NÃO FAÇA GUERRA, FAÇA SEXO!!!
Novo filme de John Cameron Mitchell mostra, sem o medo de soar falso ou pudico, que de fato todo mundo faz sexo, tem fantasias e trepa loucamente sempre que surge a primeira oportunidade
Por AlexandreFigueirôa, colunista d’O Grito

SHORTBUS
John Cameron Mitchell
[Think/ Mais, EUA, 2006]

Sexo é a coisa mais natural da face da terra, quase todo mundo faz ou fez. Uns o praticam de forma comportada e comedida. Outros, mais ousados, foi não foi cometem uma loucurinha. E uns tantos outros pintam e bordam. Mas, quando o assunto é exibir isto na tela a coisa muda de figura. À exceção dos filmes denominados “pornográficos” ou de “sexo explícito”, não é muito comum em obras ditas sérias, comerciais, ou que integrem o mainstream do mercado audiovisual, nos depararmos com pitocas eretas, conas ardentes, ejaculações, auto-felação e sexo grupal às claras. Pois bem, Shortbus, o novo filme de John Cameron Mitchell (Hedwig, Rock Amor e Traição) tem tudo isto e muito mais. E o melhor: tudo mostrado sem apelação ou com a intenção de chocar (claro, sempre haverá quem pense o contrário, mas para estes o conselho é: continuem assistindo a novela das sete). Mitchell simplesmente não esconde o jogo, ou seja, mostra a vida como ela é.

O Shortbus (referência aos ônibus escolares amarelos típicos da vida americana) é um clube underground em Nova Iorque onde as pessoas se reúnem para conversar, discutir arte, política, beber, dançar e fazerem sexo no melhor estilo dos anos áureos da liberação sexual. Só que o cenário agora é uma NY pós-11 de setembro, pós-aids e os protagonistas são personagens desses que encontramos de montão em todas as grandes cidades do mundo. Para amarrar sua história, Mitchell nos faz conhecer Sofia, uma terapeuta que nunca teve um orgasmo, embora finja ser a mais saciada das esposas para o marido Rob. Ao tentar ajudar um casal gay cuja relação não anda lá muito animada, ela é levada por eles para o tal clube. Lá ela vai conhecer Severin, uma dominatrix, um jovem voyeur, um velho político e outras criaturas que, pouco a pouco, vão mostrando como deixar de lado as aflições e angústias com a mais prática das receitas: faça amor não faça a guerra.

Embora estejamos contando isto, tentando manter a maior serenidade, ver Shortbus não deixa de despertar uma certa excitação voyeurística e também a curiosidade de saber como foi possível rodar tudo aquilo com tanta tranqüilidade. Passeando pela web não é difícil encontrar fatos pitorescos relacionados ao projeto do realizador. Mitchell, em primeiro lugar, queria fazer um filme sobre sexo, mas que fosse bem humorado, e cujos atores estivessem disponíveis para todas as travessuras que ele imaginava. Para compor o elenco, ele então colocou um anúncio na Internet e recebeu 500 fitas de candidatos. Desses, ele selecionou 40 que tiveram de gravar uma cena de 10 minutos contando uma experiência sexual que tiveram.

Depois, ele realizou oficinas com os escolhidos e os atores foram também participando da elaboração do roteiro e dos diálogos. O resultado é convincente para este tipo de obra, pois Mitchell, como já fizeram outros diretores, soube dosar fantasia e vida real na medida certa. O casal gay James e Jamie são mesmo namorados, Justin Bond é realmente uma famosa drag-queen novairoquina e para filmar as cenas de orgia, o próprio Mitchell e os cinegrafistas ficaram todos nus. Se ao lerem esse texto, vocês ficarem instigados, não hesitem. Shortbus não é nenhuma obra-prima revolucionária, mas vale a pena ser visto. Tem gente bonita, engraçada, uma trilha musical bacana e assume de uma forma clara e direta que namorar sem culpa faz um bem danado.

NOTA: 9,0

Trailer

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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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