LEITE COM AÇÚCAR
Drama soft gay desvia de polêmicas e mira no afeto humano
Por Rafael Dias

É interessante a maneira pela qual o cinema queer vem saindo do underground e cotejando seu espaço no mainstream. O aspecto sujo, feérico e subversivo das relações homossexuais está sendo deixado de lado. Agora o lema é seguir a estética Brokeback Mountain, a fotografia límpida e palatável às massas, referendada pela Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood. É claro que há algo de bom nessa “revolução silenciosa”: a tolerância pela causa gay. Por outro lado, já há uma “onda” de novos filmes gays com abordagem superficial e meramente caça-níquel.

Não parece ser esse o caso do curta Café com leite, do jovem paulistano Daniel Ribeiro, de 25 anos. Em seu primeiro trabalho sólo, Ribeiro faz uma obra de uma sutileza tão elegante, sem perder a densidade que o tema requer, a ponto de quebrar qualquer tipo de defesa (ou preconceito). Avesso a polêmicas e maniqueísmos, o vídeo evita abraçar a bandeira de questões delicadas como adoção por gays e direto à união civil homossexual e opta pelo discurso subliminar em defesa do afeto humano. É, nesse sentido, não um filme político, mas humanista, essencialmente.

O que de fato impressiona é a forma tênue com que o filme se esmera ao tratar de um assunto difícil. Ao contar a história de um rapaz homossexual, o fotógrafo Danilo, que, ao perder os pais, tem de se readaptar a uma nova rotina ao lado do irmão mais novo, Lucas, e as expectativas do namorado Marcos, os recursos passam a largo do melodramático. Com uma finesse rara no cinema brasileiro, o diretor prefere as elipses e a intenção que está por trás uma ação boba, mas decisiva, como não saber esquentar um copo de leite e chamar o outro de “café com leite”. É nesse ambiente de reaproximação e redescoberta de uma afetuosidade perdida que o filme ganha força.

É verdade que o roteiro às vezes ganha um sabor um pouco açucarado demais. Muito cor-de-rosa. A relação dos irmãos, antes fria e quase inexistente, parece não exibir nenhuma ferida. Mas isso é apenas um pequeno detalhe. Com um enredo atual e cativante, a história renderia até um longa-metragem. Não à toa, venceu o Urso de Cristal na mostra para adolescentes e crianças (Generation 14 plus) do Festival de Berlim deste ano.

Aliás, é uma obra que está muito além de barreira do cinema “queer”, no sentido de um rótulo fechado. Caberia perfeitamente ser exibido numa mostra segmentada do Mix Brasil, ou até mesmo em um festival de grande porte, como no Cine PE, onde foi ovacionado por um público heterogêneo. Falta ao cinema brasileiro filmes assim: com uma história clássica, bem feita e narrada, sem firulas e carnavalismos. Que outros cineastas possam, se não seguir o exemplo, buscar pelo menos mais sinceridade e menos pirotecnia.

CAFÉ COM LEITE
Daniel Ribeiro
[Brasil, 2008]

NOTA: 9,0.

[+] VEJA TUDO O QUE FOI PUBLICADO SOBRE O CINE-PE 2008

Sem mais artigos