Maurício Angelo, Belo Horizonte, 13.02.09, 19:17.

Ando com pouca paciência com futilidades. E há que se ressaltar que nossa vida é composta de 90% delas. Não apenas com o que é fútil, mas efêmero, característica básica da modernidade. E de nós mesmos, em suma.

O “escândalo” provocado pela “nudez” de Morrissey, em menor grau, e pela maconha de Phelps, em maior, só me fez lembrar o quão estúpida, limitada, retrógrada e imbecil nossa sociedade é. Basta dizer que se o fato de um artista aparecer numa capa disco com um tapa sexo de vinil é motivo para colocar sua carreira em xeque e não sei quantos absurdos mais, há muita gente com mentalidade incrivelmente diminuta por aí. Só posso deduzir que desconhecem profundamente a história da arte, para ir longe, ou são idiotamente conservadores, pra ficar perto.

Phelps, simplesmente o maior atleta olímpico da era moderna, não tem que se desculpar ou ser punido por fumar maconha. Pensar que ele foi suspenso por três meses do seu esporte é um absurdo tão grande que beira o incompreensível. Os mais apressados podem querer dizer que o rapaz é uma figura pública, um ídolo, símbolo de saúde e espelho para milhares de crianças, jovens, bla bla bla. Esse tipo de comentário padrão quase higienista.  Que ele tem compromisso com patrocinadores que o pagam, etc, etc. Verdade? Sim. Mas daí a proibi-lo de praticar a sua profissão, aquilo que é o centro da vida dele, é demais. Não estamos falando de doping. Até onde se sabe, ninguém fuma marijuana para ganhar vantagem em esportes competitivos. O cara estava apenas curtindo a vida que é dele – e só dele, portanto.

A invasão da vida privada – já disse aqui e repito – pelas tradições, convenções, leis, governos, empregadores, mídia, etc, é um das maiores desgraças que existem. Desde que não trapaceie nas piscinas, Phelps pode fazer o que bem quiser fora dela. Claro que com os limites que todos nós temos que seguir. E consumir maconha não é crime, até onde sei. Aliás, esta semana surgiu uma comissão de políticos, intelectuais, cientistas (…) latino-americanos defendendo a descriminalização da maconha, em primeira instância, e das drogas em geral, no futuro. Por constatarem que o enfrentamento policial e a repressão não tem funcionado em atenuar os efeitos do problema, que é vasto e inegável. Demoraram.

A comissão, pasmem para os mais conservadores, é encabeçada pelo nosso querido FHC. Apenas lidando com as drogas como questão de saúde pública, descriminalizando a sua venda e consumo, criando mecanismos diversos da força para lidar com o problema é que algo tem chance de melhorar. Não precisa ser nenhum gênio para perceber isso. Os últimos 50 anos de combate às drogas pelas “vias tradicionais” estão aí para provar que resultado deram.

Voltemos ao efêmero. É um erro achar “que o que realmente importa” são as grandes coisas da vida. A vida não é grande, pra começar. O mais importante pra você pode ser um café ao fim de tarde, ter tempo para ver um filme, a sua cerveja, seu canto, tudo de mesquinho e egoísta que atenda as suas necessidades mais primais, instintivas. Porque o ego é o centro de tudo. O que não quer dizer que não devemos reconhecer a importância óbvia do convívio social, da colaboração, interação, troca. Pois o homem só é homem se em alguma espécie de sociedade. Uma coisa, em momento algum, exclui a outra.

Um bom termômetro de satisfação – lembrando que é extremamente saudável estar sempre insatisfeito – é perceber quantas coisas você faz por dia que não gostaria de estar fazendo. Muitas vezes, realizamos ou nos envolvemos em tarefas desagradáveis, para criar a oportunidade de fazer o que realmente queremos.

Mas quantos de nós “sabem o que realmente querem”? O paradoxo, a dúvida, a confusão e o efêmero é tão constituinte do ser humano como o desejo que o impulsiona para a maioria das coisas que o atrai.

A única certeza absoluta é que não podemos ter certeza de nada. Somos tão frágeis, influenciáveis e pequenos, que qualquer pretensão de algo é no mínimo cômica. Por fim, para ir do Uruguai à França, cito primeiro o vizinho, que diz que a utopia serve pra isso, para caminhar. E o maldito termina: “como foi a imaginação que criou o mundo, ela governa-o”.

C’est fini.
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[+] Maurício Angelo é jornalista e escritor. Atualmente edita os sites Movin’ Up e Crimidéia.

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