Longa faz parte da boa safra de filmes pernambucanos e faz crítica aos contrastes que vive o Recife hoje

Por Paulo Floro

Dois adolescentes são abandonados na beira de uma estrada. Vemos tudo de longe. Depois, acompanhamos o momento de consternação dos jovens, seguido de um crescente desespero. Será que os pais voltarão com o carro para buscá-los e tirá-los desse castigo? É nesse tom de thriller psicológico que começa o longa Eles Voltam, de Marcelo Lordello, exibido na noite de sexta (16), no Janela Internacional de Cinema do Recife.

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O longa tem como maior destaque a atriz Maria Luiza Tavares, de apenas 12 anos, que consegue prender a atenção com suas poucas falas e olhares que revelam medos e expectativas com as situações inusitadas que presencia. No Litoral Sul de Pernambuco, ela vai ter contato com uma realidade bem distante da sua, como passar noites em assentamentos Sem-Terra e vivenciar o lado dos trabalhadores dos casarões luxuosos de veraneio. Como ela, diversos atores foram trabalhados especialmente para o filme, em uma preparação de elenco muito bem feita.

O diretor Marcelo Lordello entre os dois atores adolescentes do longa (Divulgação)

Não é a primeira vez que o cinema brasileiro trabalha com não-atores, mas a escolha de Lordello foi acertada, pois Eles Voltam pede por essa veracidade, como se estivéssemos presenciando um reality show, sobretudo em relação à protagonista. Além de tocar em temas como a diferenças sociais gritantes, o longa também acerta ao mostrar o amadurecimento da menina Chris em relação à sexualidade e outros temas típicos da idade.

Coincidência ou não, é um filme com um olhar feminino muito acurado. Desde o início do longa, Chris conecta-se a coadjuvantes mulheres, que de alguma forma, ajudam em sua trajetória. Com uma narrativa pontuada por uma montagem precisa de Eduardo Serrano, o filme peca apenas pelo desencadeamento final, quando é revelado o que aconteceu com os pais dos dois jovens. Há uma quebra na narrativa muito brusca, e ficamos aguardando uma nova reviravolta tão instigante quanto o início, que nunca vem.

Há também momentos que são verbalizados, mas que já estavam claros ao espectador, desde o início. É o caso da conversa que Chris tem com seu avó durante um café da manhã, envolvendo reforma agrária. Um longa de poucas palavras, enquadramentos criativos e narrativa poética transforma-se em outra coisa já perto do fim. Fora isso, Eles Voltam é um dos melhores longas da atual safra do cinema pernambucano a retratar a alienação e a falta de ligação afetiva – com a cidade, com as pessoas – que vive a classe média recifense hoje.

ELES VOLTAM
Marcelo Lordello
[BRA, Trincheira Filmes, 2012]

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