Quase nunca curti números. Os dois únicos sopros matemáticos que me perfuma(ra)m são “Nummern”, do Kraftwerk, e minhas aulas sobre números irreais no segundo grau.

Creio que alguém que sempre se deu tão mal em matemática só se daria bem se os números fossem, assim, inexistentes. Que é o caso dos números irreais e imaginários. Minha história é uma evidência inegável: fui fantasticamente reprovada no segundo ano em matemática. Para não repetir, cursava o terceiro ano de manhã e fazia dependência à tarde. Com muito esforço passei na dependência. Enquanto isso, no terceiro ano, eu só tirava notão na matemática e passei direto – resultado de meu doce romance com os números imaginários.

Mesmo assim, no vestibular tentei resolver as quatro primeiras questões e marquei letra c em todas as restantes. aquela falta de confiança primária.

Há os que alegam que problemas com matemática se devem a um sistema de ensino que simplesmente não consegue causar o interesse de personalidades menos numéricas. Que as escolas se limitam a empurrar matéria com o único objetivo de preparar para o vestibular e se esquecem de individualizar o ensino aos que têm dificuldades, e que isto traumatizaria potenciais futuros cientistas, que acabariam escolhendo belas artes ou comunicação por causa de uma péssima abordagem didática (realmente há péssimos jornalistas por aí e artistas ainda piores.)

Então eu nunca vou saber a raiz (quadrada?) do meu problema, mas posso afirmar que com certeza teve a ver com meu óbvio desfalque de parafusos existenciais na adolescência.

Semana passada começou minha cadeira de matemática financeira do MBA. Note que atenderei à formatura do curso no fim deste setembro, o que nos leva a concluir que estou empurrando essa matéria com a barriga já há muito tempo. Tenho uma HP 12-c na bolsa e um estojo cheio de más lembranças sobre as quatro operações. Então desejem-me sorte. não rezem porque eu sou atéia e a matemática prova que deus não existe. Se ele existisse de acordo com os meus padrões (hehe), o idioma da natureza seria a poesia e não a física, a química ou a trigonometria.

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[+] Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narghee-La e idealizadora do Coccarelli.art, coletivo de artistas, blogueiros e escritores. Escreve nesta coluna sobre estética, design e moda.

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