BOLHA DO COTIDIANO
Primeiro filme de Miguel Falabella cultiva exageros estéticos da TV e do Teatro
Por Raphaella Spencer

Uma infeliz dona de casa classe média tem uma irmã gêmea perua rica e um marido que ganhou um carro num consórcio, mas não tira da garagem com medo de ser roubado. Eles têm um filho mauricinho que namora uma alpinista social que é perseguida pelo seu namorado, um garoto de programa de coração bom. A alpinista é amiga de uma jovem suicida que tem problemas com sua mãe e prefere a empregada por quem foi criada. A mãe da suicida por sua vez é uma terapeuta respeitada e atende em seu consultório uma atriz consagrada em crise existencial e também a dona de casa classe média infeliz. Esse enredo que mais parece a trama da próxima novela das sete, é na verdade uma breve e particular descrição do filme Polaróides Urbanas.

A estréia na direção de Miguel Falabella traz para a tela uma narrativa que cria uma rede de relações entre seus inúmeros tipos, comuns a qualquer grande cidade. O roteiro também escrito por ele foi inspirado por um de seus maiores sucessos de público no teatro, a peça Como Encher um Biquíni Selvagem que estreou em 1992 com Cláudia Jimenez, e permaneceu cinco anos em cartaz, atraindo mais de um milhão de espectadores. No monólogo a atriz interpretava a maioria dos personagens aproveitados para o roteiro do filme.

No elenco estão Arlete Salles, Natalia do Vale e Neusa Borges, só para citar alguns dos mais de vinte nomes que compõem essa polaróide. A própria Cláudia Jimenez era a opção do diretor para interpretar a dona de casa infeliz, protagonista do filme e sua irmã gêmea, mas há 20 dias do começo das gravações o papel foi entregue a Marília Pêra (a atriz pode ser vista também em Jogo de Cena, mais recente estréia de Eduardo Coutinho, misto de documentário e ficção). No filme a atriz empresta seu talento as suas personagens, mas sua interpretação ganha ares caricatas, talvez por uma direção de atores e um texto teatrais demais para a tela de cinema. O formato que por si só amplia gestos, no filme também torna cansativos alguns diálogos que parecem falas elaboradas demais para serem simples diálogos do cotidiano.


Falabella tentou se aproximar de Pedro Almodóvar, mas sua narrativa cheia de cacoetes cênicos não permitiu

Vale a pena prestar atenção em algumas opções cenográficas do filme, com cores muito vivas e um ponto positivo da estréia. Com momentos simples e memoráveis como a caminhada da jovem suícida no meio dos pedalinho em forma de cisnêi da lagoa Rodrigo de Freitas ou a forma como Marília Pêra com seu vestido amarelo se destaca nas cenas da platéia de teatro. Uma das referências de Miguel Falabella foi o diretor espanhol Pedro Almodóvar (Fale com Ela, Volver) mas além de algumas semelhanças estéticas, o estreante não atinge aspectos reconhecidos do diretor espanhol como a composição de inusitados personagens que apesar de impensados convencem por suas interpretações. No caso de Polaróides Urbanas, fica exatamente a sensação oposta. Apesar de simples, as atuações são “over” demais para convencer como retratos do cotidiano.

POLARÓIDES URBANAS
Miguel Falabella
[Idem, BRA, 2008]

NOTA: 6,5

Sem mais artigos