompletos e frustrados sem o tom de auto-comiseração.

Mas a encenação não faz apenas desferir golpes sobre as cicatrizes que se cumulam umas sobre as outras, como rochas de sedimentos antigos. Tampouco parece propor ser uma fuga nostálgica de fora para dentro. À medida que recolhe nosso pedaços decompostos, os recicla e recostura em algo novo, belo e límpido, a montagem nos faz resgatar nossas esperanças que andavam combalidas pelo tempo e o massacre do dia-a-dia. Assim como a árvore de casca grossa, endurecida, que mantém seus sonhos nutridos em seu interior, sem deixar definhar à toa.

A trilha sonora de Milton Nascimento, guardada a sete-chaves por 15 anos e dada de presente à coreógrafa, não poderia ter sido melhor aproveitada. Há uma perfeita harmonia entre cenário (projeção de vídeos, cores e fotos espalhadas no chão), música, som e dança. O corpo de vinte bailarinos traduz com graça e uma intensa vitalidade o espírito do espetáculo, que pede uma expressão física forte, tensa e repetitiva, mas imbuída da fragilidade do desejo mais íntimo. Deixa a sensação de que a nossa fortaleza deveria ser mais permeável, de muros maciços mas com canhões leves como nuvens.

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