Longa pernambucano aborda mudanças sociais ao mesmo tempo que foca uma complicada história de amor

Por Paulo Floro

Em mais uma sessão concorrida de abertura, o festival Janela Internacional de Cinema do Recife começou as atividades deste ano no cinema São Luiz, nesta sexta (9). O filme que abriu a edição foi Boa Sorte Meu Amor, de Daniel Aragão, diretor integrante da safra prolífica e bastante elogiada que o audiovisual pernambucano vive este ano.

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Filmado em preto e branco, o filme conta a história de amor entre Dirceu (Vinicius Zinn) e Maria (Christina Ubach). Ele é parte de uma classe média sem muitas referências com a cidade, filho de um ex-senhor de terras no Interior. Ela é uma estudante de música que sonha em viver da profissão, apesar das instabilidades que a labuta oferece. Os dois acabam tendo os caminhos cruzados e se apaixonam. A partir daí, Aragão inicia um romance que foge o tempo todo do convencional. E, ao mesmo tempo em que explora o psicológico dos personagens, desenvolve uma narrativa que explora temas atuais do Recife, como o urbanismo e perda de memória afetiva, e as desigualdades sociais.

Dirceu e Maria são duas partes de um mesmo universo, já que ambos tem raízes sertanejas. E cada um, a sua maneira, parece querer extipar tudo o que o passado representa. O problema é que nenhum dos dois consegue criar uma conexão com a metrópole que os coloque em sintonia.

Ela, estudante de música que sonha em ser uma pianista famosa, vive frustrações de trabalhar fazendo bicos em festas e panfletagem no sinal. Ele, sem nenhum zelo pela cidade que vive, trabalha em uma construtora, demolindo prédios e mudando a paisagem urbana para construir mais prédios. Esse embate é a força motriz que torna o casal interessante na tela. O longa vai e vem no tempo e usa alguns artifícios de estilo que pode incomodar quem esperava uma história de amor convencional.

A música também é parte bastante importante do filme, e serve como um motor que acelera em alguns momentos, dando dinamismo ao enredo, e em outras leva a um estado de torpor ao telespectador. Em algumas partes, exageradas, como na parte em que o protagonista vive um momento faroeste no Interior, a música está lá, como parte da graça. O longa ainda revelou Christiana Ubach, atriz carioca que passou um mês no Recife para aprender o sotaque local e que está ótima em um dos papéis principais. A escolha por falas mais limpas, sem o velho toque naturalista que estamos acostumados no cinema pernambucano combinou com o roteiro de texto consiso, puxando para algo mais clássico.

Aragão, autor estreante em longa-metragem (foi assistente de direção em Cinema, Aspirinas e Urubus), tenta carregar significado a cada frame, e isso talvez cause algum desconforto. No entanto, serve para provocar reações no espectador a todo momento. Até a escolha do preto e branco encontra sentido quando imaginamos que Boa Sorte, Meu Amor, com sua cara de antigo e obtuso é um dos longas que melhor falam do atual momento de indefinição pelo qual passa a cidade.

BOA SORTE, MEU AMOR
Daniel Aragão
[BRA, Orquestra Cinema Estúdios, 2012]

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