Adoro ditados da sabedoria popular. Não é à toa que se chama “sabedoria popular”. Venero a precisão e ironia por detrás de frases simples e certeiras. Duvida? “Cabeça vazia oficina do demônio”. É verdade. Quer coisa pior do que uma pessoa com poucos afazeres e que fica enchendo a cabeça de caraminhola? Há alguns até dos quais eu discordo. Aquele, por exemplo, que diz: “Dinheiro não traz felicidade”. Traz não, filhote? Seja feliz e me dê o seu, porque eu prefiro ser infeliz em Paris.

Enfim, há vários e outros, mas o fato é que eu tenho uma coleção particular de bestiário (nada remissivo a dicionário de animas, mas de coisas ‘bestas’) para definir algumas situações precisas. Vou deixar aqui alguns exemplos:

Texto: “Menino, saí à noite do sábado e tomei um porre homérico. Daqueles de subir na mesa e tirar a roupa”.
Bestiário: “Acha bonito e, ainda por cima, conta”. Além do quê, profissional mesmo só bebe de domingo a quinta-feira. Sexta e sábado é coisa pra amador: bares cheios, um monte de menino na rua, o serviço, por conseqüência, é um horror. E tenho dito.

Texto: “Olha, meu chefe me pediu pra conseguir o telefone celular do Bill Gates. É doido ou não é?”.
Bestiário: “Meu filho, o ‘não’ a gente já tem”. Taí uma verdade: na pior das hipóteses, a gente ganha um “sim”, mas só se tentar. Liga lá na Microsoft e desenrola, oras. Quanto a mim, consegui bater papo com o Marcelo Tas (www.marcelotas.com.br) assim mesmo. Quem sabe não funciona?

Texto: “Ah, minha vida está ótima. Estou naquele mesmo emprego há 15 anos, minha mãe não larga do meu pé, meu namorado continua sendo uma josta no serviço sexual, aquela minha amiga invejosa continua dando matação pelas minhas costas….Eita! Já te disse que eu virei amante do presidente da República há três meses?”
Bestiário: “Minha filha, como assim lead da matéria no final da notícia?!?!?!”. Para os não-jornalistas eu explico: Lead são as quatro informações principais de uma notícia (o quê, quem, quando, onde. Como e porquê, se possível) e devem constar do primeiro parágrafo. Algo do gênero “João matou Maria na Rua da Guia. Motivo: ciúme”.

Texto: Mulher, nem te conto. Meu primo viajou pra Barra de Coruripe e encontrou um riporonga adepto a uma seita que mescla chá de curare com filosofia racional. Abandonou absolutamente tudo, raspou a cabeça e faz meditação enquanto consegue conversar com gnomos.
Bestiário: “Mas eu quero tomar é dessa!”. Frase sempre empregada quando uma pessoa vem com uma conversa sem pé nem cabeça que nos faz pensar que ainda não ingerimos a quantidade de álcool necessária para chegar a este grau de iluminação filosófica.

Texto: Ai, amiga, preciso da sua ajuda. Hoje minha prima chega de São Paulo às 3:45h da matina e alguém precisa ir buscar ela lá no Terminal Rodoviário. Como você sabe, eu estou sem carro e a essa hora o metrô não funciona. Você pode pegar ela lá pra mim?
Bestiário: “Tem amigo safado quem pode”. É auto-explicativo.

Texto: “Ai, não agüento mais essa coisa de brincar carnaval em Olinda. Essa coisa de subir e descer ladeira, me cansa só de olhar. É todo mundo melecado, com catinga de macaco e as ruas cheirando a xixi alheio…”
Bestiário: “Será que, quando eu crescer, eu fico assim, igual a você?”. Normalmente empregado quando pessoas mais novas do que você atacam com um papo de cansaço sem explicação plausível que não seja um câncer de fígado.

Texto: “Decidi aplicar todo o meu suado dinheirinho em aplicações na Bolsa”
Bestiário: “Quem tem c… (leia-se ânus) tem medo”. Ou coragem de mamar em onça. Empregado para quando você acha a proposta uma Roubada de Ouro.
Bestiário Versão 2: “Quem tem medo de cagar não come. Toma papinha”. Empregado quando você acha a idéia muito ousada, mas dá todo o apoio.

Bom, são essas e algumas outras do meu bestiário favorito. O que importa é: rir, sempre é o melhor remédio. Em vez de ficar se lamentando da vida, levanta essa bunda da cadeira do computador e vai lá fora olhar pro sol. É verão! Tempo de ser mais feliz. Eu, pelo menos, tento.

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[+] A Rainha do Maracatu Roubada de Ouro é o pseudônimo de uma jornalista pernambucana. Toda semana, escreve nesta coluna, crônicas de desabores, desencantos e memórias.

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