Quando o Paulo Floro, editor da O Grito, me convidou para fazer parte do time de colunistas da revista, eu havia, numa enorme coincidência, escrito no meu twitter “preciso escrever mais” apenas cinco minutos antes do convite surgir, do nada.

Já tenho algumas experiências no formato coluna, e uma coisa é fato: são natimortas. Surgem, podem até durar um período com uma freqüência razoável, vem os primeiros entraves (desânimo, falta de tempo…), ela vai caindo, desaparecendo e quando o autor se dá conta já se foram alguns meses sem escrever. Está fadada à morte, portanto.

Na maioria das vezes, é apenas um exercício egocêntrico estúpido (o título da mesma ser o nome do autor é um sintoma) que tende ao esquecimento. Mas alguns colocam o tempo ao seu domínio, como aquele que me ensinou a ler, o maior cronista que o Brasil já teve, o simples e inigualável (aqui a hipérbole não é gratuita) Rubem Braga. A estes minha sincera e eterna admiração.

Falar de esquecimento no suporte digital chega a ser irônico, quase uma piada. A internet, principal meio de comunicação – e propagadora de informação – da nossa época, é, também, a mídia mais frágil e soporífera que já surgiu. Motivo pelo qual sofre tanta desconfiança e até desprezo, ao mesmo tempo em que simboliza, sem dúvida, a maior revolução social, cultural, tecnológica (…) da história.

E aqui vale citar William Gibson, inventor do termo “ciberespaço”, autor do livro Neuromancer – de onde Matrix retirou 70% de sua “tese” – que considera a internet como “o grande evento anárquico que vem derrotar a exploração comercial convencional”.

Frase que simboliza minha “carreira”, a trajetória que percorri para estar aqui e em tantos outros lugares e a própria existência da O Grito! ou da Movin’ Up, meu site. Nunca se teve acesso tão fácil e barato a meios capazes de expressar sua própria opinião, reportagens, matérias, críticas, crônicas, textos, contatos… de maneira tão ampla, irrestrita e factível. A web – teia – se faz através de conexões, cadeias, links, redes colaborativas, indicações, formas alternativas de se estar em contato com quem (ou o que) quer que seja, bem como se criar o conteúdo que desejar. E tais características criam algumas anomalias.

Primeiro: quem escreve na web não é respeitado. Ainda que a coisa tenha melhorado muito, existe um nítido pensamento de senso comum que permeia tanto leigos como geeks de que informação da web não é confiável, e “jornalista de internet” não é lá grande coisa. Apesar do boom digital da virada do século, causando migração em massa de jornalistas das redações tradicionais para a net, atraídos por grandes estruturas, salários melhores que a média do mercado e promessas ambiciosas – que durou pouquíssimo tempo e foi-se junto com o famoso estouro da bolha – a web consagrou-se como o local onde “todo mundo é crítico” e “qualquer um escreve”.

Verdade? Verdade! Mesmo os bordões da estupidez comum tem sua parcela de verdade. Recentemente, caí na besteira de adentrar numa dessas discussões patéticas de orkut, onde cada um consegue ser mais infantil que o outro, e os egos (e o recalque, a insegurança e a necessidade de ser adorado e tido como “fodão” pela comunidade que você participa é imensa) sendo atacado por um figurão da “crítica musical”, que escreve em alguns veículos da “grande imprensa”, dizendo que eu “não era jornalista” porque escrevia de graça para o site Whiplash. Segundo a lógica diminuta do acusador, não posso ser considerado jornalista se escrevo de graça para algum lugar (ainda que o mesmo desconheça os detalhes disto, o resto da minha vida, etc). Este é o tipo de pensamento que acomete muitos.

O jornalismo na internet guarda esta particularidade: arrisco dizer que 60% dos jornalistas que escrevem para sites não são remunerados, considerando ainda que grande (graaaaaande) parte do conteúdo da web ainda vem enlatado do jornal ou revista, sendo apenas reproduzido/reformatado, fazendo com que o profissional trabalhe duas vezes e receba o mesmo. Sites de qualidade surgidos diretamente na web e que remunere a toda a equipe que o produz é uma raridade. Sem estar ligado a grandes empresas e grupos, então, dá para contar nos dedos.

Sites colaborativos como boa parte dos culturais que temos por aí, a própria O Grito!, Scream & Yell, Digestivo Cultural, Rock Press, Pílula Pop, Speculum, Rabisco, Contracampo, etc, etc, não remuneram boa parte dos seus colaboradores (para não dizer todos). O que leva estas pessoas a fazerem este trabalho então? A doarem um pouco da sua experiência, dedicar horas e horas do seu tempo a uma produção séria e bem feita? Visibilidade? Ego? Falta de alternativa? Oportunidade de produzir com extrema liberdade? Estar numa equipe bacana, fazer amizades e ir desenvolvendo a própria capacidade através da prática?

Um pouco de tudo e muito mais. Não é de se estranhar que num mundo onde o lucro é a lei-mestra, “escrever de graça” seja encarado como loucura, baderna, desespero, amadorismo. Claro que não ser remunerado não é o ideal. Claro que a oferta de gente capacitada fazendo “free” impede que as coisas mudem. Mas esta é uma parte da nossa prolixa história.

Retomando Gibson…se a internet deveria “derrotar a exploração comercial convencional”, estaria ela criando a “exploração comercial digital”? Sim e não. De minha parte, basta ilustrar que, aos 16 anos estava escrevendo no maior site de rock do país. Aos 17 estava num dos principais sítios de artigos e visão crítica da web brasileira (o Duplipensar.net), dentro de uma equipe nacional composta por mestres, doutores, pensadores e gente incrivelmente inteligente e capacitada, editando artigos que chegavam e ajudando a pensar o conteúdo e as diretrizes do site num todo. E daí em diante. Bem antes de entrar na faculdade já estava construindo meu estilo, minha cabeça, minha vivência…e, depois disto, outras coisas vieram, me possibilitando viver de serviços prestados na internet há três anos, não ganhando uma fábula, mas sem dúvida bem mais que os estágios tradicionais no jornalismo. Estágio, sinônimo de escravidão, onde vemos propostas absolutamente indecentes e irreais. Não raras vezes jornalões “consagrados” pegam estudantes nos famosos “estágios não-remunerados”. Isto é absurdo tamanho, que cabe a uma mudança de lei. Donde vemos que a lógica do trabalhar-de-graça não é exclusividade da internet, manifestando-se com muito mais intensidade no mercado “tradicional” e com requintes de crueldade, diga-se.

O maior fascínio da internet é justamente observar como as coisas de desenvolvem sob licenças, ferramentas, possibilidades e serviços gratuitos. Todas as plataformas de código aberto, as redes sociais colaborativas, criando sistemas como o WordPress, onde a O Grito! e a Movin’ operam, totalmente grátis, com pessoas dando o sangue e gastando horas (dias, semanas, meses) desenvolvendo coisas que serão disponibilizadas sem custo nenhum para quem quiser. É absurdo? Não, é genial. A internet é uma espécie de terceiro setor global, onde todos se ajudam e todos ganham, de uma forma ou de outra.

E você, leitor, pode ter acesso a informações da melhor qualidade sem pagar praticamente nada por isso. Pode ter uma infinidade de fontes, matérias e opiniões sem ter que desembolsar um centavo em jornais e revistas chapa branca, comprometidos até o tutano com tudo que se pode imaginar. Você, leitor, pode ter um jornalismo livre, incisivo, ácido, direto, que não tem compromisso com nada a não ser a qualidade do que produz. E ter acesso a muito lixo também, cabendo a você separar.

A internet é o que é porque a legitimidade tem que ser conquistada, não vem “automática” com uma marca qualquer. É onde profissionais de diversas áreas encontram oportunidades infinitamente mais atrativas para si do que aquelas encontradas no “mercado tradicional”. E, a partir da web, partem para criar suas próprias trajetórias.

Tudo na vida é feito para nosso ego. No melhor sentido possível da afirmação. É pelo ego, e não por outra coisa, que trabalhamos, tentamos ter um corpo bacana, um conhecimento cultural razoável, reconhecimento, enfim, ser “bem-sucedido” (seja lá o que isso for) em todas as áreas da nossa vida. O ego não no sentido restritivo de egoísmo míope e dominador, mas como combustível que nos impulsiona a buscar aquilo que queremos. O ego como elemento fundamental daquilo que nos constitui. Negar que não é o ego que nos motiva, muitas vezes, não passa de um outro artifício para chamar atenção. E ego não é arrogância. Orgulho não é sinônimo de presunção.

O ser humano está tentando, a todo tempo, se afirmar. Provar para si, pros amigos, pra sociedade, etc, etc, que ele “é bom”. É esta coisa adolescente, esta praga maniqueísta que nos empurram – “vitória” ou “fracasso” – que pauta a vida de tanta gente. Quanto mais inseguros, mais necessidade temos de atacar aquilo que nos incomoda. Quanto mais fracos, mais nos apressamos em tentar rebaixar aqueles – ou o que – não conseguimos lidar, não suportamos. Toda a vida é pautada num jogo de afirmação. Não deve existir animal mais patético do que nós.

Não sei sobre o que esta coluna será: não tem tema definido. De esportes à filosofia, de crônica à crítica musical, do mundo pop ao acadêmico. Mas é bom compartilhar esta egotrip. Pra fechar, alguns aforismos recentes de autoria própria:

“Maquiavel estava certo quando dizia que – as aparências são aquilo que, de fato, nós realmente somos – tolo quem discorda. E tolo quem crê em verdades absolutas”.

“O mundo é tão massificado que cada pessoa sente, age, se comporta e pensa de maneira diferente”.

“Não existem rebanhos. O “homem de massa” é apenas um fetiche que a crítica ainda não conseguiu se livrar”.

“Desconfie das receitas prontas, das reflexões fechadas e de pessoas com ideologias: basta sentir o cheiro desagradável que exalam”.

“Quem adora se passar por extremo tendem a ser os mais carentes e solitários que existem. Falam muito e vivem pouco. Sabem demais. Sua maior alegria é achar quem lhes dê atenção”.

“Não tente ser radical. Aprenda a pensar primeiro”.

Conselhos grátis, receitas secretas, asneiras elaboradas, minutos de sabedoria e estupidez, piadas infames, caras à tapa e um pouco de pimenta, nas próximas edições. Cuidem-se. Vejo vocês por aí.

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[+] Maurício Angelo é jornalista, crítico, escritor e articulista. Já trabalhou, entre outros, no Whiplash, Duplipensar e BDMG Cultural. Atualmente mantém o site Movin’ Up e o podcast Crimidéia.

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