Günter Grass (Foto: Divulgação)


MEA-CULPA E REPARAÇÃO

Em novo romance, Gunter Grass toca na ferida do orgulho alemão ao assumir suas relações com o nazismo
Por Rafael Dias

O octagenário Günter Grass não cansa de surpreender. Até a seu contragosto, sem uma intenção deliberada (pelo menos aberta), causou um efeito dominó nos brios dos seus algozes e críticos contumazes. Quase cinco décadas após lançar seu clássico O Tambor, o prêmio Nobel de Literatura retorna em grande estilo às prateleiras, ouriçando a todos com revelações lacradas a sete-chaves por décadas. Em Nas Peles da Cebola, Grass revira seu próprio passado, desnuda sua vida em tom confessional e escancara, sem hipocrisia ou medo de represálias, um segredo crucial: de que serviu à tropa e ao ideal nazista como soldado no front, durante a 2º Guerra Mundial. À parte do escândalo que essas revelações repercutiram em sua terra natal, o livro é um relato belo e de rara franqueza na literatura.

A polêmica em torno de Nas Peles da Cebola tomou proporções que nem o próprio autor cogitava, embora soubesse que corresse o risco de tocar na ferida do orgulho alemão, um tabu e assunto proibido até hoje no país. Dizer que Günter Grass foi ridicularizado pelos críticos por causa disso é pouco. Malhado em praça pública como um judas, o escritor foi alvejado por vitupérios de “autoritário” e “mentiroso” de forma maciça pela imprensa alemã, dentre eles o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), que fez as acusações mais irascíveis, assim que o livro de memórias chegou às livrarias. “Quiseram me calar, me deixar mudo”, repetia Grass, em entrevistas concedidas naquela época, agosto de 2006.

Sete meses depois, o escritor daria uma resposta de uma elegância fina e rara sutileza de um ofendido legítimo a seus detratores. Ano passado, publicou o livro de poesia e ilustrações Dummer August (Tolo Agosto), numa referência ao mês sombrio do lançamento e também a um personagem mentecapto da commedia dell’arte. Nos poemas, Grass defende seu ponto de vista, fala em “retorno à Inquisição” e mostra sua consternação perante o julgamento moral sumário a que foi submetido. Dummer August só foi lançado em edição no exterior, mas as litografias e os poemas manuscritos no original, em alemão, podem ser acessados pela internet. São essas imagens que ilustram este texto. Para ver, clique aqui.

Am Pranger (’Dummer August’ No. 2)Mas a poeira cinzenta que caiu sobre Nas Peles da Cebola é só uma nódoa pequena diante da riqueza literária desse romance autobiográfico. Compreendida entre o fim de sua infância, que coincide com a eclosão da Grande Guerra, em 1939, e o lançamento de seu primeiro romance O Tambor, de 1959, a narrativa contém traços íntimos e teor de humanismo sincero. Grass abre seu baú de memórias contando a sua vida de classe média pobre, filho de comerciantes, passada em Danzig (hoje Gdansk), na costa do mar Báltico. Atribui à mãe a descoberta da paixão pela arte, o seu maravilhamento ao ver pinturas de Caravaggio e Boticelli reproduzidas em maços de cigarro. Não registra só os momentos alegres, mas também expõe sua “vergonha” vendo colegas e parentes “partirem”. A metáfora da cebola é perfeita, nesse processo de auto-avaliação: uma a uma, ele despela sua consciência doce e amarga, até chegar ao centro.

A maior das revelações, é claro, vem à tona quando declara, em certo trecho, ter pertencido à tropa de choque da Waffen-SS, a polícia nazista sanguinária e facínora. Até então, Grass só admitia ter servido ao exército em uma missão anti-aérea. Mas agora dá o braço a torcer: “Não escapei à sedução hitlerista”. Não significa que se qualifica como réu confesso. Nem tampouco se julga um autoritário, seguidor de regimes totalitários, ele próprio que é tido como um exemplo de social-democracia na Europa. Imbuído do sentimento de mea-culpa, o escritor alemão afirma, porém, que foi submisso e se deixou levar pelas promessas da propaganda de Hitler, não só ele como toda a massa do proletariado alemão daquele período sombrio de crise financeira. “Ouvia os fatos e engolia as palavras. Por quê?”, questiona-se hoje, mais velho.

Vergleichsweise (’Dummer August’ No. 20)

No Front com o papa

O livro traz ainda insinuações bombásticas. Em uma das passagens, Grass conta como conheceu Joseph Ratzinger, o atual papa, em uma zona branca no intervalo da guerra. O encontro teria se dado no campo ao ar livre de Bad Aibling, na Alta Baviera. Günter, escreve, deu cominho trocados por três cigarros da marca Camel a Joseph, que o convidou a jogar dados e fazer especulações sobre o futuro deles e da humanidade. “Aí está ele, seu nome é Joseph, fala comigo em voz impertubavelmente baixa, sim, até mesmo suave”, detalha, com rigor descritivo. E revela que Joseph já gostava de falar em dogmas e tinha afeição por Santo Agostinho. Este relato é só um dos vários preciosos contidos no livro.

Apesar de ter lutado nos bunkers, Grass diz que nunca dera sequer um tiro e que por pouco não morreu, sobrevivendo a três atentados. Garante que se sentia desconfortável dentro da roupa camuflada de soldado. “Ainda assim não engatilhei a metralhadora de fabricação italiana, (…) por isso a afirmação corrente de que, durante a semana em que a guerra tomou conta de mim ininterruptamente, eu jamais tenha procurado um alvo com a alça da mira, jamais apertado o gatilho, jamais tenha dado um único tiro…”.

2429356gg.jpgÉ difícil dizer o que há de verdade confessional e o que é ficção nisso tudo. Até o próprio Günter especula que talvez haja imprecisões, já que a mente gosta de nos prega peças, “de invocar lacunas”. Mas isso, a bem dizer, não importa. O que realmente conta é a coragem e a sinceridade de Grass em trazer um tema tão delicado à superfície, e pôr a cara à tapa, ao passo que os estandartes das ditaduras do Século 20 remoem seus medos e se escondem sob carapuças. Nesse aspecto, o ato de Günter se assemelha à garota Briony Tallis, de Reparação, excelente livro de Ian McEwan, o mesmo que originou o filme indicado ao Oscar: fazer da literatura seu ato de reparação maior. É um dos escapes mais pungentes, mas um dos mais belos e dignos.

NAS PELES DA CEBOLA
Günter Grass (trad. Marcelo Backes)
[Record, 419 págs, R$ 60]

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