ASTRO CANSADO
Só mesmo a presença de Gerard Depardieu sustenta a estréia desta comédia francesa no Brasil
Por Gabriel Gurman

QUANDO ESTOU AMANDO
Xavier Giannoli
[Quand j’étais chanteur, França, 2006]

Parece piada pronta. Ao lermos o título original do novo filme de Gérard Depardieu, Quand J’étais Chanteur (quando eu era cantor) é impossível não fazer o paralelo com a carreira dos tempos em que Depardieu era um ator e não uma paródia de si mesmo. Talvez até por isso, o título brasileiro tenha fugido do original, passando a chamá-lo deQuando Eu Estou Amando.

Com uma direção discretíssima de Xavier Giannoli, o filme trata de um crooner em final de carreira que ganha suas vida cantando em bares decadentes e até mesmo asilos para um grupo de velhinhos que preferem dormir a ouvir aquele pastiche. Alian Moreau, este cantor representado por um Depardieu que lembra mais um lutador de boxe em final de carreira do que um artista, tem o apoio apenas de sua ex-esposa e empresária e do atual marido dela, que cede o espaço de seu bar para Moreau e sua banda.

Tudo (nada?) começa a mudar quando aparece na vida do cantor a jovem corretora Marion. Perdidamente apaixonado, o ex-conquistador (apelidado de “Ladies Man” pela jovem) passa a tentar conquistar a linda garota com seu charme irresistível: Uma senhora pança, roupas bregas, presença de palco deplorável e um estilo galanteador discutível. A cena da aula de dança chega a ser constrangedora. Mas como estamos vivendo no fantástico mundo dos filmes, o casal se forma. “Eu nunca conheci alguém como você”, diz Marion em certa parte do filme. Preparei-me para a piada seguinte, mas era isso mesmo. A garota se apaixona.

Para garantir as quase duas horas de filme (que parecem quatro) o diretor abusa da fórmula dos romances hollywoodianos na fórmula: homem-conquista-mulher-que-dorme-com-homem-e-vai-embora-sem-dizer-tchau-então-homem-tenta-reconquistar-a-mulher-o-filme-inteiro-e-no-final-dá-tudo-certo. OK contei como o filme acaba, mas não me diga que você já não sabia.

Os poucos momentos bons são aqueles em que se privilegiam as músicas cantadas, as famosas chansóns francesas. Com as canções interpretadas pelo próprio Depardieu, é interessante ver como as letras daquelas músicas que antes eram cantadas apenas como forma de entreter os solteirões que freqüentavam os bailes, começam a fazer sentido na vida do cantor e, ao mesmo tempo em que a relação com Marion vive momentos conturbados, a voz de Moreau começa a dar sinais de derrota.

Se o filme é uma enganação, o ator parece ainda ter prestígio em seu país de nascença. Quando eu Estou Amando concorreu ao César Awards – o Oscar francês – em nada mais nada menos do que em sete categorias, incluindo Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Diretor e, logicamente, Melhor Ator.

Apesar da pormenores da obra, é inegável que exista um público – mesmo no Brasil – para um filme desses. Não sei se são os casaizinhos de jovens. Acho que não. Não sei se são os apreciadores de cinema europeu. Acho que não. Também sei que não são os fãs do cinema americano. Acho que não. Não sei se são os fãs de Gerarad Depardieu (se eles ainda existirem). Espero que não. Bom, acho que alguém deve ter gostar. Ou não.

NOTA: 3,0

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