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Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo apresenta rock cheio de ironia e deboche

Quarteto paulista traz guitarras distorcidas e experimentação em disco que tem produção do pianista pernambucano Vitor Araújo

Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo apresenta rock cheio de ironia e deboche
4.5

Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo
Música do Esquecimento
RISCO, 2023. Gênero: Rock

O quarteto paulista Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo retorna neste segundo disco, Música do Esquecimento, mantendo a veia irônica e o espírito indie-rock experimental de sua estreia há apenas dois anos com o trabalho homônimo. Mas, certamente, grande parte do seu público chegou a conhecer a banda apenas agora, em seu trabalho mais acessível e pop, mas que mantém a personalidade excêntrica do grupo.

Parte desse sucesso se deve a “Segredo”, faixa que ressoa forte no público LGBTQIA+, pois fala sobre o anonimato que muitas pessoas precisam se submeter por conta do preconceito, seja na família, na escola, no trabalho. A faixa tem rifes animados alternados com uma bateria acelerada com uma letra que diz ” Olha no meio da minha cara / Não vê que não há nada a esconder / Mas se você quiser / Eu viro um segredo seu / Não faço barulho nem chamo atenção de ninguém”.

A partir de “Segredo”, que ganhou videoclipe e fez parte de uma bem orquestrada campanha de divulgação do álbum, cercada de muito mistério e expectativa, o ouvinte vai dar de cara com uma das bandas de rock mais interessantes a surgir no cenário brasileiro. O disco é repleto de letras que fogem do óbvio, mas que escancaram certo espírito do tempo da juventude atual, marcada por um misto de ansiedade e efusividade, em que a ironia e o deboche mascaram as inquietações.

O grupo é formado por Sophia Chablau, pelo baixista Téo Serson, o guitarrista e tecladista Vicente Tassara e o pelo baterista Theo Ceccato. Após um primeiro disco elogiado, porém feito em meio a uma intensa agenda de shows, este segundo chega com uma maior maturação, o que acabou soando mais lapidado, com um verniz mais pop. A poética incomum do grupo, que usa a ironia e o humor de maneira muito inteligente, no entanto se manteve intacta.

Ajudou ainda mais o fato do pianista pernambucano Vitor Araújo, em um dos seus primeiros trabalhos como produtor musical, ter apostado em arranjos e direções inusitadas. É o caso de “Minha Mãe é Perfeita”, com seu aceno hardcore, ou o rock psicodélico e dançante em “Baby Míssil”. A produção busca o tempo todo trazer complexidade para as músicas, fazendo de sua audição uma experiência repleta de descobertas. Como se cada música buscasse uma saída impossível, tentando manter ao longo do álbum um tom de perplexidade constante.

Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo.
O grupo traz letras carregadas de ironia. (Foto: Helena Ramos/Divulgação.)

Coproduzido por Ana Frango Elétrico e com participações especiais de Juliana Perdigão e Bebé, o disco traz ainda Negro Léo na ótima “Quem Vai Apagar a Luz”, uma faixa animada que convida para dançar enquanto canta sobre o apocalipse. O final do disco traz “Deus Tesão”, uma cacofonia de sons externos que aos poucos se transformam em um samba ao vivo, desses de fundo de quintal. Pode tudo nessa viagem impossível do grupo.

Ouça Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo – Música do Esquecimento

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