PARA ALÉM DA ASSINATURA INDIE
Por Talles Colatino

No ano em que a Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto) abre os mares do balneário para receber a África e pensar sua literatura, vale o seguinte questionamento: do que é feita a literatura africana? Ou mais claro: o que torna africana uma literatura? Somente a nacionalidade do escritor? Quais traços a escrita desse continente esconde em suas entrelinhas?

Tantos questionamentos fazem sentido por estarmos tratando de uma arte que está mais para as perguntas que para as respostas. E seguindo esse mesmo raciocínio, podemos cair no velho ponto de que se existe, realmente, uma literatura segmentada. Seja ela feminina, gay, negra, jovem ou tantas outras temáticas que criam para separar a literatura do seu real objeto (e significado), a arte acaba ganhando sempre mais quando pessoas que fogem do canônico estão colocando à prova sua real funcionalidade.

Em sua programação, a Fliporto 2008 dedica uma mesa exclusiva para debater a sempre instigante literatura contemporânea. E entre os convidados para o debate, chama a atenção o nome do carioca João Paulo Cuenca. Autor de O Corpo Presente e, o mais recente, O Dia Mastroianni, Cuenca é nome certo em listas de bons nomes que estão fazendo a nova literatura brasileira.

Dono de uma narrativa que dialoga diretamente com o que se convencionou chamar de pós-moderno na literatura, João Paulo Cuenca pertence àquele grupo de jovens escritores que conseguiram angariar certo hype em torno do seu nome. Tanto que é considerado o escritor dos indies tupiniquins… Mas, para além do tal “título” questionável (para não dizer condenálvel), O Grito! bateu um papo breve com o carioca sobre tantos, mas ainda tão poucos temas, que o processo criativo de um autor contemporâneo faria render. Confira abaixo.

Em que ponto as literaturas de jovens nomes como Bernado Carvalho, Daniel Galera, Santiago Nazarian, Clarah Averbuck e João Paulo Cuenca se encontram? Há uma linha, que não a cronológica, que possa tocar todos esses trabalhos?
Bernardo Carvalho já não é um jovem nome, é um escritor consagrado. Sobre os outros, não acho que necessariamente exista qualquer linha de contato. Ou, pelo menos, não cabe a mim essa reflexão.

Como você analisa a relação mercado editorial x jovens escritores? O que o mercado espera de um escritor iniciante?
O mercado espera o que o mercado costuma esperar: que o livro venda. Mas normalmente, não é o que acontece.

Muitos escritores hoje deixam a ficção de lado para tentar construir o que muito soa como uma autobiografia alucinada. Você concorda com isso?
Acho uma generalização ingênua.

Quem, da sua geração, merece destaque na sua biblioteca?
Joca Terron, Chico Mattoso, Daniel Galera, entre outros.

Que responsabilidade o público provoca em você a cada novo texto? Você sente que o público já meio que espera algo do seu trabalho?
Sim, certamente espera. E isso me deixa extremamente desconfortável.

O Dia Mastroianni tem uma narrativa bem cinematográfica. Já pensou em trabalhar alguma obra sua no cinema? Simpatiza com essa idéia?
Os direitos do meu primeiro livro foram comprados pela Tv Globo, e alguns diretores pareceram interessados pelo Mastroianni. Simpatizo com essa idéia, sim. Mas acho que uma adaptação minha teria que ter uma narrativa bem literária.

A Fliporto desse ano homenageia vozes africanas. Você tem gosta e/ou tem contato com a literatura desse continente?
Gosto muito do escritor angolano Ondjaki, que estará na Fliporto, inclusive.

O que pretende abordar numa mesa intitulada “Literatura Brasileira Hoje”?
Espero poder falar do meu trabalho, do que estou escrevendo agora.

Literatura africana, brasileira, feminina, gay… Que função você atribui a esses recortes que a literatura foi tomando ao longo dos tempos?
Esses recortes interessam muito mais ao mercado do que a mim. Não penso neles na hora de escrever, e muito menos na hora de selecionar minha leitura.

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