Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / ABr

VEJA EM APUROS
Investigações da Polícia Federal apontam relação estreita do semanário da Abril com o bicheiro Carlos Cachoeira. Comparação com Rupert Murdoch?

Por Tiago Negreiros

É inevitável comparar. Desde 2011 que o magnata das comunicações, Rupert Murdoch, tem se explicado sobre a relação de seus subordinados e, por consequência, de seus veículos de comunicação, sobre as escutas ilegais de centenas de celebridades e cidadãos comuns ingleses. As denúncias já levaram vários jornalistas para a cadeia e motivaram o fechamento do dominical The News of the World e a renuncia de James Murdoch, filho do magnata, à presidência executiva da News Internacional, que edita vários jornais do grupo. No Brasil, a estreita relação entre a revista Veja e o bicheiro Carlos Cachoeira tem inspirado tais comparações, que resguardam suas semelhanças com o caso inglês, mas com um agravante: o semanário brasileiro colaborou com os interesses da quadrilha de Cachoeira, resta saber se foi de forma consciente.

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Quando surgiram as primeiras informações de que um dos editores de Veja, Policarpo Júnior, conversara por cerca de 200 vezes por telefone com o bicheiro Carlos Cachoeira, tal relação dividiu as opiniões dos internautas nas redes sociais. Afinal, é correto um repórter ter tamanha aproximação com um contraventor? Em grandes reportagens investigativas, é natural que os jornalistas necessitem entrar no submundo do crime para apurar as mais graves informações. Tal argumento foi defendido por quem acredita que a Veja não cometeu nenhum desvio ilícito, sequer ético. Até porque, nem toda fonte tem o caráter ilibado. Por outro lado, vários argumentaram que quando o jornalismo é conivente com os bandidos ao ponto de conscientemente ceder às suas pressões, a relação já passa a ter um caráter criminoso. Ou seja, o veículo estaria se beneficiando dos favores concedidos à fonte.

Já não há dúvidas de que o senador goiano Demóstenes Torres (sem partido) foi uma espécie de braço direito para Cachoeira. Ambos foram pegos em flagrante na investigação da Polícia Federal, conhecida como “Monte Carlo”. As escutas da PF feitas sob autorização da justiça apontaram uma estreita relação entre o bicheiro e o senador, como troca de favores e cobranças mútuas. Demóstenes era o lobista de Cachoeira no Congresso, sempre defendendo a jogatina entre seus pares ou nomeando familiares do bicheiro em cargos públicos. Em troca, Cachoeira agraciava Demóstenes com vários mimos, entre eles, uma cozinha completa no valor de 20 mil dólares e 30% de todos os valores arrecadados no jogo clandestino. A polícia acredita que os negócios garantiram à quadrilha cerca de R$ 170 milhões nos últimos seis anos.

Nas páginas de Veja, Demóstenes sempre apareceu para assegurar a moralidade. Era o guardião da ética, ou melhor, o “mosqueteiro”. Disposto a potencializar denúncias de corrupção no Governo Lula, não era difícil vê-lo defender CPIs e prisões de desafetos. Em uma dessas aparições de Demóstenes está a grave denúncia de que o senador e o ministro do STF, Gilmar Mendes, foram grampeados ilegalmente por agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). A acusação, estampada na capa de Veja em setembro de 2008, ajudou a criminalizar investigações da Polícia Federal, como a chamada “Satiagraha” – que denunciava o banqueiro Daniel Dantas em uma série de crimes – e a “exilar” o diretor da Abin, Paulo Lacerda, em Portugal, onde ele foi Adido Policial na embaixada brasileira. A Polícia Federal investigou o caso e jamais encontrou um mísero milésimo de áudio, o que provocou o arquivamento das acusações de Demóstenes e Mendes. O caso ficou popularmente conhecido na internet como o “grampo sem áudio”.

A imagem de guardião da moralidade garantiu a Demóstenes uma folgada vitória nas urnas nas últimas eleições em Goiás: mais de 2 milhões de votos, o que lhe garantiu mais oito anos de mandato no Senado. Ao seu lado, o sócio Cachoeira, que lhe confiara um aparelho de rádio Nextel para falar sobre os negócios da quadrilha, o que incluía ataques a adversários, estes, amplamente publicados pela revista Veja. Um dos primeiros ataques do bando foi em novembro de 2004, quando o deputado estadual André Luiz (RJ) surgia nas páginas de Veja sob a acusação de tentar extorquir o “empresário de jogos Carlos Cachoeira”. A revista, em um “furo de reportagem” assinado por Policarpo Júnior, trazia áudios em que mostravam o deputado pedindo R$ 4 milhões a Cachoeira, em troca de proteção em uma CPI que investigava ilegalidades nas casas lotéricas do Rio de Janeiro.

Convidado para prestar depoimento no Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Policarpo defendeu o contraventor; confirmou o que havia escrito e mostrou as gravações em que provaram a tentativa de extorsão de Luiz a Cachoeira. O bicheiro fora tratado somente como vítima na reportagem intitulada “Vende-se uma CPI”, embora fosse investigado pelos deputados por envolvimento em atos fraudulentos. Meses depois André Luiz teria seu mandato cassado.

Em 2005, Policarpo trazia mais um furo: Maurício Marinho, funcionário dos Correios há 28 anos, aparecia em imagens pedindo propina de R$ 3 mil para permitir a entrada de novos fornecedores aos Correios. A CPI dos Correios esclareceu que o vídeo fora “armado” contra Marinho pelo araponga Jairo Martins, funcionário de Cachoeira, para chantagear o esquema montado na estatal pelo então deputado Roberto Jefferson, aliado do Governo Lula na época. A quadrilha não desejava acabar com as corrupções na estatal, mas mudar o seu comando. O caso resultou semanas depois no maior escândalo do governo petista; o mensalão, que serviu de cortina de fumaça nas irregularidades dos Correios.

Martins colaborou em outras reportagens de Veja. Na matéria de capa “O Poderoso Chefão”, de agosto de 2011, o araponga gravou ilegalmente idas e vindas de parlamentares ao quarto do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, no hotel Naoum. Para completar a ilegalidade, o autor do texto, Gustavo Ribeiro, sob o comando do chefe da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Júnior, tentou invadir o quarto de Dirceu, mas foi impedido por uma camareira. O chefe de segurança do hotel abriu um boletim de ocorrência contra o repórter de Veja, mas o caso foi arquivado semanas depois sem muitas explicações. Nas escutas feitas pela Polícia Federal, Carlos Cachoeira demonstrou estar ciente da reportagem sobre Dirceu semanas antes de ela ser publicada. Conversando com Demóstenes sobre a reportagem, o bicheiro falava que a matéria colocaria “fogo na república”, pois iria supostamente colocar Palocci contra Dirceu, famosos adversários dentro do PT. Demostenes respondeu: “aí é ótimo, fantástico”.

Entre outros casos de favorecimento de Veja aos negócios de Cachoeira, está a reportagem “O Mensalão do PR”, publicada em julho de 2011, desta vez atacando a cúpula do Partido da República (PR). O texto falava em fraude nas licitações em obras do Ministério dos Transportes, sob a responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), cujo o diretor era Luiz Antonio Pagot, afastado por Dilma após a denúncia de Veja. A fonte da revista foi Claudio Abreu, diretor da Delta para o Centro-Oeste e aliado de Cachoeira. Nas escutas da Polícia Federal, Abreu dizia para Cachoeira o que tinha feito contra o diretor do Dnit nas páginas de Veja: “enfiei tudo no rabo do Pagot”. Nos grampos da PF, a dupla comemorava o sucesso da empreitada, que visava, segundo Pagot, afastá-lo do cargo, já que ele havia encontrado “problemas” em contratos da Delta em Estados como Ceará, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo.

A Delta possuía Cachoeira como um grande aliado, pois era o bicheiro quem conseguia fechar vários negócios para a construtora. Demóstenes Torres era, segundo a polícia, “sócio oculto” da Delta. Logo após ser afastado, Pagot, em entrevista à Època, já suspeitava quem estava por trás de sua demissão: “Fui surpreendido por ter sido afastado através de uma negociata de uma empreiteira com um contraventor. Isso serviu para que fosse ditado meu afastamento. É um verdadeiro descalabro”. Revoltado com a demissão, o ex-diretor do Dnit planejava revelar todo o esquema da Delta na imprensa, mas foi impedido por Demóstenes, que fizera forte lobby entre os parlamentares do PR para removê-lo da ideia. Nas escutas da PF, um Demóstenes aliviado avisava o sucesso da jogada ao bicheiro: “Deu (certo). O homem não me falou nada não. Tudo tranquilo”.

Em seu site, Veja publica um texto assinado por Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista, em que procura se defender das acusações que tem sofrido na imprensa e nas redes sociais. Intitulado como “Ética jornalística: uma reflexão permanente”, a defesa está no alto home da revista desde que o caso estourou. Escreve Alcântara: “A ética do jornalista não pode variar conforme a ética da fonte que está lhe dando informações. Entrevistar o papa não nos faz santos. Ter um corrupto como informante não nos corrompe.” Afinal, se Veja não foi corrompida pelo bicheiro, como explicar as 200 ligações entre Policarpo e Cachoeira? Até o momento que esse texto foi publicado, o conteúdo desses grampos ainda não foi divulgado. O que já se sabe é que Cachoeira tinha a liberdade, inclusive, de escolher aonde gostaria de ver suas informações publicadas. Em uma das interceptações telefônicas, Claudio Abreu diz a Cachoeira que Policarpo deseja saber aonde o bicheiro gostaria de ver a “notinha” publicada. Cachoeira respondeu: “diz que pode ser no Radar ou no online. Diz que se for para a revista, melhor ainda”. “Radar” é a coluna editada por Lauro Jardim, tanto na versão online, quanto na impressa. Em outras escutas, a quadrilha trata Policarpo de forma íntima; ora apenas como “Poli”, ou “PJ”.

A operação Monte Carlo resultou em uma série de prisões, como a de Carlos Cachoeira, Jairo Martins e Claudio Abreu. Há um inquérito aberto no STF contra Demóstenes Torres, que passará também por um processo de cassação no Senado após o recesso dos parlamentares, em agosto. Ainda refletindo as investigações da PF está a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), aberta recentemente para investigar a relação da quadrilha de Cachoeira com outros envolvidos, como governadores e a própria imprensa. Em um depoimento sigiloso à CPMI na última quinta-feira (10), o delegado da Polícia Federal Matheus Mela Rodrigues, responsável pela operação Monte Carlo, segundo a revista CartaCapital, afirmou que Policarpo tinha conhecimento das relações entre Cachoeira e Demóstenes. Nesta terça (15) os parlamentares vão decidir se convocam ou não Policarpo Júnior para depor. Desta vez não será para defender Cachoeira, mas a si próprio.

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Tiago Negreiros é jor­na­lista polí­tico. Reside em Toronto, no Canadá e escreve arti­gos para a Revista O Grito! sobre polí­tica internacional
, mídia e ciberativismo

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