(Foto: Divulgação)

TRAVESSURAS SOB AS VESTES DA REALEZA
Ruy Castro conseguiu trazer vivacidade e inovação num tema esgotado: a aventura da chegada da Corte de Portugal ao Brasil
Por Rafael Dias

A efeméride dos 200 anos da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil Colônia em março de , ao Rio de Janeiro, rendeu um conjunto de homenagens, eventos, selos, livros, ensaios, teses, desfiles de escola de samba e toda sorte de lançamentos no fim do ano passado e começo deste. Mas, em meio a essa enxurrada de comemorações, uma se destaca pela criatividade e pelo afiado estilo literário. , novo livro de Ruy Castro, combina realidade histórica com ficção com bom humor e narrativa leve, sem perder a perspectiva política e social da época. Hábil biógrafo, o jornalista fisga o leitor com uma linguagem atraente e saborosa, aos moldes do estilo romântico do Século 19. Difícil não se deixar conduzir pela história.

O mérito de Ruy Castro está em recontar um fato histórico, um dos mais importantes do recente passado brasileiro, sem a pretensão de trazer à tona algo inédito, alguma fofoca dos bastidores. Tudo que ele diz está lá, registrado na historiografia nacional: os desvarios da rainha Carlota Joaquina, o jeito inseguro e um tanto subserviente de D. João VI, as ruas podres e fétidas do Rio de Janeiro antes da urbanização, os severos estratos sociais (escravos, colonos, portugueses) etc. Isso todos já sabem, ou pelo menos deveriam saber. Mesmo exaustivamente explorado, o tema ganha vivacidade pelas mãos do escritor, que embute histórias fictícias e floreios, e ao mesmo tempo, não deixa de ser fidedigno ao contexto a que se propõe recompor.

Para não se perder em suas próprias elucubrações, o autor usa como artifício elaborar um pastiche engenhoso com base em uma obra-prima do romantismo brasileiro, o livro Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Não apenas transpõe o ambiente e os cenários descritos no livro oitocentista, como dá sobrevida (!) ao personagem-título da obra, o garoto Leonardo, abandonado pela mãe e ignorado pelo pai. Em um encontro só possível na literatura, Castro reúne o personagem inventado com um bastante real, D. Pedro, filho de D. João VI, ainda um garoto serelepe e de calças curtas. Num tacanho Rio de Janeiro de 1810, Leonardo e D. Pedro, na flor dos 12 anos de idade e de temperamento endiabrado, tornam-se amigos inseparáveis de aventuras e travessuras, tropicalizam-se e aprontam de tudo o mais sob os narizes insuspeitos da realeza.

Com estilo satírico e muita picardia, Ruy Castro transmite a malemolência e o “jeitinho brasileiro”, ou o protótipo do que isso viria se tornar hoje em dia, do quadro em que pincela a sociedade de então. Padres, prostitutas, comerciantes, farsários, nobres, todos usam de seus subterfúgios para extrair a riqueza que podem da Coroa. Nesse sentido, Castro só corrobora a imagem que se tem dos primeiros habitantes que aqui no Brasil chegaram: em suma, degredados, piratas e oportunistas, sem um traço sequer de moralidade e ética, cada um querendo seu quinhão. Seria, por coincidência, a mesma faceta podre que se apodera ainda das entranhas do comportamento brasileiro e que teimamos em escamotear?

era-no-tempo-do-rei-ruy-castro-capa.jpgNão há em Era no Tempo do Rei, no entanto, qualquer tom de questionamento político, pelo menos explícito. Trata-se mais de um livro com uma história leve, divertida. Também não traz nada de novo, vide o filme Carlota Joaquina, de Carla Camuratti: a sátira é igual. O brasileiro adora rir de si mesmo, e a obra se apropria disso muito bem. Mas é inegável que a crítica social e histórica subsiste em seus meandros. Nele, podemos encontrar pistas e atalhos para entender melhor (e nunca é demais) o contexto da panacéia que vivemos hoje.

ERA NO TEMPO DO REI – UM ROMANCE DA CHEGADA DA CORTE
Ruy Castro
[Objetiva/Alfaguara, 248 págs, R$ 35]

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