O CIBERPUNK CONTRA-ATACA O IMPÉRIO
Intelectual contra-elitista, Dery aponta com sarcasmo a existência de um mundo – não menos assustador – além da tela do computador

Por Davi Lira
Colaboração para O Grito!, em Olinda

Para abrir o quarto e último dia de palestras da 6ª edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), em plena manhã do feriado nacional da Proclamação da República, um autor desconhecido dos brasileiros, alinhado com temas e predileções pouco ortodoxas. “Permitam-me expor para vocês uma lista dos meu assuntos preferidos: anão perverso, estigmas, bilhetes suicidas, subtextos psicossexuais, ligações além da tumba, nostalgia e fetiches lunáticos”, afirma já no final de sua apresentação, o crítico cultural americano Mark Dery.

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Mesmo com a empolgação de sua vinda à Olinda para “juntamente com Camille Paglia, apreciar uma boa cachaça enquanto curte o frenesi do networking com intelectuais sul americanos”, a apresentação do jornalista nova-iorquino na Praça do Carmo foi marcada por muitas informações academicamente apresentadas, com raras preocupações de contextualização para parte da plateia pouco familiarizada, o que não animou muito os parcos participantes presentes no espaço. “De antemão eu agradeço a paciente atenção de todos e me desculpo por toda essa verborragia que exponho para vocês”, diz com toda a simplicidade do mundo, um dos maiores intelectuais da cibercultura.

Com lançamento de uma coletânea de ensaios em português, durante a Feira do Livro de Pernambuco: “Não devo pensar em coisas ruins – Ensaios sobre o Império Americano, Cultura Digital, Homens Grávidos e pornografia Pós-humana, pela editora Sulina (reconhecido selo de títulos da cibercultura), Dery levou para a palestra uma discussão extremamente atual sobre “coisas muito próximas de todos nós que estão por trás do mundo que conhecemos”.

Aberrações marginais, subculturas undergrounds, mídia, arte, moda e cultura de massas rodearam todo o seu discurso, que margeia a estaparfúdia comemoração vil das transformações da Era Digital e se foca na análise detida da herança libertária da Contracultura, da intolerância simbólica e da fragilidade cada vez mais nítida dos direitos civis. “Precisamos jogar um olhar crítico no que vemos, no mundo ao nosso redor, sempre com a lente do ideológico. O ativismo intelectual pode ser uma força de mudança”.

Ele lança também uma nítida crítica à indústria da informação dos Estados Unidos. “Por um medo servil de afastar a publicidade, o mercado de ideias se desfalece de espírito editorial. A mídia continua a dizer para as pessoas o que elas já sabem”. Algo que jamais Mark Dery há de se bitolar. “Eu nunca tive escrúpulo de me submeter sorrindo a essa camisa de força intelectual que constrange grande parte do mercado editorial americano: dizer não apenas à audiência o que já sabem, mas em uma linguagem que já dominam”.

Meu trabalho não é político, no sentido de manifesto, nem de fazer barricada, a minha prática é contra a perda das liberdades cívicas durante o reinado de Bush Jr

Apropriando-se um pouco do conceito de Aldeia Global do filósofo e estudioso das comunicações canadense, Marshall McLuhan, Mark se mostra preocupado por essa midiatização do mundo. “Vivemos demais um mundo simbólico, com uma manipulação articulada por desejos de viver dentro de bolhas. O que vemos é um envolvimento informacional cada vez maior, mas também um distanciamento único, muitos falam sobre o fim da empatia”. De acordo do Dery, as pessoas, ao passo que estão cada vez mais cientes dos terremotos e catátrofes que ocorrem em qualquer local do planeta, estão também cada vez menos compassivas.

Não faltaram também críticas ácidas à indústria do entretenimento. “Los Angeles é a cidade mais ridícula do mundo. Ninguém pensa que L.A. é normal e funciona, se é bem desenhada ou funcional, o que faz sentido L.A. ser L.A. é o fato de terem colocada lá no meio do deserto. As pessoas apenas se divertem lá, é mais diversão no Novo Mundo, é o contrato social explícito, é a confrotação do próprio vazio, do oceano e de intermináveis estacionamentos”.

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Não é a toa que o principal motivo da vinda do teórico seja o de propagar “maus pensamentos” para melhor conturbar esse panorama. “Eu quero que vocês pensem além do impensável, digam coisas além do indizível, pensem mais no profano, no carnavalesco, nos lutadores de lutas livres mexicanos que usam máscaras fetichistas, em viagens ao tempo, em taxidermia, em Deleuze, e em papais noéis satânicos”. Isso para que a desfiladeiro do abismo possa ser visto à olhos nús. “Quero mostrar a vertigem de se olhar por esse abismo cultural, quero dar um empurrãozinho carinhoso em vocês que estão, aqui, em cima da borda”, disse Dery, fiel colaborador de publicações como Wired, New York Times e Rolling Stone.

Política
Com a ajuda do articulista carioca desse painel, Fábio Fernandes, Dery trouxe esse plano, subjetivamente emblemático para situções mais terrenas, tão lúcidas quanto suas “predileções maldosas”. “Meu trabalho não é político, no sentido de manifesto, nem de fazer barricada, a minha prática é contra a perda das liberdades cívicas durante o reinado de Bush Jr”, fala Mark se referindo às leis patrióticas instauradas pelo antigo governo americano, por prisões extrajudiciais ainda vigentes no governo Obama e pela defesa velada da prática da tortura dentro dos órgãos americanos e entidades de Defesa.

“Estou revoltado pela política externa apocalíptica dos Estados Unidos, pela sua natureza brutal e sórdida”, disse. Sintetizando o teor do seus escritos e estudos, o intelectual se centrou em questões da classe média americana mais precisamente, mas que pode muito bem ser ampliada para um contexto brasileiro, inclusive. “Eu escrevo contra isso: contra a guerra das classes dominantes sobre a classe média que está se esvaindo, pela redução de impostos, contra a retirada de recursos da educação pública e pelo inchaço do sistema prisional”.

Esse autêntico combatente dos fundamentalismos também luta contra a guerra da Nova Era. “Esteticamente luto pela revolução da mente pela investigação do inconsciente, pensar o impensável, esse é um dos caminhos”. Para ele, seguindo a linha semiótica de Humberto Eco, a poltrona da frente da televisão é o novo teatro da guerra, é nessa guerra travada na era da mídia que surge um novo contexto da narrativa do embate, que já possui uma vasta lagoa subterrânea em contraposição.

“O digital já pressupõe o manipulável, não faltam exemplos de paródias de textos culturais da indústria de massa, sobre o filme O Segredo de Brokeback Mountain; com Marry Poppins uns jovens chegaram a fazer um trailer de um filme de terror que nunca existiu, na fiel tradição hitchkoquiana, são verdadeiros estudos de manipulação”. Segundo ele, esses exemplos de textos desconstruídos e fragmentados, especialmente no youtube são tipos de fenômenos sem precedentes, são formas afetivas de se articular com o texto midiático. “Antes os críticos tinham o monopólio cultural, entre o manifesto latente e o implícito do sonho; agora, são os críticos populares que tem revelado esse subtexto oculto. É uma verdadeira aplicação da magia para a cultura popular”, finaliza Mark Dery, o mais fervoroso amante de “romances que envolve a ficção gótica do capital em Karl Marx e o constructo do ego em Sigmund Freud”. Para ele, as perguntas hão de cativar mais preocupações que as correspondentes respostas, e é preciso se jogar nesse abismo para que os questionamentos venham à tona.


Trailer de um versão em terror do clássico Mary Poppins

Principais livros de Mark Dery
The pyrotechnic insanitarium: american culture on the brink (O antisanatório pirotécnico: a cultura norte-americana à beira do abismo) (1999)
Escape Velocity: Cyberculture and the End of the Century (1996)
Flame Wars – The Discourse of Cyberculture (1995) – Editor
Culture Jamming: Hacking, Slashing and Sniping in the Empire of the Signs (1993)

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