PARTO, TRAUMA
Filme da diretora Emily Atef, mostra o lado excruciante da maternidade
Por Eduardo Carli de Moraes

PARTO, TRAUMA
O ESTRANHO EM MIM
Emily Atef
[Das Fremde In Mir, ALE, 2008]

A ilusão que temos, depois de tantos comerciais de fraldas, de leite Ninho ou de margarina, é que uma mãe sempre entra em estado de êxtase com o nascimento de seu primogênito. Diz a ideologia oficial que todas as mães, invariável e universalmente, sentem por seus bebês nada além de amor incondicional; a eles se dedicam com devoção integral; derramam sobre eles avalanches de carinhos e mimos hiperbólicos…

Sim: já vimos essa cena mil vezes em contos-de-fada, novelas globais ou comédias bobânticas americanas – o quarto do bebê arrumado com todo esmero, decorado com papel de parede fofo, contendo um berço imperial e brinquedos mil, tudo para receber de modo hospitaleiro o novo príncipe. Quando ele vem, explodem no céu os fogos de artifício, abrem-se sorrisos de orelha à orelha, e não há como conter a explosão das alegrias e das excitações no coração da mãe, levada ao paroxismo da felicidade… É, dizem-nos eles, o momento de maior glória dessa instituição social que nos dizem existir, apesar da maioria de nós nunca tê-la conhecido: a Família Feliz.

“Nós todos crescemos com esta noção de que uma mãe irá amar o recém-nascido instintivamente e incondicionalmente. Há algo quase sagrado nesta imagem idealizada da mãe”, comenta Emily Atef, cineasta alemã que dirige O Estranho em Mim. É esta visão distorcida e marqueteira do que significa ter um filho que seu filme chega para pôr em xeque e problematizar. Com uma coragem e realismo ímpares, remetendo ao cinema dos irmãos Dardenne ou de Mike Leigh, Atef comete um brilhante retrato psicológico de uma mulher passando por uma severa crise após dar à luz a seu primeiro filho.

Presente no Brasil para a 32ª Mostra de Cinema de São Paulo, a jovem diretora, antes da sessão, comentou que em quase todos os países em que esteve seu filme foi tratado como se metesse a ferida num assunto tabu: a depressão pós-natal. A protagonista Rebecca, interpretada brilhantemente por Susanne Wolff, é o extremo oposto da mamãe feliz-da-vida com a chegada de seu filhote.

As dores do parto são excruciantes. A criança, quando vem ao mundo, chega suja, banhada em sangue e líquido amniótico, berrando como se estivesse sob tortura, e feia, horrorosa, como uma pequena múmia. Certas cenas do filme de Emily Atef parecem ilustrações do que disse Lydia Lunch em um conto sombrio: “we’re injected into this world like dirty little mummies”. Para completar o trauma da experiência, outros fatos desagradáveis ferem a mãe: nos primeiros meses de vida, o bebê recusa-se a beber o leite do seio, fazendo Rebecca se sentir rejeitada e mau-amada. A criança chora incontrolavelmente por razões obscuras, sem que se conceba meio de fazê-lo se calar. Inexperiente e desengonçada, essa marinheira-de-primeira viagem no mar revolto da maternidade sofre para se entender com a pequena criatura que trouxe ao mundo. Dominada por um surto asfixiante de angústia e estranhamento frente à criança que saiu de seu útero, Rebecca acabava vivendo uma crise matrimonial e existencial que O Estranho Em Mim retrata com vigor, pungência e melancolia.

Não se trata somente de uma obra retratando uma rara patologia psíquica, ou um mero relato de uma mulher passando por alguma disfunção hormonal passageira. Trata-se de um problema social mais vasto, recoberto pelo silêncio do tabu. “Somente na Alemanha, 80 mil casos de depressão pós-parto são reportados todos os anos”, comenta a diretora. “Ainda assim, sabemos pouquíssimo sobre essa condição, da qual raramente se fala.”

Apesar de depressivo e perturbador na maior parte do tempo, como deve ser uma obra que procura narrar uma psique em estado de escombros, o filme vai lentamente desvelando um lado mais meigo e aliviante. Enquanto esta mãe, com muita dificuldade, vai buscando superar sua vertigem com a ajuda de psicólogos e outros profissionais, desenha-se no cenário uma possibilidade de redenção. Lentamente, ela vai aprendendo a gostar do filho que antes odiou – e odiou intensamente, ao ponto de tentar sacrificá-lo, feito uma Medéia pós-moderna. Já seu casamento, quase estraçalhado pela crise pós-parto, também renasce das cinzas, aparentemente mais repleto de compreensão e intimidade do que jamais fora.

Numa das cenas mais doces e tocantes dos últimos anos, o filme termina arrancando lágrimas até dos mais insensíveis como uma irresistível “volta por cima”. Mais do que o retrato de uma mãe passando pela complexa aventura de se tornar mãe, O Estranho Em Mim é um tocante relato de como um coração congelado descobre o caminho de volta para casa e reaprende a amar.

NOTA: 9,0

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