Inesquecíveis Vol. 2
Fabien Toulmé
Nemo, 2025. 152 páginas, R$ 89,90. Tradução de Fernando Scheibe
Reflexos do Mundo: Trabalhar e Viver
Fabien Toulmé
Nemo, 2025. 360 páginas, R$ 129,80. Tradução de Fernando Scheibe e Bruno Ferreira Castro
O jornalismo em quadrinhos tem um público cativo e é hoje uma importante ferramenta para aprofundamento de temas políticos e sociais. E, neste universo, não podemos deixar de destacar o trabalho do francês Fabien Toulmé, um dos mais profícuos quadrinistas da atualidade, autor, entre outros trabalhos, da comovente trilogia A Odisseia de Hakim, lançada nos anos de 2020 e 2021, com o relato doloroso da travessia de um refugiado sírio do seu país até a Europa. No segundo semestre do ano passado, a editora Nemo nos brindou com mais duas obras de Toulmé: o segundo volume da série Inesquecíveis e Trabalhar e Viver, continuação da série Reflexos do Mundo, ambas, com a mesma marca inconfundível do autor, histórias profundamente humanas e de resistência.
Inesquecíveis 2 apresenta novos personagens reais cujos dramas pessoais revelam não apenas os questionamentos individuais dos protagonistas, mas um contexto que nos remete invariavelmente a aspectos da vida contemporânea. Esta é uma característica dos roteiros de Toulmé. Desta feita, temos cinco narrativas, entre elas “A mais invisível possível” e “Vencer e renascer”, as quais destacamos pela força emocional que elas carregam ao mostrar como a violência e a intolerância deixam marcas profundas nas pessoas e quanto a resiliência é uma arma eficaz para superar os traumas.
A primeira narrativa destacada se passa no Brasil e é sobre uma mulher de 33 anos que durante anos viveu um relacionamento abusivo e sofreu violência doméstica. Na trama vemos que, mesmo livre do seu algoz, essa fase sombria de sua vida ainda influencia o seu cotidiano. Já “Viver e renascer” é o relato de Bruno, um parisiense que, ao completar 50 anos, sai do armário e rememora toda a sua trajetória de autorrepressão, que incluiu inclusive casamento com mulher e filhos.


Essas e as demais histórias de Inesquecíveis são contadas com delicadeza e esse é um dos méritos de Toulmé. Ele nos aproxima dos personagens de forma carinhosa e nos faz enxergar suas vivências como se estivéssemos ao lado deles, para que mais do que provocar emoção, seus dramas nos inspirem e nos apontem que ainda é possível um mundo melhor, mesmo diante da guerra, tema da última história da HQ, dedicada ao conflito entre Rússia e Ucrânia.
Não menos eficiente em seus propósitos é Trabalhar e Viver. Se no primeiro volume da série, intitulado Na Luta, ele abordou a resistência das mulheres à opressão em diversos países, nesta nova empreitada, o autor deslocou-se para três países – Estados Unidos, Coreia do Sul e Ilhas Comores – para nos instigar a refletir sobre a nossa relação com o trabalho. A partir de acontecimentos específicos, Toulmé desenrola o intrincado novelo de diferentes perspectivas que regem hoje as atividades laborais, como a busca de mais tempo para se viver, os excessos e abusos das empresas adoecendo e levando trabalhadores a morte, o processo de uberização e a ilusão do empreendedorismo.

Um aspecto a ser assinalado nas reportagens em HQ de Toulmé, e que nessa nova obra nos chama bastante a atenção, é a forma como ele conjuga de maneira fluida e cativante a pesquisa histórica, os dados precisos e as entrevistas. Além disso, não perde de vista o que se espera de uma boa reportagem, a investigação aprofundada, o senso de responsabilidade no tratamento das informações e a aliança equilibrada entre objetividade e subjetividade. Seus entrevistados não são números, são seres reais, humanizados em sua totalidade que, mesmo representados em desenhos de traços simples, quase naifs, não perdem sua força narrativa.
Fabien Toulmé iniciou sua vida profissional como engenheiro civil e chegou a morar por dez anos no Brasil. Estreou nos quadrinhos com a graphic novel Não Era Você que Eu Esperava, uma história de aceitação e amor, inspirada no nascimento de sua filha que tem síndrome de Down. Essa disposição do autor de se jogar por inteiro no que se propõe a contar é um traço indispensável para o jornalismo em quadrinhos que tenha como objetivo se debruçar sobre temas sensíveis como direitos humanos e lutas sociais. Embora percebamos em Toulmé um olhar com filtros delineados por sua origem europeia que acaba aparecendo nas entrelinhas de suas histórias, não se pode negar o seu compromisso e desejo de aproximar as pessoas e torná-las mais tolerantes e solidárias. Leitura, portanto, obrigatória, sobretudo, para quem busca boas fontes de conhecimento e não aguenta mais ser brinquedinho de algoritmos.
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