Se Rasgum, Belém – Segundo dia

otto glauce andrade
otto glauce andrade
Otto seguiu seu roteiro de tirar a roupa e ir de encontro ao público (Foto: Glauce Andrade / Divulgação)

Segundo dia teve como destaque o show da Dead Lover’s Twisted Heart com Odair José, que há 37 anos, “pede para as mulheres pararem de tomar a pílula

Por Yorranna Oliveira
Colaboração para O Grito!, em Belém (Pará)

Chove em Belém do Pará. As águas caem com força total na segunda noite do 5º Festival Se Rasgum. E a programação, marcada para iniciar às 20 horas, atrasa. A banda paraense Dharma Burns abre os trabalhos, quase às dez da noite. No repertório, músicas em inglês inspiradas em Beatles, The Strokes, Muse, Radiohead para um público ainda pequeno, mas o suficiente para preencher o espaço do palco 2 do African Bar. O indie rock autoral dos rapazes convence. Sem, no entanto, aflorar os ânimos da maioria. Culpa da chuva talvez.

Na sequência, o grupo Mostarda na Lagarta assume o posto no palco principal. Ao contrário do Dharma, que tocou num ambiente onde o público ficava protegido da chuva, para ver e ouvir o Mostarda foi preciso se molhar. Eles aprontaram todas no palco, com um único objetivo: divertir. E divertiram mesmo. Um pequeno grupo de pessoas não se intimidou com a água ensopando roupas e corpos, e ficou ali, no meio da chuva, pulando e se rasgando com o rock satírico dos meninos.

COBERTURA SE RASGUM, EM BELÉM
» Primeiro dia: Cultura Pop(ular)
» Segundo dia: Otto, Odair José e Cidadão Instigado
» Terceiro dia: Dado Villa-Lobos e Los Poronga

De volta ao palco 2, é Lê Almeida quem comanda a noite. O carioca, da Baixada Fluminense, trouxe o conceito do movimento punk “Faça você mesmo” para sua apresentação. Lê iniciou a carreira em 2006, sem dinheiro algum no bolso e a mente fervilhando de ideias. Ele gravou sozinho um disco inteiro no quarto de casa, tocando cada instrumento, usando microfones de plástico mofados, um computador nada moderno e fitas K7. Nesse contexto de precariedade, o rapaz lançou os compactos “Fique bem com drops de halls”, “Loufailândia”, “Querida Deal” e “Revi”. Lê Almeida mostrou canções que têm o cotidiano como pano de fundo.

A noite avança e a qualidade musical das bandas também. O Festival entra em sintonia. A chuva para. E o público ganha os espaços ao ar livre do African para ver a banda do Distrito Federal, Soatá. Foi quando o frio deu lugar ao calor. Calor que vinha do público em resposta ao som frenético do grupo e a potência vocal de Ellen Oléria. É o resultado da mistura de rock’n’roll com carimbó e outros ritmos. A sonoridade amazônica no trabalho da Soatá vem do guitarrista do grupo, Jonas Santos, paraense que foi tentar vida musical na capital do país. No palco principal, Ellen comanda um show vibrante. A cantora parece entrar em transe quando começa a cantar. “Deve ser sabe? Não é possível?”, ela diz logo após o show.

Brega, Otto
A pluralidade musical ganha forma com os músicos do grupo Cabruêra. Do agreste paraibano, eles fizeram um dos shows mais inovadores e divertidos da segunda noite do Festival. Mesclando música popular com diversos estilos, até batida eletrônica, Arthur Pessoa (voz e guitarra acústica), Pablo Ramires (bateria e vocais), Edy Gonzaga (baixo e vocais) e Leo Marinho (guitarra) transformaram o palco em uma verdadeira salada musical. A experiência de mais de dez anos de estrada inventado arte e o domínio de palco Arthur deixaram o local pequeno demais para o tamanho da vibração do espetáculo, que terminou com uma grande roda de ciranda, comandada por Arthur Pessoa. “Eu garanto que quem entrar nessa brincadeira, vai se divertir”. “Quem quiser é só entrar na roda. Eu já tô nela”, disse o vocalista, pulando do palco para o centro da roda ao som de “Ciranda-Cirandinha”. O povo obedeceu e foi junto numa cantoria repleta de canções de roda, que ainda teve direito a “Escravos de Jó” entre outras.

No Laboratório de Música Paraense, terceiro palco do Se Rasgum, as experimentações sonoras iam noite adentro com Clepsidra, V.N (Vida Noturna), DJ Pro.Efx, Mestre Juvenal, Machines Of Shiva, DJ Zenildo (Brasilândia) e Cocota de Ortega.

No palco 2, os gaúchos da Graforreia Xilarmônica diminuíram a temperatura do Festival. O brega punk da banda, repleto de músicas bem humoradas e despreocupadas, e com uma pitada de música regionalista gaúcha, ajudou o público a respirar e descansar da maratona musical. E deu os acordes iniciais para um dos momentos mais bonitos da programação, o show de Odair José com o grupo Dead Lover’s Twisted Heart. Odair encantou a plateia, que cantava em coro cada uma de suas músicas, como em “Cadê você”, “Foi tudo culpa do amor” e “Eu vou tirar você desse lugar”.

“Há 37 anos eu falo para as mulheres desse país pararem de tomar a pílula”, disse Odair para iniciar a música “Uma vida só”, mais conhecida pelo seu refrão “pare de tomar a pílula”. Ele foi ovacionado. O que se via era gente jovem e gente velha reverenciando um dos mestres do nosso cancioneiro brega, um público que aprendeu a descobrir e reviver a poesia e a delicadeza contidas nas canções de Odair. Nelsinho Rodrigues veio em seguida com “Gererê” e outros hits do brega paraense. Na ponta da língua das moças e rapazes presentes, com direito a casais subindo ao palco para dançar. Era Nelsinho preparando o terreno para a viagem psicodélica que seria o show da banda Cidadão Instigado (CE/SP).

Sob o comando de Fernando Catatau, o Cidadão tocou as composições de seu mais recente trabalho, o disco Uhuu. O público acompanhava todas as músicas com a mesma intensidade dos solos de guitarra de Catatau. “Nem imaginava que tinha tanta gente aqui que curtia o som da banda”, contou o vocalista. Na primeira e aguardada apresentação do grupo em Belém e a primeira da noite de Catatau, que ainda tocaria no show de Otto logo em seguida, o Cidadão Instigado não decepcionou.

Os integrantes da paraense Félix y Los Carozos seguiram a noite com a participação especialíssima da Beyoncé do Pará, Gaby Amarantos. E às 4h55 da madrugada, Otto entrou no palco principal para o que se tornaria um show histórico nas edições do Festival. Abrindo o espetáculo com “Filha”, do elogiado disco Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, de 2009, o pernambucano passou por Belém na sua melhor fase artística. A dor das perdas (a morte da mãe e o fim do casamento com a atriz Alessandra Negrini) subverteu-se em arte, a obra-prima de sua carreira. As músicas de “Certa Manhã” estavam quase todas ali. E homens e mulheres cantavam, gritavam, vibravam com cada uma delas.

O repertório do show incluía sucessos de outros trabalhos, barriga de vez em quando à mostra, dancinhas desajeitadas e a entrega total de Otto ao momento. O cantor sabia que eram “momentos únicos. Instantes na eternidade”, como ele canta em uma de suas músicas. E o melhor agradecimento foi quando ele desceu do palco e se enfiou no meio das pessoas na música “Naquela Mesa”.

Às 6h57 aquele momento único, eternizado na história do Festival Se Rasgum chegou ao fim. E como Otto já tinha previsto, era bom voltar pra casa ao amanhecer.