este ano ganhei um moleskine de presente de aniversário. imediatamente armou-se um drama de perfeccionismo utópico: faltou-me coragem para usar a elegantérrima caderneta – van gogh e picasso usavam moleskines para desenhar. hemingway fazia anotações nele.

admiti complexo de inferioridade diante de sua glória. nada do que eu escrever em suas estonteantes páginas vazias estarão à altura de seu legendário glamour.

não foi a primeira vez que não me senti à altura de um caderno, mas foi certamente a mais grave. há anos comprei um caderno indiano com uma capa cintilante da deusa barra-pesada durga e páginas de papel mesclado com fios dourados. uau, paralisei. não escrevia nada ali. então me esforcei e passei a anotar a teoria da música clássica indiana aprendida em minhas lições de sitar – escalas, ragas, talas. mas não consegui ir muito adiante. arranquei as páginas usadas, livrando o caderno de minhas intervenções idiossincráticas. hoje, folhas vazias, ele simplesmente enfeita o móvel da sala.

mas não um moleskine.

apesar de ser um ultraclássico pretinho básico, ele demanda conteúdo. seu histórico sugere surpresa e genialidade. por um lado, o amigo que me presenteou só poderia estar me homenageando; por outro, houve toda aquela inquietação espiritual para fazer uso acertado dele.

i´m no genius. admitir facilita um bocado as coisas. provavelmente o meu melhor está no meu blog, numa ou outra coluna do grito, nas colagens que curto fazer e certamente em minhas amizades.

uma semana depois do cumpleaños comecei a escrever nele. ao invés das frases prontas que minha cabecinha produz ao fechar um raciocínio aleatório, registrei raciocínios emocionais produzidos por minha cabecinha randômica. como:

não estacione

é melhor um terreno baldio ou um estacionamento? talvez o terreno baldio. é bom passar em frente a um pedaço ocioso de urbano. o terreno baldio vira estacionamento quando da rápida necessidade de dinheiro aliada a uma profunda crise de talento ou propósitos. aluga-se espaço para automóveis barulhentos e poluentes e entupidores do espaço público sem praticamente nenhum investimento. é só capinar e botar alguém cobrando na saída.

no futuro, os detalhes pueris do presente serão as pedras preciosas da última encarnação.

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[+] Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narghee-La e idealizadora do Coccarelli.art, coletivo de artistas, blogueiros e escritores. Escreve nesta coluna sobre estética, design e moda.

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