Após longo e tenebroso verão, voltei. Confraternizações nababescas de fim de ano associadas a visitas familiares e sociais festivas me fizeram adentrar 2009 com o pé quase direito. Digo ‘quase’ porque às vezes é assim: você pensa que tudo está tranqüilo, lindo e maravilhoso e toma a primeira porretada no juízo: virei analfabeta.

Como assim? Pois é. O acordo ortográfico entrou em vigor e eu – cada dia mais, cada dia menos – só chego a duas conclusões possíveis: a primeira delas é a que de ‘a macaco velho não se ensinam novos truques’. A segunda é que o mundo fica cada vez mais politicamente correto e mais sem graça.

Não que eu esteja tão velha assim – 3.3 recém-completos (e tem hífen?), mas ando me sentindo praticamente uma bananeira anã (será que tem hífen?) quando se trata de escrever textos: seja pra web, pra impresso, pra release, bilhete desaforado ou cartinha de amor, ando com medo de dizer uma pachorra qualquer que esteja fora dos conformes do bendito novo acordo.

Vá lá. Pra não dizer que não decorei nada ainda (é, filho, decorar mesmo, fazer o quê?!?!?), tenho a única certeza (e esperança vã) de que o trema, aquele nosso amigo que diferencia o ‘u’, simplesmente deixou de existir. Foi relegado, definitivamente, ao dicionário alemão e ao termo fashion ‘übermodel’. Assim, jamais serei bensucedida (é, assim mesmo, tudo juntinho e com ‘n’ de navio) nas letras de novo.

Essa ‘sem gracice’ do politicamente correto tem lá suas vantagens: a indústria editorial brasileira passa a concorrer com a portuguesa na África. E, cá pra nós, somos muito mais África e eles muito mais Brasil do que nós ou eles lusos. Culturas similares, coração idem.

Mas bem que eu queria estar sendo alfabetizada agora, sem a angústia de ler um texto qualquer e não precisar empacar na leitura porque uma determinada palavra me pareceu estranha. Nem precisar perder 15 minutos consultando regras novas, sites ortográficos e corretores de plantão ao redigir a josta de um texto. Inda que seja de cartão de aniversário.

Certo. Achou pouco? Acharam que não nos bastava a eterna praga de danação de termos sido primeira geração de Internet tardia, daquelas que só tomaram contato com o mundo virtual nas academias de nível superior e termos que nos conformar com o fato de que nossos primos ou colegas de trabalho que nasceram uma geração após a nossa dão nó em pingo d’água no mundo virtual.

É. Eles mesmos. Os mesmos que estão na vantagem, porque nesse contexto no qual foram alfabetizados (digitalmente) toda mudança é benvinda (ou bem vinda?). Como assim não há mais acento em voo? Em polo? Em ideia? Socorro. Para (é, assim mesmo, filhote. Do verbo ‘parar’, mas sem acento) o mundo, que eu quero descer!

PS: Fantasia de carnaval: bruxa má, hors concours. Não me bastassem outras alcunhas menos elogiosas como fura-olho, traíra surucucu ou cínica da Silva, acho que comprar a vassoura vai me sair mais barato. Quer saber? Vão sempre falar de você, darling.

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[+] A Rainha do Maracatu Roubada de Ouro é o pseudônimo de uma jornalista pernambucana. Toda semana, escreve nesta coluna, crônicas de desabores, desencantos e memórias.

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